Euro 2016

Perfil

“Se ganharmos, vou ser o único a buzinar com o meu jipe”

Aqui se fala com os galeses que vivem por cá

Tiago Oliveira

Stu Forster

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“Ainda sinto na garganta o berro que mandei quando Gareth Bale marcou o golo contra a Inglaterra”, conta James Jones. Um momento que, em apenas um pontapé, encapsula tudo o que o País de Gales tem trazido para o Europeu e para os seus encantados adeptos: desafiar as expectativas sempre com recurso ao espetáculo. Se perguntassem a alguém se acreditava que este povo, que não ia a uma grande competição internacional desde 1958, chegaria às meias-finais do Euro 2016 seria provavelmente recebido com o mesmo olhar de desprezo reservado a quem apostou no título para o Leicester (talvez menos, vá).

Certo é que o membro do (ainda) Reino Unido ultrapassou todas as previsões e as restantes nações das ilhas para chegar a esta fase e reservar um confronto contra Portugal. O desafio é visto por muitos como um confronto de pesos pesados entre os dois colegas de equipa no Real Madrid – Bale e Ronaldo – mas os fãs galeses não têm dúvidas que a sua equipa é daquelas cujo conjunto vale mais que a soma das partes. E, mais que qualquer super estrela, essa é a sua grande arma.

James está muito confiante porque sente uma seleção “unida em torno do mesmo ideal” e em que todos os jogadores “correm e olham para o colega.” Apesar de lhe parecer que Bale está “cansado”, o mesmo aparentam os atletas lusos que “ainda não impressionaram ao longo da competição.” Já do seu lado, Ben Davies (hoje suspenso) e Hal Robson Kanu têm sido os mais surpreendentes, enquanto a vitória contra a Bélgica o deixou “espantado com a qualidade demonstrada na reviravolta.”

A morar em Portugal há 5 anos vindo da localidade de Penmaenmawr (se quer desafio para ocupar a mente até ao jogo, tente dizer isto em voz alta), não deixa que a paixão que já ganhou ao país lhe tolde o sentimento. “Ambas vão ter que corresponder à exigência e acredito que vai ser um desafio excitante, com golos e emoção até ao fim”, acredita. A aposta vai para um 2-1 a favor do País de Gales e, para precaver qualquer imprevisto para a noite, vulgo uma vitória portuguesa, James já tem a receita preparada: “cerveja para celebrar ou chorar.”

Aos apitos

Mais fã de rugby mas a acompanhar “sempre de forma intensa” a seleção do seu país desde o início do Europeu está Becky McKenna. A galesa deslocou-se para este cantinho à beira-mar plantado há “1 ano e 5 meses”, para acompanhar o seu namorado na abertura do The George Pub, em Lisboa. A esperança e o “desejo maior” vão para a vitória do País de Gales, embora admita estar um “pouco de coração dividido”. Desde que “ganhe a melhor equipa”, já fica satisfeita e promete desde já o seu apoio para a final.

O progresso da equipa tem-na “surpreendido” com a jogo da Bélgica a merecer especial destaque pela emoção de ver toda a equipa a deixar a Europa “de boca aberta.” O segredo está na “união entre todos” embora seja impossível não “adorar o Mr. Bale.” Para logo, vai seguir a sua pequena tradição de ver os desafios com “batom bem vermelho” (Becky concede

que Portugal é da mesma cor, mas a superstição “não é para abandonar”). Quanto ao namorado, conta a rir que hoje “não são amigos.” Amanhã, “já estará tudo bem.” Idealmente.

“Determinação”,“paixão”, “luta” e “coração” são as palavras que Steve Parry utiliza para descrever a equipa galesa que o tem deixado “cheio de alegria.” O dono do Taffy’s Bar na Praia da Rocha está no Algarve desde 1984 e acredita que a “pressão vai estar sobretudo em Portugal.” A sua equipa superou o que dela se esperava e, aconteça o que acontecer, “vão ser recebidos como heróis em Cardiff. É o que já são”, atira. A exibição com a Bélgica e, sobretudo, o terceiro golo, deixou-o de tal forma, que teve de tomar “uma bebida muito forte” no final para abrandar os nervos. “Foi quando comecei a acreditar”, confessa.

Destacar algum jogador é complicado, “porque todos deram tudo” se bem que Aaron Ramsey vai fazer “imensa falta” hoje à noite. Ainda assim, acredita piamente na vitória do País de Gales e revela mesmo já saber que o resultado vai ser 2-1. Marcadores? “Nem quero saber!” Espera agora que os atletas entrem em campo a fazer o que sabem e, mais que tudo, ofereçam largas à imaginação para ultrapassar Portugal e cumprir a sua certeza.

Para ajudar, vai cumprir o seu ritual de todos os jogos que costuma ver no bar. Enquanto à sua volta estará rodeado “de copos de bebida a bater e berros”, Steve estará “quieto e calado, sem fazer um som” a assistir ao desafio. É a sua forma “de controlar as emoções.” Talvez seja a razão pela qual os clientes não param de brincar com ele “desde que souberam que vamos ser rivais por hoje.” À casa que hoje espera estar cheia, já deixou uma promessa em caso de vitória: “Toda a gente conhece o meu Land Cruiser em Portimão. Se ganharmos, vou ser o único carro a apitar de alegria.” Se por lá estiver, não se surpreenda.