Euro 2016

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Lá Em Casa Mando Eu: 22 análises especiais e uma palavra para Pepe, ex-paramilitar a soldo

O Manel e a Catarina voltaram às considerações sobre os futebolistas que jogaram por Portugal. Prepare-se

Stu Forster

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O ONZE DO MANEL

Rui Patrício. "Então isto não vai a penalties? Têm a certeza? Porra, podiam ter dito, tinha coisas combinadas. Ok, vou fazer aqui umas defesas difíceis, então."

Cedric Vive sempre na ânsia do anonimato, que ninguém se lembre dele no fim do jogo, como se fosse um árbitro. Cumpriu os seus desejos de poder ir para o centro de estágio ler os recortes de jornal quando entrou na equipa do mês da Premier League. Antes de se deitar, imagina que um dos seus cruzamentos deu golo, que tem um penteado igual ao do Quaresma e é considerado o tipo mais fixe do Southampton.

José Fonte O facto de não ter passado tempo suficiente cá no burgo para lhe conhecermos os defeitos mais o ar de bom gigante, torna-o imune às nossas piadas de baixo nível. Um agradável Europeu.

(uma palavra para Pepe, um ex-paramilitar a soldo do FCP e Real Madrid que se regenerou de tal forma que rejeitou jogar as meias-finais para ir fazer uma missão humanitária para a UNICEF)

Bruno Alves Depois da entrada sobre Kane, pensei que Bruno andaria a monte, escondido, tipo Manuel Palito. Escondeu-se à vista do mundo inteiro, no meio do tédio da primeira parte. O seu cartão amarelo - tão estúpido como engraçado - pode tê-lo denunciado e alertado as autoridades.

Raphael Guerreiro O Salieri do Mozart português. Aquele futebol pensado, apoiado, sempre a procurar os colegas e as posições interiores, os cruzamentos certeiros, como o do primeiro golo e o aval que lhe é dado pela transferência para Dortmund não apagam a falta que o génio de Eliseu fez.

Eliseu Colocado no banco - a meio, para não desequilibrar - orientou espiritualmente os colegas, após ver no fundo dos olhos de cada um os seus mais profundos medos e ânsias. Moralizou-os com um belíssimo poema, e, ao invés do "se perdermos, que se foda" de Cristiano Ronaldo, gritou "Fodo-vos se perderem". Mestre da motivação. Melhor em campo. Melhor do Europeu.

Danilo Admiro imenso o ar concentrado, meio zen, meio vilão do James Bond antes de revelar os seus planos. Um ar que permite a Danilo parecer um trinco sério, mesmo tendo sido ultrapassado em velocidade mais vezes do que devia. Danilo é aquele colega de trabalho que diz muitas vezes "evidentemente" e "na conjuntura actual" durante as reuniões, parecendo sério, quando na verdade passa o tempo a tentar bater o recorde de Minesweeper. Quase marcava o terceiro golo, que lhe daria o prémio de empregado do mês.

Adrien Se perdesse as peneiras de que é o próximo Enzo Perez e assumisse com gosto a arte de não fazer nada de errado nem de profundamente espectacular - a arte que verdadeiramente domina, como se viu hoje na maneira marcou Joe Allen como se fosse o Modric - eu deixava de embirrar com ele.

Renato Sanches Uma exibição mais apagada - a frustração de já não ser jogador do maior clube do mundo há 4 dias e ter que enfrentar a triste realidade de ser do Bayern de Munique começa a sentir-se. A melancolia e as saudades abatem-se já sobre o jovem craque, que aproveita os últimos momentos com Eliseu como colega, irmão e guia espiritual - e a quem dedicou a simulação do segundo golo. Foi como ver o Karate Kid começar a despedir-se do Mr. Myagi.

João Mário Procura-se médio centro talentoso e desequilibrador, forte no ataque posicional, inteligente a atacar, que aparece bem nas zonas de finalização. A última vez que foi visto foi no golo contra a Islândia, na primeira jornada. Por favor, partilhem esta mensagem pelos vossos contactos ou façam like.

Nani Passou para segundo lugar nos melhores marcadores do Europeu, mas também para segundo lugar nos penteados ridículos da selecção - Quaresma parece imbatível - o que dá uma sensação agridoce à noite de Nani.

Cristiano Ronaldo Parou no ar, quase tão alto onde passam os seus livres, viu as vistas, lembrou-se do que Eliseu tinha dito e meteu-a lá para dentro. Golaço. Que se foda a gravidade.

André Gomes Entrou para tornar o jogo mais lento. Se tivesse entrado na primeira parte, é possível que o tempo tivesse andado para trás.

João Moutinho Depois de Portugal inteiro ter visto como Ronaldo o obrigou a marcar o penalty, Moutinho entrou novamente obrigado em campo, cumprindo o castigo de jogar uma meia final do Europeu sem chorar.

Quaresma Substituiu Nani e, felizmente, o jogo já estava resolvido. Se marcasse novamente um golo decisivo, era possível que o país inteiro fosse trabalhar amanhã com aquele penteado e já temos problemas que cheguem com a União Europeia.

E O ONZE DA CATARINA

Rui Patrício Se Rui Patrício tivesse vivido no tempo dos Descobrimentos, seria o único a ficar no barco enquanto os outros iam curtir a Índia. Porque Rui Patrício não precisa de muito para ser feliz. Uma defesa aqui, um pontapé de baliza acolá e está feito.

Cédric Colocar Cédric a marcar Bale seria, à partida, qualquer coisa como colocar a Patrulha Pata a marcar o Darth Vader. Felizmente o galês apareceu mais no meio, onde havia o genial Danilo para o parar.

Bruno Alves Acho que o Bruno Alves daria uma boa personagem dos Morangos com Açúcar: aquele com ar de mau, mas que tem um fundo intenso e doce que vamosdescobrindo à medida que a trama se aprofunda. Grande corte aos 60 minutos, provando que, além de acertar em cabeças de adversários, também sabe acertar na bola.

José Fonte Daqui a uns anos, quando recordarmos este Europeu, vamos falar do futebol horrível que se praticou e vamos ter dificuldade em dizer o 11 de Portugal. Por isso, vou escrever já "Euro 2016 central que fazia dupla com o Pepe sem ser o Ricardo Carvalho", para ajudar numa futura pesquisa no Google.

Raphael Guerreiro A principal qualidade de Raphael Guerreiro é não ser Eliseu. Também faz sentido que, num Europeu em França, tenhamos um representante dos emigrantes em campo, embora o facto de não ter bigode nem penteado à Futre dos anos 80 me deixe um pouco desiludida. O cruzamento para o primeiro golo foi feito à medida, como tem de ser o fato oficial do Eliseu.

Danilo Após o penálti decisivo de Quaresma contra a Polónia, ficou-me na cabeça a imagem de Danilo, impávido e sereno, enquanto os colegas já festejavam entusiasticamente a passagem às meias. É compreensível que Danilo não festeje mais uns dias longe de uma instituição tão magnífica quanto o Futebol Clube do Porto. Ainda assim, fez hoje mais uma exibição notável, evitando as entradas de Bale pelo meio e as sanções da Comissão Europeia a Portugal. Ainda bem que o Marítimo não exigiu que ficasse no contrato um pagamento em caso de vencer a Bola de Ouro. Falhou o terceiro golo por pena dos galeses, demonstrando um enorme sentido de humanidade.

Adrien Ter que elogiar o Adrien sabe-me tão bem quanto saberia ao líder do Estado Islâmico entrar num bar repleto de mulheres emancipadas, homossexuais assumidos e humoristas ateus. Por isso vamos ficar por aqui.

João Mário Joga sempre com aquele ar de quem nunca mentiu na declaração do IRS e de quem abranda no sinal amarelo. Até aqui isto parece um elogio, mas à selecção falta aquele médio do desenrasca, aquele canalizador que leva 100 euros por 5 minutos de trabalho e ainda substitui uma peça mal. O falhanço aos 66 minutos foi uma bonita homenagem a Éder.

Renato Sanches Votar em Renato Sanches para melhor em campo é como votar no PAN: é simpático, mas desconfio que não é a sério. Saiu sem fazer nada de especial além de abrir as pernas no segundo golo, mas vai jogar uma final de um Euro com a mesma idade com que muitos de nós apenas ambicionávamos apanhar uma bebedeira na Queima das Fitas.

Nani É um bocado o presidente Marcelo do ataque da selecção: está em todo o lado. Penso que podemos dizer com alguma certeza que foi mais feliz em Lyon do que José Cid em Trás-os-Montes. Quando marcou o segundo golo, viu-se o galês Joe Ledley a gritar à noiva que afinal sempre podem casar no sábado.

Cristiano Ronaldo Finalmente uma exibição ao nível de Ronaldo e desta vez nem foi preciso entrar em acção o microfone da CMTV. É pena que não tenha deixado o Raphael marcar o livre aos 63 minutos, já que neste Euro o que há de mais parecido com os livres de Cristiano Ronaldo são os livros de José Rodrigues dos Santos: lá por serem muitos, não quer dizer que sejam bons.

Quaresma O talento de Ricardo Quaresma é inversamente proporcional ao do seu cabeleireiro: quanto mais o jogador se torna decisivo na selecção, mais indecifrável fica aquele penteado. É uma espécie de Sansão deste Euro, mas o mau gosto só o torna mais forte.

João Moutinho Se Moutinho alguma vez hesitasse antes de marcar um penálti no FCPorto, garanto-vos que não usaria palavras tão simpáticas como as de Ronaldo. No entanto, quando o vejo no banco e a entrar só para acalmar o jogo, nasce em mim uma taróloga da SIC com vontade de lhe dar mimos.

André Gomes Quando Fernando Santos disse que só voltava dia 11, esqueceu-se de precisar que André Gomes, a esta velocidade, só chega cá para o Natal.