Euro 2016

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O sonho é já ali

É hoje. Portugal e França disputam o jogo mais desejado e o sentimento é de ansiedade crescente entre os expatriados. Na procura pelo objetivo máximo, duas nações sustêm a respiração. Palavra a quem vive por fora

Tiago Oliveira

MATTHIEU ALEXANDRE

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Corações ao alto, olhos na televisão, sofrimento à espreita. O dia da final está aqui e, por mais improvável que pareça, Portugal está na final (repetir várias vezes para parecer mais plausível). Como adversário, os anfitriões, que não escondem o favoritismo. Como se diz na gíria futebolística, é um jogo de tripla com resultado imprevisível. Desde que não proíbam de sonhar, tudo é possível.

“O meu filho diz-me que já ganhou o euro.” É assim que Jullien Letarte descreve o ambiente que se vive na sua casa nas horas que antecedem a partida. A morar em Portugal há cinco anos, para onde veio com a mulher portuguesa trazer a Eric Kayser, garante que “fica feliz de qualquer maneira.” Mas desengane-se quem pensa que “não vai apoiar a França.” Ainda para mais quando se trata de um grupo de jogadores “que tem gozo em jogar, funciona em bloco e não tem estrelas.”

Mal se soube do adversário, “os clientes começaram logo a brincar”, mas sempre de forma saudável que é, aliás, algo que elogia na nossa “cultura futebolística.” Para logo à noite, vai “saborear sem pressão” enquanto se prepara para ver o desafio com um “grupo de amigos das duas nacionalidades” e que junta pessoas dos “5 aos 70 anos.” Com comida e bebida “que representam o melhor dos dois mundos.”

Quanto ao jogo propriamente dito, teme “o calculismo que Portugal tem demonstrado ao longo da competição” e que pode resultar num desafio com “futebol não muito bonito.” Ainda assim, acha que a história vai ser diferente, e aposta num 3-2 para os gauleses, com “espetáculo e emoção.” No caso dessa vitória, já tem uma “boa garrafa de champanhe reservada.” Vai tentar é não mostrar “demasiada alegria na segunda feira de manhã.”

É um cliché constatar que Portugal joga em casa quando está em França mas não digam isso a quem está por terras gaulesas a apoiar a seleção das quinas. Mais do que um estereótipo, é uma realidade sentida de perto por uma comunidade que chega ao 1 milhão. Que olha para hoje como o dia V. De vitória em honra de gerações que podem ter um dia histórico.

Um dos membros mais recentes da comunidade é André Meira. A trabalhar em Paris há cinco meses, conta como o Euro 2016 tem sido “tema de conversa na empresa”, onde muitas vezes ouviu que “não merecíamos estar na final e que fomos uma equipa medíocre até ao momento.” Claro que isso não o demove, e acha mesmo que temos “tudo para trazer a taça para casa”, o que seria um feito único e merecido.”

Para o engenheiro civil, é “realmente notável a quantidade de vezes que se entende a nossa língua pelas ruas de Paris”, o que já originou experiências “emotivas” como ver o desafio frente à Croácia na fanzone com “cerca de 10 mil portugueses. Após a vitória frente ao País de Gales, as “ruas ficaram repletas com gente a festejar” com tudo pintado “de verde e vermelho.” Para a final não conseguiu bilhetes, após ter ido ver o Portugal vs Islândia a Saint Etienne, mas o plano já está bem definido com “viagem cedo para perto do estádio” para conviver “e beber umas cervejas.”

Para o jogo, conta a com “a revelação Raphael Guerreiro”, o “importante triângulo defensivo José Fonte - Pepe - William Carvalho, o puto Renato Sanches nas transições defesa-ataque e as duas flechas na frente.” A nota artística, como diria Jorge Jesus, não é aqui o mais importante. A equipa das quinas deve “manter o estilo de jogo” que não tem ficado nada a dever “à consistência e à inteligência.” É a substância que pode trazer a vitória por 1-0 perante “franceses demasiado confiantes.” Caso aconteça, ninguém lhe vai tirar o prazer de chegar à empresa “com a camisola da seleção vestida.”

Momento libertador

Hélder Gonçalves não tem dúvidas que “o ambiente vai ser algo de inesquecível”. Filho de imigrantes, descreve “o apoio muito grande” que se tem vivido e as “grandes cenas de alegria que se têm sentido de norte a sul.” As picardias entre os dois povos fazem-se sentir desde sempre, e os franceses acham “que já têm o jogo ganho.” Disso fazem eco nas “escolas, nos trabalhos e nos cafés.” Os jornalistas “têm feito pouco da seleção ao longo da competição” e vive-se um clima de generalizada euforia. Nada melhor, por isso, do que “dar a resposta em campo.”

A receita para a vitória passa por “ter atenção com os ataques rápidos da França” e garantir que a equipa se continua a apoiar nas “certezas que levaram a final”, nomeadamente “uma defesa de ferro”, um meio campo que misture “muita atividade, alta qualidade técnica e luta.” É importante não esquecer o papel essencial que Ronaldo e Nani vão ter para “a conquista do euro”, uma vez que “a defesa francesa é o ponto fraco desta equipa.” Ou seja, se “conseguimos defender bem vamos ter oportunidades e acredito que podemos fazer a diferença.” Se estiver a ler, é seguir a receita, mister Fernando Santos.

O lugar em Saint Dennis para ver a final já está reservado, após acompanhar a equipa nos jogos com a Áustria e a Croácia. Se o primeiro deixou um sentimento “de generalizada desilusão”, o segundo guardou o momento alto da competição para quem lá estava “a sentir e a apoiar.” O golo de Quaresma aos 117 minutos “libertou o estádio” e gerou algo “incrível com uma intensidade imensa”, a fazer lembrar o Euro 2004. Os adeptos “não queriam voltar a casa” e ficaram a cantar até doer a voz. Para o jogo “pelo qual espera há muitos anos”, vaticina uma vitória de 1-0 com golo do capitão Ronaldo e festa farta “na avenida mais famosa do mundo, os Campos Elísios!”

“Desde o início” que Christiano Ribeiro acredita que Portugal ia estar hoje na final. A mistura do “poder jovem” com a “experiência dos mais velhos” aliada a um técnico que junta “coragem e loucura” augurava as coisas boas que se têm

vindo a realizar. “Não há seleção no mundo do futebol que Portugal não possa bater jogando de forma organizada e com o realismo que tem demonstrado.”

Num país onde, por vezes, “as piadas não têm tanta piada e são dirigidas de forma menos respeitosa”, a seleção significa “muito” para a comunidade. “Faz parte de nós”, diz. O jogo vai ser visto “no sossego para que nada possa escapar” e com a confiança que podemos chegar lá. Claro que será “preciso um estofo enorme” e perceber “o momento exato para as decisões de risco.” Só assim conseguiremos ter nas mãos “o nosso destino.”

A confirmar-se a vitória, a festa vai ser feita junto das pessoas “que partilham as mesmas origens” e querem todas “o mesmo.” Num grupo que já mostrou como consegue reagir às adversidades, a comunidade encontra um exemplo que “dignifica o seu povo” e mostra como uma nação pequena pode fazer frente aos nomes maiores. Já dizia o poeta que “o sonho comanda a vida.” Se ele se transformar em realidade, Christiano só tem uma certeza: “se vencermos o caneco, eu definitivamente não irei trabalhar na segunda!”