Euro 2016

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A geração Naranjito pede vingança

Sonhos para o futuro de um pré-adolescente em 1984: voltar a encontrar a França num Euro ou num Mundial, tanto faz, e corrigir o mundo, repor a ordem natural, fazer justiça

Pedro Dias de Almeida

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Naranjito, a gloriosa mascote do Mundial de 1982, em Espanha

Naranjito, a gloriosa mascote do Mundial de 1982, em Espanha

Quando o Mundial foi aqui mesmo ao lado, em Espanha, eu tinha dez anos e descobri, com um entusiasmo sem limites, que uma competição internacional de futebol entre seleções era a coisa mais importante e divertida do mundo. O sorriso do Naranjito ajudou muito. Tinha um livrinho - com o Naranjito na capa, claro - onde religiosamente apontava não só os resultados dos jogos como quem marcava os golos (nomes do Koweit, da Hungria e da Jugoslávia escritos cuidadosamente, letra a letra) ou quem recebia cartões amarelos e vermelhos. Simulava jogos usando apenas a imaginação, ou caricas da Sumol com jogadores pintados, o que vai dar ao mesmo. Fiquei a admirar o Dasaev, adorava o Rummenigge e o Maradona e algo me fazia torcer contra aquela incrível equipa do Brasil, com Zico e Sócrates (acho que era uma irritação muito minha contra a euforia do Carnaval...).

Quando, dois anos depois, chegou o Europeu de 1984 eu já era, então, crescido, experiente nesta coisa do futebol de seleções. Havia uma grande, uma excelente, novidade: Portugal estava presente! Por outro lado, a mascote não tinha nem um terço do carisma do Naranjito: era um galo com cara de parvo chamado Péno (tive que pesquisar o nome).

Péno, mascote do Euro 84. Não ficou para a história.

Péno, mascote do Euro 84. Não ficou para a história.

O grande foco de atenção era, pois, aquela equipa com bigodes e uma vontade, um pouco caótica e selvagem, de ganhar. Bento na baliza, o incrível e farfalhudo Chalana, o grande Nené, Sousa, Jordão... Já tinha 12 anos, sim, mas não estava preparado para os acontecimentos daquele 23 de junho de 1984. E aqui devo confessar que sempre simpatizei bastante com França e os franceses. Na Fórmula 1 escolhi ser a favor do Alain Prost só porque se chamava Alain Prost e era contra Senna e Piquet (por ser do contra; e por causa do Carnaval, claro). Ainda hoje ouço a voz de um primo (muito mais velho, da geração dos meus pais) a dizer-me que isso não podia ser, porque "ninguém gosta dos franceses". Não percebi bem a mensagem, ainda não percebo bem, e talvez por isso nunca a esqueci. Mas o que não esqueci mesmo foi aquele dia 23 de junho de 1984, olhos colados na televisão. Quando Jordão marca o 2-1 para Portugal no prolongamento (minuto 98) sentia-me o miúdo mais feliz do mundo e o jogo parecia-me absolutamente definido e vencido, contrariando o pessimismo militante e supersticioso do meu pai (eu acho que ele acha que ser optimista dá azar). Mas cinco minutos depois a França empatou (Domergue, 114 minutos). Penaltis, que chatice, mas vamos ganhar, claro! E Platini marcou. Aos 119 minutos. A um minuto do fim. Os franceses festejavam em euforia e eu nem queria acreditar. Com toda a maturidade de um pré-adolescente, aquela sensação de injustiça transformou-se rapidamente num desejo de vingança. Sonhos para o futuro: voltar a encontrar a França (de quem passei a gostar menos, pelo menos em matéria de desporto) e corrigir o mundo, repor a ordem natural, fazer justiça. Lembro-me de pensar: "Mas vai faltar tanto!! Porque é que não pode ser já amanhã? Devia ser já amanhã!".

Esses dias da ambicionada vingança para todos os pré-adolescentes traumatizados de 1984, cada vez mais crescidos, chegariam mesmo.

28 de junho de 2000. Meias finais do Euro. Nuno Gomes marca. É desta! Que grande equipa temos, não vamos perder esta oportunidade! Thierry Henry empata. Não faz mal. Prolongamento com a estúpida regra do golo de ouro. O árbitro hesita. É penalti? Não é penalti? O que é que se passa ali? Repetições. A mão do Abel Xavier em câmara lenta. A mão do Abel Xavier com a imagem parada. A mão do Abel Xavier. O cabelo louro do Abel Xavier. Zidane mata o jogo. Eu tinha 28 anos.

5 de julho de 2006. Meias finais do Mundial. Ronaldo já lá estava. Agora é que é. 33 minutos. Penalti. Zidane marca. Bardamerda para os velhos sonhos. Acabou. Na verdade, nem gosto assim muito de futebol. Vou pôr um disco do Gainsbourg e beber mais uma cerveja. Tinha 34 anos. Acabou.

Só que afinal não acabou. Agora é uma final, e é em Paris. Tudo certo.

Desde que este Euro começou que digo (sem acreditar muito no que dizia, na verdade) que era isto que (dev)ia acontecer: uma final Portugal - França. Por tudo. Mas sobretudo por mim, pelo Naranjito, por 84, pelo Chalana triste na minha sala na Guarda.

Se eu fosse o Fernando Santos (e ainda bem que não sou) só tinha uma estratégia até domingo: mostrar muitas vezes aos jogadores da seleção o jogo de 1984, o jogo de 2000, o jogo de 2006. Passou tanto tempo. E eu soube esperar, a sério. Tenho 44 anos, caramba, já mereço.

E acredito mesmo que no domingo podemos ganhar. Ou então não. Ou então sim. Ou então não. Ou então sim.