Euro 2016

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O campeão colectivo: embaixador da Argentina escreve sobre a nossa vitória no Euro

O embaixador da Argentina em Lisboa escreve para o Expresso, felicitando a seleção pela conquista do Euro 2016. “A Argentina integra a elite mundial de selecções. E as maiores alegrias com que a nossa rica história nos brindou chegaram igualmente da conjugação entre o talento e a criatividade individuais e o aporte permanente do grupo como um todo”

Embaixador Oscar Moscariello

FILIP SINGER / EPA

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O Europeu chegou ao fim com um digno campeão. Portugal. O derradeiro e mais emotivo encontro do torneio terminou com um memorável triunfo sobre o conjunto anfitrião francês, que também justificou amplamente o seu lugar na final da prova.

Ao acompanhar as imagens do jogo, testemunhando o trabalho coordenado e a inabalável solidariedade da selecção portuguesa, dei-me conta de como esta equipa de guerreiros representa na plenitude a resiliência e a valia demonstradas todos os dias pelo povo português na construção de um país que nunca se rende à adversidade e que sempre revelou estar à altura dos desafios que se apresentam ao concerto das nações.

Há décadas que o futebol português nos oferece alguns dos melhores intérpretes da modalidade a nível mundial, desde Eusébio, a Figo e a Rui Costa. E assim é hoje com o seu capitão Cristiano Ronaldo. No entanto, uma verdadeira selecção de futebol ao mais alto nível não resulta de um mero somatório de individualidades com pretensões internacionais. É antes, e mais do que tudo, o produto de, ora defendendo ora atacando, saber funcionar em grupo.

Todas as equipas de futebol, tal como todas as nações, dispõem de “jogadores” talentosos. Contudo, como o passado tantas vezes atestou, sem organização nem concentração constantes dentro e fora de campo fica muito mais difícil atingir os objectivos.

Winslow Townson / Reuters

A inesquecível vitória de domingo, que tem assegurado um lugar cimeiro na história do futebol europeu, assentou justamente na capacidade de sofrimento do colectivo português que, debaixo da experiência do treinador Fernando Santos, nunca “baixou a guarda” ante o infortúnio.

A Argentina, nação de enorme tradição futebolística com dois Mundiais e catorze Copas Américas conquistados, integra a elite mundial de selecções. E as maiores alegrias com que a nossa rica história nos brindou chegaram igualmente da conjugação entre o talento e a criatividade individuais e o aporte permanente do grupo como um todo.

Tal como no futebol, a reunião entre o individual e o colectivo constitui a base essencial da construção de um grande país. Não foi por isso certamente um acaso o momento em que, logo após o apito final em Paris, os jogadores portugueses vestiram camisolas brancas que luziam a mensagem “11 milhões”. Um gesto que respondeu ao insaciável apoio popular, oriundo sobretudo das comunidades emigrantes, que a selecção portuguesa fez por merecer até subir à tribuna e erguer o troféu.

As lágrimas, o sofrimento, os sorrisos e as manifestações de alegria por parte dos jogadores portugueses e do público que os encorajava foram para mim sinais de uma latinidade que me recordou os triunfos mundiais outrora garantidos pela selecção argentina debaixo dessa mesma paixão que no domingo se apoderou do Stade de France.

Celebremos então o feito alcançado junto do povo português e da sua valente selecção nacional de futebol, a quem transmito umas vez mais sinceras felicitações por parte do povo argentino.