Euro 2016

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“Eles acham que vão perder, e já estão todos conformados”

O ponto de vista de um português que vive no País de Gales sobre o jogo que está a horas de acontecer

Luís M. Faria

Stu Forster

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João Silva, de 45 anos, natural de Lisboa, reside há cinco anos em Cardiff, no País de Gales. Mudou-se para lá em plena crise - como medida de antecipação, segundo explica. Trabalhava em imobiliário, hoje é gerente de restaurante em Penarth, uma terra junto à capital. Elogia vários aspetos no seu país de adoção, incluindo a facilidade com que se encontra um campo para jogar futebol gratuitamente nos muitos espaços verdes distribuídos pela cidade. Outros portugueses aproveitam essa vantagem, sobretudo ao fim de semana, mas ele não. Fã sem ser praticante, acompanha de perto a evolução do futebol português. O Expresso entrevistou-o por telefone.

Como estão a viver este momento? Para começar, com um bocado de surpresa. Não estávamos à espera que Portugal chegasse até aqui. Queríamos que chegasse, mas tendo em conta que não tínhamos sido muito felizes nos resultados… Por outro lado, uma vez que já chegámos até aqui, estamos naturalmente expectantes e com muita vontade de passar mais esta etapa.

Que relação há com a equipa de Gales? Bom, o desporto-rei em Gales é o râguebi. Nós vamos por ver um jogo ou outro por questão de curiosidade, mas a verdade é que não conseguimos sentir o râguebi como eles aqui. De resto, fora das quatro linhas é um espetáculo digno de se ver, uma vez que normalmente se juntam adeptos das diferentes equipas nos mesmos pubs, a beber e a viver os jogos, cada uns com as camisolas das suas equipas, em harmonia, sem se zangarem, sem haver confusões. O que muitas vezes não acontece no futebol, como se sabe. O futebol é uma coisa muito recente, que assume um segundo plano, embora agora, com o sucesso nas competições europeias, esteja a ter um relevo diferente. Maioritariamente, os fãs são fãs de râguebi. Mas claro que estão muito orgulhosos. E assustados, apesar do trajeto que a nossa seleção tem feito até agora. Temos uma reputação que é sobejamente conhecida. As últimas equipas já são todas maduras, todas habituadas a estas andanças, e Gales não.

Acha que eles pensam que vão perder? Sim, sim. Aliás, eles já estão todos conformados com isso. Dizem que não estão à espera que a seleção deles ganhe. Já se sentem muito contentes por terem chegado até onde chegaram. Desde 1958, se não me falha a memória, não acontecia nada assim. E nunca chegaram tão longe numa competição destas.

Vocês vão ver o jogo onde? Eu, infelizmente, vou estar a trabalhar. Sou gerente de restaurante. Mas o Filipe Brito (dono da cadeia de pastelarias Nata & Co) e eu, juntamente com o Bruno, que é o dono de um pub no centro da cidade, o Peppermint, organizámos lá um evento onde os portugueses se vão juntar. Naturalmente, a nossa cerveja vai estar presente, e o Filipe Brito vai estar também a patrocinar com o nosso pão com chouriço, os pastéis de nata…

Em geral, os portugueses aí acompanham muito o futebol? Sim, é um dos cordões umbilicais com a nossa pátria. Hoje em dia conseguimos acompanhar tudo o que é media português: televisão, rádio, jornais, etc. Vivemos aqui tanto o futebol como todas as outras coisas que nos ligam a Portugal. Por exemplo, agora, quando foram os Santos Populares, também tivemos um evento onde não faltou a sardinhas, as febras…

Mas uma casa do Benfica, por exemplo, não há. Não. A nossa comunidade aqui é muito pequenina. Começou a crescer nos últimos anos, mas se calhar nem mil portugueses cá temos. Em Merthyr [uma cidade a norte de Cardiff] também há uma comunidade, que já foi muito maior, quando havia muitas fábricas. Muitas delas fecharam, e a comunidade portuguesa também foi sendo substituída por uma outra, grande, a dos polacos.

Uma última pergunta: o que o fez ir para Gales? Foi uma medida de antecipação. As coisas estavam a ficar difíceis, e optámos, eu e a minha mulher, por abandonar as nossas carreiras. Eu sempre estive ligado ao imobiliário. Nos últimos vinte anos da minha vida, fui diretor comercial.