Euro 2016

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Querido Marcel, por favor explica-me onde é que a Áustria foi buscar tanta sorte

Portugal jogou melhor, criou mais oportunidades, rematou mais e ainda teve um penálti, mas falhou tudo. Mesmo com o novo plano de Fernando Santos - com Quaresma e William a titulares -, empatou com a Áustria e complicou ainda mais a qualificação para os oitavos de final

EPA

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Querido Marcel,

Então que tal? Nós por Marcoussis andamos do jeito que eu quero. Os malandrecos dos jornalistas bem que me tentaram fazer dizer, na conferência de imprensa, quem é que eu ia escolher para jogar contra a vossa equipa, mas fui mais esperto do que eles: disse-lhes que se lhes respondesse, então mais valia escrever-te uma carta a abrir o jogo, a ver se tu também me dizias quem ia jogar na Áustria.

Foi gira, não foi? Pronto, depois eu também disse um email, que hoje em dia os jovens já nem sabem bem o que é escrever uma carta. Tu tens 55, não é? Eu já tenho 61, mas digo-te uma coisa, quanto mais anos tenho, mais conhecimento tenho (ou estejamos, como diz o outro). Foi por isso que decidi cumprir com que disse e escrever-te mesmo uma carta.

Sabes, é que, na realidade, em Portugal os tipos ainda desconfiam muito de mim. Quer dizer, sete vitórias seguidas na qualificação e ainda me vêm com frescuras, vê lá tu. Preferiam o Paulo Bento, não? Já sei que na Áustria não levas tu com isso. És suíço mas disseram-me que a malta te adora, tendo em conta que a única vez que se tinham qualificado para um Euro foi como coanfitriões, em 2008. Também já fui um rei na Grécia, sabias?

Agora, isto tudo para te dizer o seguinte: eu meti o Danilo contra a Islândia para ganhar ali os duelos aéreos, mas a coisa não me correu bem - nem a mim nem ele, bem entendido. E depois, quando me pus a ver a Espanha a dar um baile de bola na Turquia, comecei a pensar “epá, mas se estes minorcas fazem o que querem, se calhar é melhor eu meter o William a titular para ver se começamos a construir melhor o jogo a partir da defesa.”

MIGUEL A. LOPES / LUSA

E não é que o rapaz cumpriu mesmo? Uma classe impecável a distribuir jogo, ao meio, à esquerda e à direita. Na realidade, foi depois de um passe dele que o Quaresma fintou dois e cruzou para o Nani para o primeiro cabeceamento perigoso do jogo (sim, porque o Harnik ali em frente ao Rui Patrício podia ter cabeceado mas não desviou a bola), mas não deu nada.

Ah, ainda não te tinha falado do Quaresma, pois não? Foi a outra alteração que fiz. Os jornalistas pensavam que eu ia meter o Renato no lugar do Moutinho, ou puxar o André Gomes para o meio, mas decidi dar baile aos gajos e tirei o João Mário. É verdade que não foi dos piores em campo contra a Islândia, mas não queria tirar o Moutinho dali, pronto. Até porque já tinha dito aos jornalistas que não ia fazer nenhuma revolução na equipa, isso foi em 74.

A entrada do 'Mustang' (era o Boloni que lhe chamava assim no Sporting, sabias? Li hoje no “L' Équipe”, ele elogiou a imprevisibilidade do rapaz com a bola nos pés) deixou-nos com um sistema um bocadinho diferente, porque eu ofensivamente dou muita liberdade aos nossos três craques: Quaresma, Nani e Ronaldo. Então a atacar tínhamos mais um 4-3-3 do que um 4-4-2, mas a defender o Quaresma descia e ficávamos com um 4-4-2, com Ronaldo e Nani na frente, até para conseguirmos pressionar logo a vossa saída de bola. E vocês bem que se borraram ali de vez em quando, porque tu puseste o Alaba mais à frente, a 'dez', em vez de 'oito', e ele raramente correspondeu, porque a bola não ia lá.

Mike Hewitt/Getty Images

Por falar em Nani, depois de ter sido o melhor contra a Islândia, ele hoje também começou muito bem. Aliás, podia ter marcado logo aos 12' quando aparece sozinho na cara do Almer, mas o sacana do teu guarda-redes fartou-se de defender, pá. Foram uma série de defesas dele e quando não foi ele ou foi o poste (naquele cabeceamento de Nani) ou a falta de pontaria incrível do nosso 7, depois de uma jogada espetacular entre Raphaël e Nani pela esquerda.

Eu digo-te o nosso 7, porque eu não tenho bem a certeza do nome do gajo. Disseram-me que era o Cristiano Ronaldo, mas estou desconfiado que me andam a enganar (sabes que a vista já não é o que era). Então o Ronaldo marca 50 golos por época e aqui este nem me marca, nem me constrói nada para os colegas? Não pode ser o Ronaldo. Ainda comecei a acreditar que era ele quando o vi a roubar um livre à entrada da área que era mesmo bom para o Raphäel bater (o Raphaël é um menino que vai agora para o Dortmund e que marcou de livre direto contra a Noruega, mas nesse jogo não estava lá o Ronaldo), mas percebi logo que não era o gajo quando, aos 78', o Hinteregger faz um penálti sobre ele.

Toda a gente em Portugal sabe que o Cavaco nunca se engana e raramente tem dúvidas (não deves saber quem é, mas deixa lá, não perdes muito), mas mais certo ainda do que isso é o Ronaldo marcar os penáltis que tem, no Real ou na seleção. Aquilo costuma ser certinho, raramente tem falhas.

FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images

Mas, esta noite, aquele 7 bateu o penálti para o poste. Já me viste o meu azar? Mais: logo depois, o mesmo 7 marcou golo num cabecamento, mas estava fora de jogo. Incrível, nem Ronaldo, nem golos. Eu bem tentei, quando o jogo começou a partir, mudar as coisas (saiu o Quaresma e entrou o João Mário, saiu o Gomes e entrou o Éder, saiu o Nani e entrou o Rafa), como tinha visto a França fazer contra a Albânia, porque os sortudos dos franceses marcaram mesmo no final dos dois jogos e nem jogam tanto como nós, mas não deu nada.

Ou seja, demos-te um grande baile de bola, verdade seja dita. Mas marcar golos? Nada. Hoje foram 27 remates, no último jogo foram 23, mas não acertamos com o raio da baliza. Até me benzo - e logo eu que sou um homem de fé. Ainda por cima no Parque dos Príncipes, onde o nosso Pauleta se fartava de marcar golos. Ainda pensei pedir ao gajo para descer da bancada e aquecer, vê lá tu o meu desespero.

Agora é que vão ser elas no último jogo do grupo, contra a Hungria, que empatou à tarde com a Islândia e já tem 4 pontos. Nós temos dois, a Islândia também, mas vocês ainda estão pior, só têm um. Pior ainda vai ser ouvir os malandros dos jornalistas outra vez. No final da conferência de imprensa disse-lhes para irem a Marcoussis que lhes pagava um copo. Foi gira, não foi? Eles riram-se. Verdade seja dita, depois disto, o melhor mesmo é beber para esquecer. Fico à espera da tua resposta, para perceber onde foste buscar tanta sorte para a tua equipa.

Um abraço,

Fernando Santos

P.S. - Esta carta não é real, mas podia ser. Ao contrário do empate de Portugal, que foi real, mas não devia ser.