Euro 2016

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Dois golos, três mortos, um copo de vinho e um gajo com piada

O jogo contra País de Gales fez-me pensar em cineastas mortos

Rui Gustavo

© Christian Hartmann / Reuters

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Se o jogo contra o País de Gales fosse um filme, a primeira parte teria sido realizada por Abbas Kiarostami, o cineasta iraniano que morreu esta semana em Paris e ficou para a história como mentor do realismo poético.

Kiarostami, abordava assuntos importantes nos seus filmes, como a morte e a repressão, mas a ação não era linear e os finais dos filmes eram muitas vezes enigmáticos. Ontem foi mais ao menos assim: estava em causa um assunto importante como a passagem à final, não aconteceu nada e não percebi bem se íamos passar ou não.

Na segunda parte entrou Michael Cimino, o realizador americano que espantou o mundo com “O Caçador” e uma cena inicial de um que devia ser ensinada em todas as escolas de cinema do mundo. Como o golo de Ronaldo tem de ser visto por qualquer aspirante a treinador: é meter a bola em que sabe jogar – Raphael Guerreiro, grande descoberta de Fernando Santos – cruzar e esperar que o capitão faça o que sabe. Saltar mais do que os outros e marcar golo.

Na cena do casamento de um dos protagonistas, três gotas de vinho tinto caiam no vestido da noiva, uma predição subtil do que esperava os três protagonistas de partida para a guerra do Vietname. Depois do golo percebeu-se facilmente que o jogo já não escapava. Nani confirmou este facto. Cimino, que morreu esta semana nos Estados Unidos, nunca mais fez um filme igual e enterrou um estúdio com um dos maiores fracassos da história do cinema, “Às Portas do Inferno”.

Por isso , agora precisávamos de Camilo de Oliveira, o ator e comediante que morreu esta semana e ganhou a imortalidade com a personagem de Agostinho, o bêbado que cunhou a frase “isto é que vai uma crise” afogada a tinto do garrafão. E vai. Há crise e sanções, cortes e austeridade, precisamos, vá, de um copo de tinto. O Ronaldo disse que o a equipa merece a vitória e que ele merece a vitória e que até o povo português merece a vitória. Eu, que nunca pensei festejar um golo de Jordão, quanto mais dois,estou à espera desde 1984 de uma vingança contra a França. Ou contra a Alemanha. Tanto faz. Até pode ser o Rui Patrício a marcar.

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