Euro 2016

Perfil

Ronaldo, o nosso Eusébio

Capitão Ronaldo tem um cérebro altamente competitivo e inquebrável, que não admite ou não concebe a derrota mesmo quando esta é evidente

Pedro Candeias

Kai Pfaffenbach/reuters

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Eu vi o Ronaldo jogar, sprintar, chutar, cabecear e fazer golos à minha frente na Luz, em Alvalade, Madrid, Kharkiv, Varsóvia, Donetsk e Salvador da Bahia. Estive com ele algumas vezes e entrevistei-o numa delas, tal como estive e entrevistei o Eusébio, a quem nunca vi dar um pontapé numa bola. Ouvi dizer, porque me contaram e me juraram a pés juntos, que nunca houve nem haverá um “coice” — é assim a expressão que os antigos usam — como o do Eusébio, mas eu também nunca vi e acho que não verei alguém bater a bola como um Tomahawk — é assim a expressão que os novos usam — ou desafiar a gravidade num salto.

Portanto, quando parti para este texto com a ideia de comparar dois jogadores diferentes e de tempos diferentes, sabia que o faria numa base que não estava errada mas pelo menos condicionada pelo ponto de vista de alguém que só viu um jogar e que construiu a imagem do outro a partir do que lhe foi dito, do que foi lendo, dos VHS dos anos 80 e 90, dos DVD dos anos 2000 e do YouTube. E se ainda não posso dizer que o Ronaldo é melhor do que o Eusébio porque estaria a ser pouco responsável e precipitado, diriam os antigos, posso então dizer que o Ronaldo é o meu Eusébio, o Eusébio da minha geração e da que se segue. Mas quase que aposto que daqui a uns anos estaremos todos a refletir sobre a cobardia e a irresponsabilidade de não termos assumido logo que o Ronaldo é o melhor futebolista português de sempre, um dos três ou quatro melhores da história deste desporto depois do Pelé e do Maradona e de outro qualquer à escolha, todos elevados à categoria de mitos porque ganharam o que havia para ganhar carregando o país e o clube deles às costas. O Ronaldo já fez tudo isso; o Eusébio quase que fez. Ponto.

O melhor entre os melhores

Caso não tenham reparado, há anos que o Ronaldo leva o Real Madrid aos ombros — e o Real Madrid é o superclube mais mal organizado do planeta, com uma política de contratações caprichosa, a roçar a estupidez. E caso não tenham reparado, os melhores anos de Portugal (excluindo o Euro-2000) coincidem com a presença de Ronaldo na Seleção — não acredito em coincidências. E se já repararam não faz mal, faço um último reparo: o Ronaldo sobreviveu ao Ronaldo e aos outros que se quiseram fazer passar por Ronaldo, como o Rooney ou o Gareth Bale, e está há anos e anos no topo da cadeia alimentar, a somar golos como quem soma jogos (53, 60, 55, 51, 61 e 51, de 2010-11 para cá).

O Ronaldo não tem uma época boa e uma época má e os conceitos portugueses do deixa-andar e do faz-de-conta não existem para ele porque cada dia é um dia de trabalho. O Ronaldo não procrastina, o Ronaldo é pró-Cristiano. O Ronaldo não é de fogachos, o Ronaldo é o fogo e é o ‘foda-se’. E essa vontade arde-lhe lá dentro desde miúdo, quando corria pelas ruas inclinadas do Funchal acima e ao sol, com pesos nos tornozelos a fazer sprints nas férias do Sporting.

A vantagem dele sobre toda a gente é sua a determinação e a sua obsessão em fazer melhor. Não lhe chegava ser talentoso, isso ele sempre soube que era, e procurou ser mais forte porque com mais músculo suportaria melhor as cargas dos adversários. E como não lhe bastou ficar mais forte, procurou também ser mais rápido, e por isso pediu dicas a sprinters e treinadores sobre como colocar a cabeça e os pés quando alargava a passada. Depois, concluiu que ter mais peso não era suficiente e esculpiu os músculos como um Adónis para poder mostrá-los naquele espelho de corpo inteiro que o Manchester United instalou a pedido dele no balneário.

E a dada altura, quando percebeu que os melhores eram os que faziam golos, decidiu transformar-se num goleador, obrigando o Edwin van Der Sar a horas-extra pós-treino: “Se quero aprender a finalizar melhor, tenho de ter o melhor para me tentar defender”. Com o tempo, Ronaldo tornou-se um avançado temível, capaz de chutar com o pé esquerdo e com o pé direito, de cabecear lá em cima onde os guarda-redes chegam com os braços esticados. E, com o tempo, também se tornou um capitão melhor e um tipo ajuizado, com tendências umbiguistas, sim, mas genuíno e generoso. E humano.

Foi impossível não sentir empatia pelo Peter Pan caído e sem poderes de perlimpimpim, choroso e agarrado ao joelho torcido, que saiu e reentrou em campo para encerrar o sonho de marcar numa final prostrado numa maca. Por outro lado, foi incrível perceber que o homem egoísta e que celebra sozinho, viveu a final no banco, ao lado de Adrien, e de pé, a fazer-se ouvir aos colegas a pedido de Fernando Santos, como o verdadeiro líder desta seleção que durante muito tempo dependeu dos seus hat-tricks e truques de calcanhar. Houve Portugal além de Ronaldo, não houve Portugal sem Ronaldo. Porque Ronaldo será sempre imprescindível enquanto correr. É o xamã e o macho-alfa do balneário e é assim que ele quer ser visto, dominador e intimidante, poderoso, com o andar robótico e as costas largas, a olhar nos olhos quem lhe aparece na frente.

O cérebro

O que ele é e o que construiu não é obra do espírito santo de orelha mas daquilo que está entre as suas orelhas, um cérebro altamente competitivo e inquebrável, que não admite ou não concebe a derrota mesmo quando esta é evidente — e o Ronaldo já perdeu uma final da Champions e uma final de um Euro e, na cabeça dele, cinco Bolas de Ouro para o Messi. Só que enquanto o Messi se vai abaixo e afrouxa, não aguenta as críticas e desiste da Argentina, o Ronaldo aguenta, aguenta, porque tem o que mais ninguém tem: a capacidade de ressuscitar dos mortos.

Ele acaba sempre, mas sempre, por voltar e por dar a volta a todos os contextos, à força e com força de vontade. E nunca dá parte de fraco. Esconde as dores que tem (e que são muitas) e provavelmente alimenta-se delas para chegar mais longe; há nele, de certeza, um lado masoquista, já que só um masoquista ou um louco se sente impelido a sacrificar-se quando a idade e o extrato bancário aconselham precisamente o contrário.

Não façamos confusões. Ao contrário de outros, de outros tempos e de hoje, que encerraram e encerram a carreira em clubes menores e/ou em lugares distantes por dinheiro, o Ronaldo foi esperto e capaz de fazer o impossível — ser a cara e o corpo de muitas marcas sem perder o foco naquilo que o levou a ser a cara e o corpo dessas marcas que lhe pagam muito e a quem ele dá muito a ganhar. Há dias, no “El País”, li que o CR7 dá 486% de lucro a quem o patrocina, que cada tweet dele vale 100 mil dólares, e que a Nike fez quase 60 milhões de euros com os 59 posts no Facebook. O Ronaldo vai deixar de jogar quando lhe apetecer e “viver como um rei” até ser trasladado para o Panteão e ficar ao lado do Eusébio.

Estão bem um para o outro.