Euro 2016

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A crónica de Luís Pedro Nunes: CR desprezou Hollande e gozou o prato

Luís Pedro Nunes escreve sobre o que Ronaldo fez à Europa

Luís Pedro Nunes

Matthias Hangst

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Acabou o jogo. Portugal é campeão europeu. Está na hora de ajustar contas. Foi bestial ver os nossos rapazes a passar na bancada de honra por François Hollande - sim, o presidente francês empertigadote - e praticamente nem o cumprimentar. Deram-lhe com desprezo um aperto de mão suado e cheio de ranhoca (não faz mal, os franceses, “como se sabe, são todos porcos”, vem no Google). Digo isto assim porque temos contas a ajustar. Representa uma nação humilhada. França, de joelhos. Olha que bom. Olha que bem que sabe. É nisto que o futebol é genial.

Hoje viu-se na TV jogar uma série de estratégias de portugalidade. A frase parece pomposa. Não é.

Vimos um Ronaldo lesionado a comandar de fora do campo. A dar ordens, naquela ânsia de querer ganhar. Ao Ronaldo aceitamos e desejamos que tenha essa ambição desmedida. Queremo-la nossa.

Noutro jogo, as imagens de uma televisão espanhola revelaram um Cristiano a ir buscar o lado tímido e inseguro do tuga Moutinho e a empurrá-lo para a auto-confiança. E agora, no jogo da final, a ir buscar o Éder dizer-lhe palavras secretas que o levaram a marcar o golo que os franceses, com violência, negaram ao nosso melhor jogador. Cristiano Ronaldo é o modelo-base de um português “perfeito” que construiu o seu destino.

Mas entre as brumas das traças, umas horas antes, e Ronaldo dividia as primeiras páginas dos jornais franceses com outro português de alto perfil internacional: Durão Barroso. A nova contratação da Goldman Sachs foi ao Stade de France pavonear-se e falou à RTP na zona VIP sobre futebol. Só que quando lhe perguntaram o que achava do facto de os jornais franceses estarem a qualificar a sua personalidade (toque de calcanhar do jornalista) com o mesmo epiteto do futebol de Portugal ele respondeu: “Nojento”

Sibilino, Barroso indignou-se, como se ser ambicioso e querer ganhar tudo e ainda se dizer patriota fosse o mesmo que ser o Ronaldo. Não é. Gozemos pois o pratinho. Para os portugueses, grosso modo, Ronaldo é um herói e Barroso é assim como que o fulano que trata das cavalariças dos vilões.

Mas foi durante a tarde que as TV's mostraram uma tensão que a polidez urbana, a estratificação social e o bom senso quotidiano têm mascarado durante décadas. E as virtudes da União Europeia nunca libertaram. Os franceses, tanto quanto se pode generalizar, desprezam os emigrantes portugueses. Ora isto é algo que até sabemos. Mas esta final do Euro em França, entre os dois países, a ansiedade, a tensão em Paris, a emoção e os insultos e bebida fizerem com que as bocas se abrissem em frente às câmaras de TV. E quem viu ficou perplexo.

Na tarde de 10 de julho, os emigrantes portugueses em França decidiram assumir que não são bem tratados pelo comum dos franceses. São os pedreiros, os “petit portugais”, é o desprezo, o chauvinismo diário, as ideias feitas, os preconceitos. Um disse que era chamado de “filho de escravo” e só uma situação de crescendo de multidão permitiu tanto depoimento similar em tanta TV diferente.

Ora, o absurdo repetido banalizou-se e levou a que os jornalistas passassem a assumir que os portugueses eram todos mal tratados. Ponto. E as perguntas às vezes já eram: “Acha que que a vitória vai vingar o que os emigrantes portugueses sofrem em França às mãos dos franceses?” ou “A sua vida vai melhorar em França se Portugal ganhar”.

Há quem diga que teve mais gozo ganhar a jogar mal. Que teve mais gozo ganhar sem Ronaldo. Esta coisas das vinganças e humilhações só servem se for dos fracos contar a história. Vamos ajustar contas.

Gozo mesmo foi humilhar os franceses. Devemos isso ao Ronaldo e seus muchachos. Mas o resto – as crises de confiança de Moutinho, as cenas de Barrosos sem espinhas, as fraquezas e complexos - temos que resolver nós com o espelho.

Somos campeões. Os franceses tomaram um banho de humildade. O que neles ainda é mais raro do que de água.

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