Euro 2016

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Carta de amor a Cristiano Ronaldo

Cristiano, bem sei que as coisas correm bem quando te irritas. Hoje quis tentar outra estratégia. Esta é a minha carta de amor para ti

Sílvia Caneco

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Cristiano, deixa-me tratar-te assim, no outro dia vi na TV o Diogo, um miúdo filho de portugueses que emigraram para França, e que tinha um sonho: ter um autográfo teu. Vi-o há uns dias, à porta do centro de estágios da seleção portuguesa em Marcoussis, a encher o ecrã. O Diogo soluçava. Soluçava tanto que não conseguia explicar porque estava naquele pranto. Não tinha conseguido o teu autógrafo, mas não era por isso que chorava. Era, isso sim, porque tinhas estado ali ao lado, a dizeres-te orgulhoso, a agradeceres a devoção e a prometeres dar tudo. Tu e os outros jogadores que o Diogo está habituado a ver do outro lado do televisor, e pouco mais, porque vive em França e os portugueses não jogam lá assim tantas vezes.

A imagem do Diogo a soluçar, ao lado de centenas de adeptos que gritavam pela seleção de uma maneira que só vimos em Portugal na era Scolari, era coisa para emocionar qualquer um, sem ódios de estimação ou clubites agudas. E fez-me lembrar outra imagem, de há 12 anos, no Estádio da Luz. Outro menino a chorar que nem um menino no final do Portugal-Grécia. Chamava-se Cristiano. Lembras-te?

Tínhamos mais ou menos a mesma idade. Ainda tinhas umas borbulhas, começavas a ganhar corpo, e havia já quem dissesse que tinhas uns pés do outro mundo, que ias ser uma estrela dos relvados. Mas a mim, que percebo tanto de bola como de física quântica, e que só sofro com futebol de dois em dois anos, tu, o Cristiano filho da Dona Dolores, tocaste-me mais pelo coração. Estava ali a imagem de quem não joga apenas como os melhores. Mas de quem quer, de quem se esfola, e de quem sofre. Os jogadores bem que podem ter os pés mais dotados, as estratégias mais inteligentes, somar golos, bater recordes, acumular estatísticas, mas quem sofre assim está do lado dos homens. É por isso, Cristiano, que me é tão fácil gostar de ti. Sobretudo quando te irritas. Quando te impões. Quando te sacrificas. O resto é como dizes: que sa foda.

Tu, Cristiano-antes-menino-hoje-melhor-do-mundo, merecias ganhar isto antes de a idade te retirar velocidade aos sprints e nos afastar dos teus pés de outro planeta. O Diogo lembrou-me que estes emigrantes portugueses em França - a maior comunidade portuguesa pelo mundo -, que fazem quilómetros, que não arredam pé dia e noite, que gritam por Portugal e pelos nomes de todos os jogadores com a garganta e a espinha, estes emigrantes que deixaram para trás a miséria mas nunca, nunca o seu país, mereciam tanto, tanto esta alegria. Eles perceberam aquilo que tanto nos custa entender por cá: que não interessa se xis é do Sporting, do Benfica, do Porto ou do Real Madrid. Nunca os ouvi dizer que não jogamos nada. Nunca os ouvi dizer que não acreditam. Ali, por estes dias, a seleção é a casa que ficou para trás. É coração, apenas coração. Não havia melhor lugar no mundo para nos vingarmos daquele 2004 que ainda nos amarga.

Que bonito seria, Cristiano, ver Portugal de novo na torre mais emblemática de Paris, ao mesmo tempo que alguém na rádio podia fazer um relato que ficasse na história como aquele fantástico do Jorge Perestrelo, no jogo em que o Ricardo-guarda-redes tirou as luvas e pôs a bola na baliza, qualquer coisa de espetacular com estas palavras tão simples: je t'aime, Portugal.

Nesse dia, o teu antigo colega Maniche, que marcou aquele golaço que nos catapultou para a final do Euro2004, iria sentir-se vingado. O Scolari talvez viesse da China para abraçar-te. O Diogo, tenho a certeza, iria estar a soluçar por todos nós.

Cristiano, bem sei que as coisas correm bem quando te irritas. Hoje quis tentar outra estratégia. Esta é a minha carta de amor para ti. Podes mandar ao lago os microfones que quiseres, fazer os piretes que quiseres, ter as mulheres que quiseres. Podes irritar-te quando não te passarem a bola, olhar para o céu quando te faltarem as pernas. Porque ninguém quer isto como tu. Ninguém quer tanto salvar-nos como tu. Ninguém vai rir ou chorar como tu, jogador mais próximo dos homens. A cada golo que marcares neste Europeu vou continuar a usar a minha hahstag preferida: #jetaimeronaldo. Estás aqui, bem do lado esquerdo. Continua a dar-lhe que fazer.

P.S. - Dá um abraço meu ao Quaresma: diz-lhe que é mais do que de homem cair e regressar em glória.

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