Euro 2016

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Engenheiro, baralhe os franciús. Meta o Eliseu, o Moutinho e o André Gomes. E tire o Ronaldo. É vitória garantida.

Nicolau Santos, diretor-adjunto do Expresso, curva-se perante a sabedoria de Fernando Santos e pede-lhe que volte a enganar o adversário como tem feito até agora

Nicolau Santos

TOLGA BOZOGLU

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Meu caro engenheiro,
Você é um mestre na arte de bem enganar todos os adversários. Curvo-me perante a sua sabedoria que tão boas provas tem dado. Por isso, sugiro, embora não seja necessário, que hoje você volte a baralhar os franciús. Eles estão à espera do seu 4-4-2? Ponha em campo um 3-5-1 ou um ou um 4-1-3-2. Hum… desconfio que não chega. Atire-lhes com um WM, que já não se usa desde os anos 20, ou um 3-3-3-1 ou um 3-6-1. Mesmo assim, pode ser que o Deschamps não abra a boca de espanto naquela cara que Deus lhe deu de descendente menor do Astérix ou de camponês que saiu para ir comprar à esquina uma baguete e se perdeu pelo caminho. Então, meu caro engenheiro, você vai à Wikipedia e rapa de duas ideias que lá estão sobre sistemas táticos: 5-5-0 ou 4-6-0. Isso é que vai colocar a imprensa francesa a espumar de raiva e a lançar impropérios sobre a nossa seleção – sobretudo quando o meu caro engenheiro sair do Parque dos Príncipes com o caneco debaixo do braço!

Bom, mas vamos ao que interessa. Os sistemas táticos são muito bons mas depois há que colocar em campo uns tipos, vulgo jogadores, para os interpretar. Ora muito bem, o engenheiro tem dito que não tem onze jogadores mas 23. Quer você dizer que todos podem jogar. E o facto é que tem cumprido. Por lesões ou porque você é um tipo magnânimo tem posto toda a gente a jogar. Toda não! O Anthony Lopes e o Eduardo ainda não fizeram o gosto ao pé – no caso deles é o gosto ao dedo. Então, o que lhe sugiro? Pois, comece logo pela baliza: tire o Patrício e meta o Eduardo durante a primeira parte e o Anthony Lopes na segunda. A que propósito, perguntará você? Elementar, meu caro engenheiro. A esta hora já o Deschamps viu milhares de vídeos sobre a equipa portuguesa e já deu milhares de conselhos ao Griezmann, Payet e Giroud sobre todos os pontos fracos do Patrício e o lado para que ele defende os penalties. Em contrapartida, não sabe nada de nenhum dos outros. O Eduardo, como dizia o presidente de um clube italiano onde ele jogou, dá sempre a garantia de seis frangos por época. Mas não há-de ser neste jogo. Está a guardá-los de certeza para quando for para o Sporting. E o Lopes é homem para se atirar para a frente de uma locomotiva se for necessário. Baralhá-los, engenheiro, baralhá-los é que é preciso.

Bom, depois segue a mesma estratégia para a defesa. O Didier espera que seja o Cédric o defesa-direito? Meta o Vieirinha, que tão bem falhou naquele golo da Islândia! No centro, atire-lhes com o Ricardo Carvalho e com o Bruno Alves, porque eles pensam que vão jogar o Fonte e do Pepe. E na esquerda tire o Guerreiro e plante lá o Eliseu, que é tão bom a fazer perigosíssimos lançamentos da linha lateral e a atirar-se para o chão quando cobre a bola. Por aqui já vai meio jogo ganho e ainda não chegámos ao meio-campo.

Pois aqui, nesta zona nevrálgica do campo, é que os vai surpreender de todo. Meta o William (eles já estão à espera), junte-lhe o Danilo (ainda não os surpreende) mas acrescente-lhes o Pepe e o Fonte (aqui eles ficarão mais espantados que os romanos quando enfrentam o Astérix!). Mesmo assim, o Deschamps vai pensar que se trata de uma linha Maginot, que era genial mas não evitou a derrota dos franceses perante os nazis e que lhe vai fazer o mesmo, dando-lhe a volta. Só que o meu caro engenheiro ainda não mostrou tudo. À frente joga sem ninguém! Exatamente: ninguém! Porquê? Porque eles já sabem como marcar o Nani e o Ronaldo! E você mete na frente (mas para defender, mas para defender, logo à entrada do nosso meio-campo) o Moutinho e o André Gomes. É genial, meu caro engenheiro, você é genial! Primeiro, porque se mantém fiel à sua ideia: empatar, empatar, empatar! Ganhar-lhes pelo tédio (como escreveu lucidamente a Mariana Cabral)! E depois porque coloca em campo os seus dois jogadores-fetiche, que tão boas provas têm dado e que em tão grande forma estão: o Moutinho e o André Gomes! Vai ver o queixo do Deschamps! Até vai barer no chão!

Com esta equipa, como é evidente, vamos a penalties. E aí é trigo limpo farinha Amparo: são séries de cinco para cada lado e no final ganhamos nós! E assim se cumprirá aquilo que sempre disse: que subscrevia de imediato a proposta de ir de empate em empate até à vitória final. Para além disso, que já não será pouco, dou tudo para ver a cara de estupefação do pobre do Didier quando constatar que no banco de suplentes de Portugal estão o Nani e o Ronaldo e que o primeiro só entra aos 118 minutos e o segundo aos 119 e 30 segundos. Mas nessa altura já nós estamos a ganhar por um estrondoso zero a zero e a preparar-nos para ir receber a Taça das mãos do Hollande. Olaré! Grande engenheiro! Carrega, Portugal!