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Fraca força imensa

O maior mérito de Fernando Santos foi tranquilizar-nos desde o início – acho que nunca mais esqueceremos a frase “Só volto no dia 11 de julho”.

Ricardo Marques

© Christian Hartmann / Reuters

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Eles não sabem porque estão longe, porque não o olham todos os dias. Mas nós sabemos, porque o temos no quintal. Andava há dias adormecido, envergonhado, molengão por causa do calor, preguiçoso quando sentia o vento. Espreitei-o ontem pela manhã, a dois dias do grande jogo. Nada. No inverno, quando mostra cara feia, ouvimo-lo ao longe, a quilómetros. Um rugido tão diferente do sussurro desta última semana. Parecia que dizia algo ao ouvido de um bebé, um segredo que só ele sabia.

Ao início da tarde, vi-o balouçar, ganhar força como quem se prepara para saltar. É sempre assim nos meses de verão: ele dá sinal de vida, coisa rara, e a vida muda toda. O telefone começa a tocar, passam os minutos e as horas a correr e nós a olhar para ele, à espera que nos surpreenda – mas a surpresa é sempre igual, conhecida, familiar como um regresso a casa. Por mais que queiramos, nada podemos. Ele decide, ele ganha sempre. Quando dorme, algo em nós adormece. Quando acorda, ninguém consegue dormir. Mas ele raramente desperta em julho.

Inevitabilidade rima com tranquilidade, e não é por acaso. O maior mérito de Fernando Santos foi tranquilizar-nos desde o início – acho que nunca mais esqueceremos a frase “Só volto no dia 11 de julho”. Quem acreditou logo, descansou. Quem preferiu esperar até ao fim da fase de grupos, descansado ficou. Quem só se convenceu na hora do mata-mata, chegou mais tarde, mas está lá. Estamos todos lá e convencidos de que não pode ser de outra maneira, que não pode ser outra vez tão mau como já foi. O abismo já conhecemos, agora devem-nos o céu.

Sim, é verdade. Parecíamos adormecidos quando tudo isto começou. O frio islandês deixou-nos atordoados, hipnotizou-nos a valsa austríaca e não conseguimos quebrar o feitiço magiar. Sobrevivemos e fomos salvos, e foi aí que acordámos. Um balanço lento e tardio contra os croatas, um grito de força para derrotar os polacos e uma fúria de inverno para eliminar os galeses. Dentro de poucas horas, Portugal entra em campo para defrontar uma seleção que joga em casa, que tem um país inteiro à espera de festejar, de encher as ruas de bandeiras azuis, brancas e vermelhas. Não importa.

O vermelho também é nosso, também o temos na bandeira. Branco é cor que conhecemos bem, é a cor das ondas quando rebentam com força contra as pedras – uma após outra, dia após dia, ano após ano, até a pedra ceder a essa força imensa feita de forças fracas. Até à inevitabilidade. O azul é todo nosso. É o azul do mar, desse mar furioso no inferno e manso no verão. Esse mar que adormeceu após a meia-final e que acordou num balanço ontem à tarde. Acordámos todos.

O telefone tocou há pouco e alguém disse que havia ondas. Mas hoje será diferente. As ondas vão rolar sozinhas e perfeitas. As pranchas vão ficar em casa. O mar acordou a 9 de julho e está vivo, mas não foi para nós. Foi por nós. Foi por Portugal. Já não é um sussurro, é um grito que se vai ouvir em Paris. Eles podem ter tudo, e parecer fortes como uma rocha. Mas nós temos tudo - e temos o mar também. Somos essa fraca força imensa.