Euro 2016

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Este holandês treinou Gales, mas acha que a final vai ser Portugal-Alemanha

Foi em 2011 que a caminhada galesa para a história começou, quando a seleção foi renovada e subiu 80 lugares no ranking da FIFA. Gary Speed, entretanto falecido, era o selecionador e o holandês Raymond Verheijen, hoje formador de treinadores na World Football Academy, era o adjunto. Verheijen esteve no Euro 2016 a ver a "sua" seleção e explicou ao Expresso o que mudou em Gales

Raymond Verheijen já trabalhou com uma série de seleções, em Europeus e em Mundiais: Gales, Holanda, Coreia do Sul, Rússia e Argentina

DR

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És holandês mas hoje apoias Gales, certo?
Sim, conheço estes jogadores muito bem, ainda me mantenho em contacto com eles, por isso estou muito orgulhoso com o que conseguiram fazer no Europeu.

Ficaste surpreendido por chegarem às meias-finais?
Bom, claro que chegarem às meias-finais é uma surpresa, mas em geral não estou surpreendido com a boa prestação da seleção. Porque quando começámos a evoluir em 2011, com Gary Speed como treinador, fomos logo de 120º mundial para 40º mundial, por isso apenas num ano fizemos um grande progresso. Ou seja, há cinco anos já se podia ver que esta equipa tinha muito potencial, muito talento para conseguir mais. Hoje, eles jogam com dez jogadores que também estavam na equipa há cinco anos - estes jogadores já jogam juntos há muito tempo, o que é uma grande vantagem.

Esse ano em 2011, com Gary Speed e contigo, foi o início deste caminho?
Sim, foi a fundação, porque o Gary começou com uma equipa muito jovem. Os jogadores de hoje naquela altura tinham 20, 21 anos, porque ele decidiu começar com uma equipa nova, jovem, e também mudou todo o ambiente que rodeava a seleção. Foram substituídos os membros do staff, mudaram-se os hotéis, os campos, os médicos - passou tudo para um ambiente muito mais profissional. Foi o Gary Speed que mudou a cultura para Gales chegar onde chegou e Chris Coleman usou essa vantagem para desenvolver ainda mais a equipa.

Gary Speed foi selecionador do País de Gales em 2010 e 2011. Suicidou-se a 27 de novembro de 2011, com 42 anos

Gary Speed foi selecionador do País de Gales em 2010 e 2011. Suicidou-se a 27 de novembro de 2011, com 42 anos

Michael Regan/Getty

Depois de Gary Speed morrer, Chris Coleman foi contratado, no final de 2012, e tu escolheste demitir-te. Arrependes-te?
Não, claro que não, foi uma boa decisão e não teve nada que ver com Chris Coleman. Teve que ver com a Federação Galesa, porque nos meses anteriores já havia muitos problemas entre a Federação e o Gary, e ninguém sequer sabia, mas eram problemas muito grandes - ele e o presidente e o CEO estavam constantemente a discutir sobre as condições, por isso a relação entre todos já não era boa. Foi por isso que me demiti, porque vi com os meus próprios olhos que eles criavam muitas dificuldades.

Achas que aprenderam com essa experiência e agora melhoram com Chris Coleman?
Não sei, é difícil dizer isso. O que posso dizer é que Chris Coleman mudou a forma de jogar, porque o Gary jogava em 4-1-4-1 e agora é um 5-3-2, portanto é mais defensivo e mais baseado no contra-ataque, mas tem ficado provado que é uma forma de jogar muito eficaz para Gareth Bale.

Em Portugal também temos falado muito sobre a forma de jogar da seleção portuguesa, que tem conseguido resultados mas sem impressionar muito pela qualidade.
Vi os jogos todos até agora. O que digo é que no futebol é o resultado que interessa. Não importa como jogas, interessa que ganhes. E se Portugal estivesse a jogar com um futebol muito atacante e perdesse nos oitavos de final? E se Portugal continuar a jogar de forma cautelosa e chegar à final contra a Alemanha? Entre essas duas opções, toda a gente iria escolher a final. Há dois anos tivemos a mesma situação com a Holanda. Louis Van Gaal também jogava de forma mais defensiva, com um 5-3-2, mas chegou às meias-finais do Mundial. Por isso, no final todos ficaram orgulhosos e felizes por chegarem ali, ainda que no princípio se tivessem queixado da abordagem defensiva, claro.

Pode ser o mesmo com Portugal, então.
Pode ser exatamente o mesmo esta noite. Portugal é o favorito, especialmente porque Gales vai jogar sem Aaron Ramsey e acho que isso é um grande problema. Creio que Portugal irá passar à final, provavelmente contra a Alemanha. E se Portugal chegar à final, toda a gente no país vai ficar feliz. E se ganharem a final, ainda mais felizes ficam [risos]. O que interessa é o resultado.

FRANCISCO LEONG / GETTY IMAGES

Costumas dizer que os treinadores ingleses são "dinossauros" em termos de métodos de treino e recuperação. Ficaste surpreendido com a eliminação de Inglaterra?
Não, porque o modelo de jogo que escolheram foi um grande problema e nem sequer tinham uma boa estratégia contra a Islândia. Para além disso, também se podia ver que os jogadores estavam cansados, a jogar de forma muito lenta. O erro de Roy Hodgson foi pegar nos jogadores imediatamente após o final da Premier League, começando logo o estágio. O que ele deveria ter feito era ter dado cinco dias de folga aos jogadores, para que recuperassem o cérebro e os músculos. E só depois começar o estágio, já com uma frescura diferente. A questão é que estes problemas já se repetem há oito torneios, salvo erro. Os ingleses não chegam a uma meia-final desde 1996.

E na Holanda? Querem fazer mudanças por terem ficado de fora do Euro?
Bom, o problema na Holanda é que as pessoas agora falam em copiar outros países. Há uma crise e então as pessoas pensam que a solução é copiar os outros, mas o que devíamos fazer é voltar ao mais básico. Pensar nas razões que fizeram o futebol holandês ser tão bom no passado e tentar fazê-lo crescer novamente e ainda melhor. Porque copiar o campeão quer dizer que vais estar sempre atrás de alguém. Se copias alguém, nunca serás o número um. Estarás sempre atrás de alguém.