Euro 2016

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A aritmética da seleção: morrer o jogo todo para matar no fim

A equipa de Portugal tem mostrado uma enorme incapacidade para gerir os resultados. Não se trata de jogar para o empate. É mesmo sofrer até ao fim. E ganhar levada pela sorte

Miguel Cadete

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A seleção de Portugal já bateu um recorde. O facto de ter chegado às meias-finais do Euro 2016 sem qualquer vitória no tempo regulamentar oferece-lhe um lugar na história. Os três empates na fase de grupos, mais os dois alcançados nos oitavos de final e nos quartos de final constituem uma proeza única: nunca ninguém chegou tão longe com cinco empates. Nem em fases finais de Europeus nem em Mundiais.

Uma estatística que fez recordar a Itália do Mundial de 1982 - que também empatou todos os jogos da fase de grupos mas que depois aviou sem contemplações Argentina, Brasil, Polónia e Alemanha – mas que é bastante mais surpreendente. Sobretudo porque, ao contrário do cinismo italiano, Portugal tem-se mostrado incapaz de gerir o resultado ao longos dos 90 minutos. Mesmo diante de equipas teoricamente mais fracas ou pior classificadas no ranking da FIFA.

Nos cinco jogos que já leva neste Europeu, Portugal esteve em campo durante um total de 510 minutos. Ora, apenas estivemos à frente do marcador durante uns míseros 22 minutinhos. Isto quer dizer que a seleção só se encontrou a dominar durante 4,3% do tempo de jogo jogado. A estatística não ajuda mesmo nada. Nestes cinco jogos, onde se inclui a vitória sobre a Croácia já no prolongamento, corremos atrás do prejuízo durante 64 minutos. Isto é, durante 12,5% do tempo estávamos a perder.

Se olharmos para os dois últimos jogos, aqueles em que tudo se decide entre matar e morrer, as finais, como diz Fernando Santos, as coisas pioram um pouco. Com a Croácia, estivemos empatados durante 117 minutos. Só a três minutos do final do prolongamento passámos para a frente e decidimos a eliminatória que nos deu acesso aos quartos de final. Aí chegados, frente à Polónia, o cenário ainda foi mais sombrio. Estivemos 31 minutos na posição de derrotados. O golo de Renato Sanches, aos 33 minutos, ofereceu-nos o empate mas daí até final do tempo regulamentar, e mesmo durante o problema, Portugal foi incapaz de resolver o jogo a seu favor.

A esse respeito, as estatísticas da UEFA são também esclarecedoras. Durante o jogo com a Polónia, a seleção teve 46% de posse de bola. Contra a Croácia, o outro jogo a eliminar que já jogámos neste Europeu, a nossa posse de bola ainda foi inferior e ficou-se pelos 41%. Não se pode dizer que estes sejam números próprios de equipas que entram em campo para dominar os jogos. E na verdade não são. Se retiramos o jogo contra a Hungria, em que Portugal entrou a jogar em, 4-3-3, Portugal marcou apenas três golos em quatro jogos. Já a Alemanha tem, durante todos os jogos, 63% de posse de bola.

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Claro que tudo isto se pode explicar por este ser o Europeu com mais equipas e, portanto, com equipas mais fracas que se dispõem em campo com a firma vontade de empatar. Claro que resultados fraquinhos como os de Portugal só nos permitiram chegar às meias-finais por, muito provavelmente, a qualificação obtida na fase de grupos – o 3º lugar – nos ter colocado do lado das equipas teoricamente mais fracas, evitando a Itália, Alemanha, França, Espanha ou Bélgica.

É também claro que Cristiano Ronaldo perdeu alguma eficácia e não está num pico de forma, nem a rematar, nem em velocidade, nem a driblar ou a marcar livres diretos; mesmo que seja o jogador mais rematador do torneio (36 remates, dois golos; contra 21 remates de Bale que deram três golos). Cristiano é o que mais livres tentou: dez, mas sem qualquer resultado. Já Bale marcou por duas vezes nas cinco tentativas de que dispôs. Portugal é, porém, a segunda equipa mais rematadora do Europeu, só ultrapassada pela Bélgica. Mas não conseguiu mais do que uma média de 1,2 golos por jogo o que contrasta com 2,2 da França ou a média de 2 golos por jogo do País de Gales.

Esta não é a equipa do Euro 2000 que com Figo, Rio Costa, João Pinto ou mesmo Sérgio Conceição foi capaz de chegar às meias-finais. Não é também aquela que com Deco, Maniche, Costinha ou mesmo Cristiano e Ricardo Carvalho chegou à final do Euro 2004. Fernando Santos sabe disso e ninguém melhor do que ele para perceber que quem não tem cão caça com gato.

Mas um jogo nunca se repete e o de hoje será muito possivelmente diferente de tudo isto que aqui atrás ficou exposto. Porém, é pouco crível que Portugal mude a sua forma de jogar, ainda que o País de Gales seja a única equipa, além de Itália, a jogar com três centrais. Fernando Santos percebeu que meter Renato Sanches no onze inicial pode baralhar as coisas logo de início, como aconteceu com a Polónia, ao desequilibrar o meio-campo. O mesmo sucedeu quando jogámos de início com Cristiano, Nani e Quaresma, contra a Hungria e sofremos três golos.

Isso quer dizer que para hoje não seria surpreendente que o selecionador mandasse entrar em campo a sua equipa mais defensiva com Rui Patrício, Cédric Soares, Pepe (ou Bruno Alves, o único jogador de campo que ainda não entrou durante este torneio), José Fonte e Raphäel Guerreiro; Danilo Pereira, Adrien Silva, João Mário e João Moutinho; Cristiano Ronaldo e Nani. Renato e Quaresma entrariam em caso de necessidade. Era bom que nem fosse preciso. E que desta vez não fosse necessário sofrer até ao fim para saber que estaríamos na final de Paris.