Euro 2016

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Beto. “Rezar um bocadinho ajuda”

Beto diz que faz parte do grupo da seleção “desde 2008, 2009”, acompanhou o arranque desta qualificação, viu o que Fernando Santos trouxe de diferente, ficou fora do Euro por lesão, e é, por isso, o homem certo para falar sobre o que se passa lá dentro — mesmo que, avisa, não possa dizer tudo

Mariana Cabral, enviada ao Euro 2016

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Christopher Lee / Getty Images

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É verdade que Fernando Santos disse logo no primeiro jogo que Portugal ia voltar ao Stade de France para jogar a final do Euro?
Se bem me recordo, o que ele disse e o que sempre nos foi transmitido foi uma mensagem de esperança e de confiança na seleção. Era um jogo particular, mas ele disse-nos que o objetivo era voltar ali para disputar a final do Europeu, porque era aí que devíamos estar. A mensagem sempre foi essa, de fé, crença e de uma mentalidade ganhadora que incutiu em todo o grupo. E o facto é que conseguimos realmente chegar lá.

Há uma mudança de mentalidade? De uma seleção que ia ver o que dava para outra que se assume para conquistar?
Isso já tem a ver com a perspetiva e com as análises que se faz. O que sei é que os jogadores têm mentalidade ganhadora, e no futebol também não podes pensar muito a longo prazo, porque cada jogo é um desafio diferente e tens de subir degrau a degrau, daí a tal conversa do jogo a jogo. Penso que este grupo sempre teve respostas muito positivas, ganhadoras, mesmo perante as dificuldades. Percorremos uma longa maratona e já estamos a ver a meta. Agora só falta mesmo cruzá-la e sermos campeões.

Temos capacidade para sermos campeões europeus?
Acho que é possível, claro. Quando Portugal passou a fase de grupos, ou melhor, quando qualquer seleção passa a fase de grupos, passa a ter direito de sonhar e possibilidades de ganhar. Porque são eliminatórias, e aí os jogos são mais equilibrados, calculistas, com as equipas mais receosas. Seja nos 90 ou nos 120 minutos, acredito plenamente que temos essa capacidade.

A França é sempre um adversário complicado para Portugal, historicamente...
É verdade que nos particulares não conseguimos ganhar à França, mas uma final é sempre uma final, é um jogo diferente. Tem uma motivação especial, e os níveis de concentração de todos estão no máximo. Acredito que vamos sair de Paris como campeões europeus.

Já estiveste em várias finais ao nível de clubes. Como é que se prepara uma final?
Felizmente, já tenho uma longa experiência em finais e o que acho é que é o fator emocional a fazer a diferença. É o fator mais preponderante, apesar de todas as preparações que existem antes a todos os níveis. Porque há muita... não é pressão, é exigência numa final, e quem controla isso melhor acaba por cometer menos erros e sair vencedor.

O que é que Fernando Santos tem de diferente para ter conseguido unir tanto o grupo, como se tem dito?
Olha, na seleção trabalhei com o Carlos Queiroz, com o Paulo Bento e com o Fernando Santos, e obviamente que todos têm maneiras de ser e trabalhar muito diferentes. Não quer dizer que sejam melhores ou piores, são só diferentes. Estou neste grupo desde 2008, 2009, e posso dizer que sempre foi um grupo muito unido, e quando lá estive sempre procurei ajudar os colegas nos bons e nos maus momentos. Obviamente que o Fernando Santos, por quem tenho muita consideração e muito respeito, tem esse mérito de ainda ter juntado mais o grupo e de ter conseguido levar Portugal à final. Mas outros treinadores também tiveram outros méritos, porque isto no futebol é preciso haver um conjunto de circunstâncias a nosso favor.

É complicado ver os jogos ao longe?
É muito duro ver a seleção de fora, porque fiz as qualificações, Europeus, Mundiais... É difícil para mim. Mas é claro que a lesão que tive me prejudicou — lá está, são as circunstâncias — e compreendi perfeitamente a decisão do mister. Agora sou mais um dos 11 milhões da seleção e estou sempre com eles a torcer por fora. Aliás, falo com eles antes dos jogos, para motivar, e depois dos jogos, para felicitar. Vai continuar a ser sempre assim da minha parte, e no domingo à noite, independentemente do que aconteça, vou felicitá-los a todos, porque foi um trajeto brilhante.

É verdade que Fernando Santos às vezes reza no balneário?
Ele é um homem muito religioso, tal como eu também sou. E não me leves a mal, mas aquilo que se passa no balneário, com o grupo, fica no balneário. Não sou eu que vou desrespeitar isso, não me leves a mal.

Nas últimas semanas falou-se muito da qualidade de jogo da seleção, dizendo-se que era uma equipa menos ofensiva do que é habitual. É assim?
Mais uma vez acho que isso é uma questão de perspetiva. Dou-te um exemplo estatístico que mostra bem isso: no primeiro jogo, Portugal foi a seleção que mais rematou à baliza, foram 26 remates, mas não marcou. Se uma equipa que faz 26 remates não é ofensiva, então não sei o que é uma equipa ofensiva. Sem dúvida que está uma equipa muito mais equilibrada, mas isso é bom. O Fernando Santos sempre conseguiu impor isso bem, porque é importante para não descompensar a equipa. Agora, daí a dizer que não é ofensiva...

O que achas que o selecionador vai dizer na palestra para a final?
As questões táticas, nesta altura, já foram mais do que trabalhadas, por aí já não há nada para dizer, mas obviamente que antes se viram alguns detalhes sobre a França. Mas creio que passará por um discurso de motivação, recordando aos jogadores que vão jogar pelas famílias e por todos os que os apoiam, por Portugal, no fundo. Sinceramente, não há melhor maneira de motivar do que falar nas nossas famílias e em quem nos apoia todos os dias.

E depois rezar um bocadinho?
Rezar um bocadinho ajuda sempre [risos]. Eu, pelo menos, vou rezar pela seleção.