Euro 2016

Perfil

Se quiser perceber o que esta imagem quer dizer, leia a crónica do José de Pina

Fernando Santos é engenheiro electrotécnico. É um homem da técnica e não da arte. O nosso engenheiro não tem um sistema de jogo, tem um sistema eléctrico.

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Muito se tem falado das estranhas e tão pouco portuguesas exibições da nossa selecção neste Euro. Uns dizem que jogamos como a Grécia. Outros, mais líricos e com a mania das grandezas, comparam-nos com a Itália. Nada disso. É preciso não esquecer que Fernando Santos é engenheiro electrotécnico com um curso técnico de montador electricista na Escola Afonso Domingos. Fernando Santos é por isso um homem da técnica e não da arte. É um homem da eficácia e não do belo. O nosso engenheiro não tem um sistema de jogo, tem um sistema eléctrico.

O engenheiro monta o meio-campo não a pensar em intensidade e força, mas sim em amperes e watts. Sanches tem muitos amperes e Danilo e Adrien watts para dar e vender. Já o João Mário é medido em volts. A tensão do jogo passa por ele. Transmite a bola a mais 100kv. É isso que Fernando Santos lhe pede antes dos jogos.

Nunca como agora foi tão apropriada a expressão: “Uma equipa que joga à imagem do treinador.” Por exemplo, este ano Brian Ruiz foi o cérebro de Jorge Jesus em campo e posso acrescentar que o Coates, que se colava aos avançados, foi a pastilha elástica de Jorge Jesus no relvado. Com Fernando Santos existe algo de semelhante: Renato Sanches é o transformador de alta voltagem e o Cristiano Ronaldo é quadro eléctrico. Foi com este espírito e desta maneira que comecei a ver o jogo com Gales, através dos olhos de um engenheiro electrotécnico. Não queria voltar a aborrecer-me a ver um jogo da selecção. Penso ser esta a solução para se apreciar a nossa equipa das quinas.

Em relação ao onze inicial percebi a opção por Bruno Alves, mais alto que Ricardo Carvalho, mas Carvalho sai muito melhor a jogar e tem mais técnica. Fiquei a pensar que com José Fonte, Bruno Alves e Danilo quem iria sair a construir a partir da defesa? O engenheiro desenhou um esquema eléctrico em que apostou muito na Estação Elevatória e pouco na Rede de Transporte. E o que se viu foi confirmou isso mesmo. Gales tomou conta do jogo e teve mais posse de bola. Portugal estava a jogar contra Gales como tinha jogado contra a Croácia, contra a Polónia. Enfim, se tivéssemos apanhado a Bélgica seria a mesma coisa. Portugal tem um futebol voyeur, sempre a ver o que dá até ao orgasmo. Renato e Adrien, e muitas vezes João Mário, tiveram de recuar para vir buscar jogo nas zonas de Danilo. A isto se chama solidariedade, que é o eufemismo de, tenho de safar esta m****! O que se viu algumas vezes na primeira parte foi Nani e Ronaldo lá muito longe, nem apareciam no enquadramento das televisões, mesmo no plano geral. O que num écran 16:9 ainda é mais grave. Portugal não tinha rede de distribuição para alimentar a Estação Transformadora, ou seja, não houve oportunidades de golo. O que fez o engenheiro na segunda parte? Aumentou a voltagem. João Mário e Nani, jogadores de corrente alternada, deram mais dinâmica ao jogo, pegaram mais no jogo. Renato Sanches, um jogador de corrente contínua, que só tem um sentido, para a frente, foi começando a perder energia. O rapaz tem dado tudo. Após o golo de Ronaldo (um grande abraço ao tenrinho do Robson-Kanu que espicaçou o Cristiano ao dizer que Bale era melhor que Messi e CR7) e o electrochoque dado pelo Nani, o engenheiro reforçou, e bem, a rede de transporte com a entrada de Moutinho e André Gomes. O jogo ficou controlado e fácil de gerir e podia ter havido mais golos. Hoje, Ronaldo jogou menos de costas para a baliza e teve mais espaço e viu-se o resultado. Ele não é jogador de cabine telefónica como foi com a Polónia.

O País de Gales acordou para a realidade com um choque de alta voltagem. O sistema táctico/eléctrico do engenheiro Santos voltou a funcionar bem e a energia chegou até à Torre Eiffel para a iluminar novamente com as cores de Portugal. Como se vê, isto de termos um engenheiro electrotécnico como treinador foi-nos muito útil para chegarmos à cidade luz. Esperemos que na final o sistema não vá abaixo por sobrecarga, que não se funda um fusível a ninguém, e não entremos em blackout. Agora diga-me caro leitor, pode ou não haver beleza num sistema eléctrico industrial?

*O humorista e argumentista escreve segundo o antigo acordo ortográfico

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