Euro 2016

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O artigo de Figo para o Expresso: Uma seleção que cumpre o que promete

“Em vez de discutirmos conceitos estéticos de difícil definição e, sinceramente, de pouco interesse, acho que é tempo de admirarmos sem reserva o trabalho de todo o grupo que tão bem soube representar o nosso futebol e Portugal.” Exclusivo Expresso. Por Luís Figo

Luís Figo

PASCAL PAVANI / Getty

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A França. Claro que vai ser difícil, hoje, na final do Euro 2016. Difícil como todas as finais. Difícil como todos os jogos da Seleção Nacional numa grande competição. Difícil porque o nosso adversário joga em casa. Difícil porque se decide tudo: dois anos de qualificação, semanas de preparação, um mês de trabalho no Campeonato da Europa. Difícil, enfim, porque a França é uma equipa formada por excelentes jogadores e bem orientada.

Tinha 12 anos quando a França bateu Portugal no inesquecível jogo de Marselha, em 1984. Mais tarde tive oportunidade de participar em duas partidas marcantes da história da Seleção Nacional, em 2000 e em 2006. Dois jogos equilibrados e intensos que acabaram por cair para o lado deles.

Fiz centenas de jogos na minha carreira e em nenhum deles enfrentei a história. Também nunca defrontei uma “besta negra” ou algo do género. O futebol não é isso, mesmo que em ocasiões como esta muitos não resistam a procurar tendências e momentos que pertencem à nossa memória. Mas que não entram em campo, não participam.

Este será um jogo. Um jogo diferente. Um dia distinto, único para todos os que subirem amanhã ao relvado do Stade de France. Uma final. Um jogo entre esta França e este Portugal. Difícil para nós, claro. Mas também muito difícil para eles. Como Fernando Santos prometeu e tem cumprido.

É verdade que a relação entre esta Seleção e o público não foi um caso de amor à primeira vista, não adianta escondê-lo. Mas o esforço, a seriedade, a qualidade e o exemplo de treinadores e jogadores acabaram por convencer os portugueses.

Esta não é uma Seleção que resulta de um conjunto de jogadores que jogam juntos há muito, mas sim para uma equipa esculpida pacientemente por Fernando Santos, ao longo dos meses que leva na Federação Portuguesa de Futebol. E liderada em campo por Cristiano Ronaldo, um dos melhores jogadores de futebol de todos os tempos e hoje o português mais vezes internacional.

Uma equipa construída sobre valores em que todos nos revemos e sobre uma consciência profunda do que vale e do que jogam os adversários. Um conjunto que agrega jogadores com muita experiência e jovens de inquestionável futuro e que têm respondido de forma séria e madura.

Este momento histórico do futebol português aparece apenas um ano depois da final do Euro Sub-21, em Praga. Escassas semanas após o título europeu dos Sub-17 e poucos dias antes do início da fase final do Euro Sub-19 e dos Jogos Olímpicos. Esta é, sem dúvida, uma das épocas mais felizes da história das nossas seleções.

Em vez de discutirmos conceitos estéticos de difícil definição e, sinceramente, de pouco interesse, acho que é tempo de admirarmos sem reserva o trabalho de todo o grupo que tão bem soube representar o nosso futebol e Portugal. Esta é a uma Seleção que cumpre. Cumpre em campo, cumpre o que promete. Uma Seleção que deve orgulhar Portugal.

É tempo também de viver o jogo deste domingo. E acreditar que Fernando Santos — e os jogadores — saberá mais uma vez encontrar a solução para o último desafio, o maior de todos, frente à equipa da casa. O Portugal-França de 10 de julho de 2016 será sem dúvida um dos jogos mais difíceis da história da Seleção Nacional. Mas eu acredito que podemos vencê-lo.

Boa sorte a todos!