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Renato, os autocolantes e os meus rapazes

O lado luminoso do futebol é a magia de calções e sapatilhas que transforma a ambição, a persistência, o trabalho, a garra de um puto da Musgueira em sucesso planetário

Pedro Norton

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O futebol parece às vezes um mundo de sombras e nevoeiros. Parece um mundo opaco, feito de neblinas densas, de criminosos à solta, de personagens bizarros, de noites sem fim, que é o mundo de uma das fitas cá de casa: filme homónimo de Woody Allen em que presta uma justíssima homenagem ao expressionismo alemão, um dos meus amores excêntricos.

O futebol sabe ser um mundo sórdido. De negociatas escuras, de negócios mal contados, de bares de bas fond, de comissões panamianas, de máfias da noite. Mas também de corrupção nas suas mais altas esferas, de crimes de colarinho branco, de dinheiro a rodos, de inexplicável inimputabilidade. Uma coutada longe da justiça dos mortais. Um mundo dentro do mundo.

O futebol sabe ser um universo de violência. Uma lixeira onde desaguam todas as frustrações reprimidas, os ódios contidos durante o ano, as xenofobias escondidas. Um mundo de criminalidade organizada, de máfias permitidas, de gangs patrocinados. Um mundo capaz de transformar num ápice uma tarde pacata numa civilizada cidade europeia num cenário de guerra civil.

E no entanto. E no entanto, o futebol está longe de ser, apenas, este lugar sombrio. E não, não falo só, nem sequer sobretudo, da beleza do jogo, da exaltação da tática e da estética, do entusiasmo sadio, da inclusão e do sentido de pertença que também é e sabe ser. Falo, deu-me para falar, do Renato. Pois. Do Renato. Cá em casa, rapaz, és o nosso herói. Vimos-te crescer, sabes como são estas coisas. Vimos o nosso Benfica transfigurar-se desde que passaste a titular. Vimo-lo passar de um futebol tristonho, sem ideias e muito menos pulmão para aquelas jogatanas onde levavas tudo atrás. Box-to-box à antiga. Mesmo antes dos meus rapazes saberem que o eras, já te aplaudiam e te chamavam furacão. Deste-nos o campeonato, rapaz. E cá em casa isso dá direito a autocolantes nas portas e a admiração eterna. Depois, como se não bastasse, veio a seleção. Que jogou com aquela fuça deprimida até que o Eng.º teve a humildade de perceber que não podia persistir no erro e que sem ti não íamos a lugar nenhum. Que sem ti não encontraríamos nunca a alegria que não seria nenhum dos demais a descobrir. Mais autocolantes. Mais admiração.

Mas desculpa lá, Renato, nem é do teu futebol guerreiro que quero falar e a crónica já vai adiantada. O meu ponto essencial era outro. O lado luminoso do futebol, o lado que faz esquecer tudo o mais, é o facto de se ter transformado numa das mais poderosas máquinas de ascensão social num país que é ainda, e apesar de todos os progressos, um país demasiado rígido e estratificado. O lado luminoso do futebol é a magia de calções e sapatilhas que transforma a ambição, a persistência, o trabalho, a garra de um puto da Musgueira em sucesso planetário. O lado luminoso do futebol é a lição que dás aos meus rapazes. E a todo este País que voltou a ser das 35 horas.

O Manuel, que sabe muito bem que não tenho o seu Deus e que atura os meus ataques de mata-frades primário, despede-se de mim todas as noites com um tão teimoso quanto terno “durma com os anjos”. À cabeceira tem o teu autocolante. Não te peço que sejas anjo porque essa coisa da virtude em excesso é uma grande e perigosa chatice. Peço-te só que não te estragues, rapaz. Os miúdos precisam de heróis em quem possam acreditar.