Euro 2016

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Lá Em Casa Mando Eu: a análise à seleção que o vai fazer rir depois de ter chorado com a vitória

É já um clássico dos pós-jogos da seleção: o Manel e a Catarina voltaram às considerações sobre os futebolistas que jogaram por Portugal. Um exemplo para perceber ao que vai: “João Moutinho: a sua entrada, para lutar com Pogba e Matuidi, foi o mais perto que eu já vi de um sacrifício humano”

Lá Em Casa Mando Eu

Bofetada de luva branca

Kai Pfaffenbach / Reuters

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Onze do Manel

Rui Patrício Defendeu tudo. Saiu bem nos cruzamentos, sacou todas as bolas e manteve sempre a calma nas hostes, como se soubesse que no fim tudo ia correr bem, com um golo do Éder. Melhor em campo (e hoje nem faço a piada do Eliseu).

Cedric Tem sempre aquele ar de quem não falava nos recreios e sonhava acordado na sala de aula em jogar a final de um Europeu ("nem que seja preciso uma praga de traças para isso acontecer!"). Apesar da timidez, o defesa direito foi o único a dar a porrada a Payet que toda a gente pedia e amanhã pode estar a dar uma TedTalk a dizer que tudo é possível - mesmo com Payet ou Comam pela frente - e que só temos de acreditar em nós próprios.

Pepe A nação festejou o seu regresso, como se visse Rocky voltar ao combate depois de tudo indicar que ia perder. Cortou tudo o que pode, e cada vez que cabeceia para fora da área fá-lo com a convicção de Ronaldo no golo das meias-finais. Foi enganado por Gignac e o poste retirou-lhe essa mancha do currículo. De resto, imperial como sempre. O brasileiro campeão da Europa, para confundir ainda mais Jorge Jesus.

José Fonte Podia ter passado as férias no Algarve e, com sorte, aparecia com a mulher na Caras, numa daquelas séries de fotos onde nos são apresentados uma série de "famosos" que não conhecemos. Fonte acabou a passar um prazeiroso Verão nos relvados franceses e obrigou-nos a fixar o seu nome com exibições despretenciosas e eficazes. É campeão da Europa e não uma nota de rodapé numa revista cor-de-rosa.

Raphael Guerreiro Portugal inteiro vivia despreocupado com a lesão de Fábio Coentrão, sabendo que tinha uma alternativa de peso. Vai daí, este ex-Llorient (futuro clube do Marega, antes de acabar a carreira no Varzim - esta piada foi roubada, mas os assaltados vão perceber a homenagem), decide armar-se em Roberto Carlos. Eliseu ainda lhe disse: "Remata mais para baixo", mas o jovem não o ouviu naquele livre. Excelente e decisiva descoberta.

William Carvalho William é suficientemente simpático, unânime e bom jogador para até um benfiquista doente como eu elogiar. Ainda assim, a sua falsa lentidão inicial até a mim me enervou. William Carvalho tem ar de quem não ia mudar a expressão facial nem que lhe dissessem que o mundo ia acabar daqui a 10 minutos, mas paulatinamente foi crescendo e percebendo a importância da coisa. A porrada - tão bem dada - que lhe valeu o amarelo é o melhor exemplo disso.

Adrien Ao contrário de Jordão - o único convocado do Sporting na selecção de 1984 - não facturou duas vezes contra os franceses, pelo que podemos considerar a exibição desde já muito negativa. Mas pior que isso foi não dar nem uma porrada nos franceses. Uma! Em 2006, depois da lesão de Ronaldo contra a Holanda, a selecção portuguesa orgulhou todo o país com um arraial de porrada espectacular, que acabou com o Deco suspenso (que se lixe! Porrada neles!). Adrien, além de não ter entrado nisso, hesitou um remate (aos 37 minutos) que podia ter dado golo e as probabilidades de boas notícias a cada bola dividida eram semelhantes às de quando Vítor Gaspar decidia falar ao país.

João Mário Mark Pembridge (nota para pessoas que não são doentes: médio do Benfica dos anos 90, ala-esquerdo fraquíssimo, mas esforçado, elogiado por todos os benfiquistas por cobrir as subidas de Scott Minto, à falta de outras qualidades) abandonou a selecção portuguesa a meio da final do Europeu, a tempo de João Mário - aquele João Mário - estrear-se neste Europeu e a tempo de ser campeão da Europa.

Renato Sanches Há 3 meses, pontificava no meio campo do melhor clube do mundo e festejou muito bêbado no Marquês com os melhores adeptos de sempre. Hoje está no Bayernique ou lá como se chama aquilo e não consegue jogar 90 minutos. Depois do Benfica, a vida é sempre a descer para o jogador mais novo de sempre a jogar e ganhar a final de um Europeu.

Quaresma o que poderia ter evitado as cruéis derrotas de 84, 2000 e 2006 com os malditos franceses? A resposta de Quaresma não foi "mais controlo com a bola", "evitar a transição do 1-1" ou "um ponta de lança que não marcasse golos só às Ilhas Faroé", respectivamente. A resposta de Quaresma foi " um pontapé de baliza de um gajo com uma pena dourada na cabeça". Infelizmente, também não resultou. A resposta certa era: "Éder".

Nani fez uma boa final e um óptimo Europeu, e não falo só de golos e assistências. Teve sempre o ingrato papel de perseguir todas as bolas bombeadas pelos centrais (ou pelo Cedric, que até podia ter dado golo, logo aos quatro minutos) e jogou a ponta de lança. Num mundo onde mordomos são chamados para a Goldman Sachs, Nani no Valência é mais um exemplo de que não há meritocracia neste país.

Cristiano Ronaldo O grande sucessor de Nelo (esse mesmo, famosa dupla Nelo & Tavares), até hoje à noite o único português a erguer um troféu de futebol sénior por Portugal: a mítica SkyDome Cup, disputada em 1995, em campo sintético no Canadá (se não acreditam em mim vão ao Google). Cumpriu a sua missão ao garantir aos 30 minutos a vitória moral e o ódio eterno a Payet, e acima disso, uniu a equipa em tornoda sua ausência. Nelo & Cristiano: capitães vencedores!

João Moutinho A sua entrada, para lutar com Pogba e Matuidi, foi o mais perto que eu já vi de um sacrifício humano, mas Moutinho sobreviveu, trouxe à tona o meio campo da selecção e se o árbitro não fosse o estereótipo mais vivo e contemporâneo do gajo caseirinho, tinha mesmo arrancado a expulsão a Matuidi.

Éder Ganhar à França, em Paris, com um golo do Éder era vingar 1984, 2000 e 2006 e mais duzentos jogos que Portugal viesse a perder com a França. Foi uma arrojada tentativa de humilhação do Engenheiro (depois disto, já ninguém pode chamar-lhe conservador). E deixem-me escrever isto no Expresso: O ÉDER DECIDIU ESTA MERDA!!

O Onze da Catarina

Rui Patrício Vi no outro dia uma reportagem da RTP com a mãe de Rui Patrício, que se chama, curiosamente, Belisa. Há coincidências do caraças, não há? E Patrício foi mesmo o rei da Belisa, defendeu tudo! Não estive atenta ao nome do pai, mas, atendendo à sorte de hoje no último minuto do tempo regulamentar, espero que se chame Poste.

Cédric Quando Cédric foi convocado, imagino que terá tido a mesma reacção do que nós quando soubemos que íamos ser pais: "O quê? Como é possível? Nós não vamos conseguir fazer isto!" O Europeu chega ao fim e Cédric continua como nós: não tem a certeza de ter feito bem, mas agora também já não há nada a fazer.

Pepe Que o relvado do Stade de France se encha de traças se eu acredito nisso do Pepe ser um caceteiro! Grande Europeu do central ex-FCPorto. Trocava já por Marcano, Indi, Maicon, um prato de tripas e o cimento da Avenida dos Aliados.

José Fonte Aproveitando o slogan da FPF, antes do Europeu haveria 11 portugueses que conheciam José Fonte, incluindo os seus familiares. Era suposto ter tido um mês tranquilo, passado a jogar ao meiinho com o o Rafa, mas agora já 11 milhões o viram jogar. No entanto, corre o risco de lhe acontecer o mesmo que à selecção: até ao Mundial, ninguém quer saber.

Raphael Guerreiro Para quem terá crescido a ouvir "Raphael, vien ici car...!", não parece muito traumatizado. Muito inteligente a estratégia de o escondermos da caderneta de cromos da Panini, os pobres adversários estavam à espera do Eliseu... Foi o único beneficiado com a entrada de Payet sobre Ronaldo, já que assim pôde mandar um livre ao poste.

William Carvalho Danilo, num acto de generosidade, cedeu-lhe o lugar para o deixar brilhar. O gesto de altruísmo pode ter passado ao lado da UEFA, que insistiu em não nomear Danilo o melhor em campo, pois seria muito óbvio. Quanto a William, fez um Europeu ao nível das obras no Saldanha: tão lento que dá a impressão que só está a pensar nas autárquicas.

Adrien Devo confessar que mais depressa via o Adrien padrinho de uma marcha popular do que titular numa final do Europeu. Tinha tudo contra ele: dividir o lugar com Moutinho, que em condições normais seria dono e senhor da posição, e ser do Sporting, que, parecendo que não, dificulta o processo de alcançar títulos. Infelizmente, do outro lado estavam Pogba, Sissoko e Matuidi, que parecem comer Adriens ao pequeno-almoço.

João Mário Fez hoje provavelmente a sua melhor exibição. Só é pena que tenha jogado este Europeu sempre com o ar triste de quem não consegue tirar a música do Abrunhosa da cabeça.

Renato Sanches Pareceu entrar a medo, a falhar passes e a perder bolas, mas de repente lembrou-se que não estava na Musgueira e isto era só uma final de um Europeu e por isso sacudiu a pressão. Fernando Santos chamou-lhe várias vezes a atenção para a posição a ocupar no campo, coisa a que não está habituado, porque com Rui Vitória o máximo de estratégia táctica que conheceu foi "Ataque-o quando estiver desprevenido, apareça onde não o esperem" (frase retirada do livro "A arte da guerra para treinadores").

Nani Um vizinho nosso cuja televisão está bem mais avançada do que a nossa gritou golo quando Nani surgiu isolado logo aos 4 minutos na área francesa. Portanto Nani teve sorte: o que podia ter-me irritado aquele pontapé desastroso foi tudo canalizado para o anormal do vizinho. Nani passou o Europeu a fazer de conta que é de ponta-de-lança e não fingíamos tão bem desde Nuno Gomes em 2000.

Cristiano Ronaldo Bate leve, levemente, como quem chama por mim. Será chuva? Será gente? Gente não é, certamente, e a chuva não bate assim. Fui ver. Era o Payet. Ronaldo ainda reentrou em campo e ouviu-se em Paris o grito da D. Dolores: "Soltem os fogos!", mas infelizmente não havia nada a fazer. A selecção ficar sem Ronaldo numa final equivaleu mais ou menos a Daenerys ficar sem dragões ao chegar a Westeros (alerta geek).

Quaresma Entrou com a tarefa ingrata de substituir Ronaldo nas capas dos jornais de amanhã e de acordar o Nani quando este passava mais de 10 minutos sozinho lá à frente. Não sei o que fez de mais bonito: se o pontapé de bicicleta, se a gravata a Koscielny.

João Moutinho Perante a demonstração de força do meio-campo francês, fez sentido fazer entrar o jogador mais espadaúdo da selecção. Parece que ainda estou a ver os franceses a tremer. Enfim, mete mas é a bola no Éder!

Éder A piada que tinha aqui escrita era a seguinte: "Não gostei da opção do seleccionador de meter um central para segurar o 0-0". Mas, ao ver o jogo, desabafei com o Manuel: "Vai ser o Éder a marcar só para me calar". E calou-me. Sou mesmo idiota. Ainda bem que as nossas crónicas acabam aqui. OBRIGADA ÉDER, O CHARISTEAS TUGA!