Euro 2016

Perfil

Tenho um ídolo que é galês e enche estádios com a sua arte

Marco Grieco, Diretor de Arte do Expresso, escreve sobre um determinado galês que leva ao delírio homens e mulheres com o seu talento. Com sotaque carioca

Marco Grieco

Brendan Hoffman

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Surpresa.

Não estava à espera de ter de revelar os meus ídolos durante este Europeu… Algo tão pessoal e intransmissível merece ficar restrito apenas àqueles em quem confiamos plenamente, àqueles que não nos vão julgar por este ou aquele deslize ou preferência estranha. Mas os desígnios do destino e das tabelas de confrontos são soberanos e sinto-me na obrigação de não esconder o que me vai na alma.

Verdade.

Tenho um ídolo galês. Nem galego, nem gaulês, ele é mesmo galês. Nascido no País de Gales e criado numa família de poucas posses, meu ídolo nunca foi muito dado à escola. Filho de pai mineiro, a mãe cuidava dos afazeres domésticos enquanto o rapaz andava na rua a espalhar charme e talento para quem lhe desse atenção. Cedo casou e cedo foi pai. Empurrado para o trabalho na construção, quase que se perdeu do sucesso que o esperava.

Vontade.

Nunca lhe faltou, de mudar o mundo, de ganhar o mundo. Primeiro a ilha, depois o continente, até atingir o estrelato que hoje o faz reconhecível mesmo na América, nem sempre apreciadora do melhor que há em nós. Tornou-se uma febre, graças à sua arte. Mais dom que trabalho, justiça seja feita.

Sucesso.

Encheu e enche estádios por onde passa. Fiéis em busca de uma faísca do seu brilho, de um momento mágico que fique eternizado nas suas, nas nossas memórias, na nossa história. Homens e mulheres curvam-se perante o espetáculo, não necessariamente pelos mesmos motivos…

Saudade.

Infelizmente, para nós, já não há por cá nada que se compare. Se é que algum dia houve! A nossa feliz miscigenação de iberos, celtas, romanos, mouros, visigodos e suevos não nos proveu de tal fortuna. Em resposta, só nos resta a vingança histórica de logo mais, com sangue e suor na relva de Lyon.

Desculpa.

Peço perdão, Sir Tom Jones, meu caro ídolo galês de poderosa voz, mas hoje só posso almejar que regresses em paz aos verdejantes campos da tua terra.

Lamento.

Hoje vou torcer por Portugal.

Down the lane I walk with my sweet Mary, hair of gold and lips like cherries. It's good to touch the green, green grass of home. Yes, they'll all come to meet me, arms reaching, smiling sweetly. It's good to touch the green, green grass of home

Álbum Green, Green Grass of Home
1967, Decca Records