Euro 2016

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Pouco me importa(va) a seleção

Não ligava grande coisa à seleção, mas nunca consegui explicar porque é que ficava sem unhas no final de cada jogo

André de Atayde

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Bravo rapazes, somos campeões da Europa! Desculpem incluir-me no vosso grupo, mas tenho direito a sentir-me parte integrante da seleção. Digo sempre que não vibro pela equipa das quinas da mesma forma que vibro pelo meu clube do coração e é uma tremenda mentira. A cada jogo nosso faço sempre questão de estar sentado em frente à TV uma hora antes, completamente desligado do que se passa à minha volta.

Eu que nunca vibrei com a seleção fiquei sem unhas para roer, tal o 'camadão' de nervos que apanhei com este Euro e este último jogo, ganho de forma guerreira. A mim, que me passou o jogo completamente ao lado, apanho-me quase sem voz hoje. Eu, que não ligo 'puto' à equipa das quinas, comprei a camisola oficial só para usar na final. E que bem que assenta o manto.

Ainda bem que não ligo nenhuma, senão fazia como um amigo meu e tinha arrumado a casa toda durante os penáltis contra a Polónia. Como não me interessa, limitei-me a gritar "inchaaaaaa!, tomaaaaaa!" e afins. Para ficarem com a noção do quão pouco ligo à seleção, a minha cadela Magali usa um cachecol ao pescoço e eu não. Até uma bandeira tenho na varanda, vejam lá a pouca importância que demonstro por aquilo fizeram lá em terras francesas. Nem sei como é que se diz aquela coisa do 'não somos 11, somos 11 milhões'. Não deve ser assim, mas que se f...!

E tu, Éder, que maraviha de golo e que forma magnífica de terminar o Euro. Aposto que enquanto corrias com a bola e aguentavas uma carga, e depois outra, tinhas na mente a imensa alegria que ias dar aos portugueses no final da tua jogada. Aquilo foi um golo de antologia, rapaz, e não me venham dizer o contrário. Aquilo foi um golo de raiva, para quem disse mal de ti e da tua forma de jogar. Foi um golo rematado por todos o portugueses deste mundo. Obrigado!

Tu, Ronaldo. Tu, capitão. Tu, extraterrestre, obrigado. Pela garra, pela força, pela mentalidade que é tua e emprestas sempre aos outros. Tinhas razão quando disseste ao Moutinho que pouco importava de ganhassemos ou perdessemos, afinal é o que se diz aos irmãos mais novos. Ganhar ou perder é desporto, não é assim que se diz? É, e está muito bem dito, embora saiba que não acreditas nisto. Contigo é ganhar, ganhar, ganhar. Contra tudo e contra todos. E ainda bem que és assim.

Karl Marx escreveu na "Crítica da Filosofia do Direito de Hegel" que a religião "é o ópio do povo". Há quem se aproprie dessa expressão e a use para falar de futebol, ou política, ou televisão. Independentemente do contexto, não deixa de ser uma expressão demasiado simplista. Se houve coisa que o futebol da seleção fez foi unir um país e não acredito que o ópio faça isso. Poderá dar aquela sensação ilusória de que tudo está bem, mas para o caso, este caso, a última batalha e o título de campeões, só houve povo.

"Vai na fé, vai a pé, vai do jeito
que der. Vai até onde puder, vai
atrás do que tu quer. Vai
andando, vai seguindo, vai
pensando, vai sentido. Vai
amando, vai sorrindo, vai
cantando, vai curtindo. Vai
plantando e vai colhendo, vai
dançando no ritmo que o tempo
faz. Vai de peito aberto. Vai dar
certo. Confiante que o distante
num instante fica perto
"

Parte da letra de uma música de Gabriel O Pensador, "Sem Parar", diz isto. E fez todo o sentido ontem. Fomos andando, a pensar que iríamos até onde conseguíssemos ir. Fomos passando as várias fases com mais ou menos dificuldade, mais ou menos certeza, jogando mais ou menos bonito. Fomos eficazes, fomos plantando, colhendo e ganhamos a final do Euro2016. Às vezes o "distante num instante fica perto". 'Siiiiiiiim!'