Euro 2016

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E agora vamos falar de Pepe, que vomitou (grande Pepe, incrível Pepe)

Isto que há de ler não é voyeurismo, é heroísmo - do Pepe

Ele acabou o jogo assim - deu tudo

Michael Dalder / Reuters

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O Éder fez-nos chorar com aquele remate enfurecido, o Ronaldo também com aquela lesão violenta e depois com aquela euforia histórica de taça erguida ao céu. O capitão fez-nos rir quando deu aquele murro esquisito na perna do Adrien ou quando fez junta técnica com o Fernando Santos. Já vimos essas imagens repetidamente, já as celebrámos continuamente, já nos emocionámos sucessivamente, estamos orgulhosos disso e do demais. Mas há que notar aquele sacrifício do Pepe. Do grande Pepe, incrível Pepe.

Não se escreve deliberadamente sobre alguém a vomitar. Muito menos quando é Pepe o homem do vómito (palavra tão feia, acontecimento tão desagradável, mas aqui haverá traços – e não traças – de heroísmo e altruísmo, como há de constatar): Pepe é o melhor jogador do Euro. Alguém terá de dizê-lo assim mesmo, sem justificações porque todos nós observámos o que homem andou a fazer em França. Pepe é o melhor jogador do Euro. E o melhor jogador do Euro acabou o Euro em que foi melhor que todos a parecer o mais frágil entre eles: a vomitar (é o verbo do vómito e tão feio como o substantivo que verbaliza). Isso mesmo: Pepe, o grande e incrível Pepe, não correu de entusiasmo, não saltou de exaltação, não gritou de comoção aos 122 minutos - não, o Pepe vomitou. Grande Pepe, incrível Pepe.

Se tiver em casa uma daquelas caixas que fazem a televisão andar para trás no tempo, veja quando Pepe foi abraçar os companheiros no momento do golo: o Renato saltou descontrolado para cima deles e gritou vernáculo bonito, o João Vieira Pinto parecia um dos 11 em campo e só o fatinho em vez do equipamento é que denunciava a verdade, o Ronaldo era um coxo chorão e por isso mesmo nos deslumbrou, e depois vem o Pepe abraçá-los todos e parecia um polvo capaz de envolver a equipa inteira naquele festejo – mas era um polvo combalido, porque quando lhe encontrámos a cara, quando o realizador nos deixou vê-la, ele não estava a sorrir nem a rir nem a gargalhar nem a gritar. Ele estava abalado, não pelo alvoroço do golo mas por algum tipo de dor que um dia ele nos contará. Dez minutos depois, ou algo assim, enquanto o Ronaldo empurrava o Fernando Santos com todo o amor-carinho-e-respeito do mundo, entendemos aquela celebração reprimida: o Pepe vomitava. O Pepe, campeão da Europa e melhor do Euro. Ele deu tudo, acabou doente. Vómito de herói.

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