Euro 2016

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"Os croatas são jogadores com tomates",

Marko Vukelic é diretor do Dinamo Zagreb há treze anos e não há ninguém melhor do que o diretor desportivo do campeão croata para explicar por que é que eles - os croatas - são tão bons. É que 15 dos 23 convocados da Croácia no Europeu já foram (quatro deles ainda são) do Dinamo

Cuidado com estes rapazes

NICOLAS TUCAT/Getty

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O rendimento da Croácia no Euro também foi uma surpresa para os croatas ou só para nós, estrangeiros?
Tenho de dizer que não, não foi nenhuma surpresa. Sabíamos bem antes do torneio que temos uma excelente equipa, com uma grande combinação entre jogadores experientes nos seus melhores anos e entre jovens talentosos com fome de conquistas. Quando juntas jogadores do Barcelona, do Real Madrid, da Juventus e de outras equipas com novos talentos então sabes que tens um grupo em grande.

Como explicas este ressurgimento do futebol croata?
Como disse antes, não vejo as coisas assim. Acho que estivemos sempre aqui, sempre a participar nas grandes competições e acredito que esta equipa está pronta para conseguir um grande resultado no Euro. Tens de perceber que somos um país pequeno, com pouco mais de quatro milhões de habitantes, por isso estar a participar nos Europeus e nos Mundiais já é um grande feito - e ainda conseguir mais do que isso parece-me fantástico.

Há quatro jogadores do Dinamo na seleção croata e três deles ainda são muito jovens. O que me podes dizes sobre eles?
Marko Pjaca tem 21 anos e é o extremo mais apetecível da Europa neste momento, é um jogador brilhante que irá ter uma grande carreira. Marko Rog tem 20 anos e é médio centro, é um lutador que fez um jogo muito bom contra a Espanha, no qual apagou Iniesta. Ante Coric tem 19 anos e é um organizador de jogo que os adeptos admiram, daqueles que os adeptos pagam bilhete para ver. O quarto jogador já é mais experiente [31 anos], Gordon Schildenfeld, é um defesa central muito experiente e valioso na nossa equipa.

Para além desses, há outros onze jogadores da seleção que já estiveram no Dinamo. É um número impressionante.
Temos uma das melhores escolas de formação do mundo. Todos esses jogadores agora jogam em grandes clubes como o Real Madrid, a Juventus, o Atlético de Madrid, Bayer Leverkusen, Lokomotiv Moscovo, Inter de Milão, Liverpool, Dinamo de Kiev, Fiorentina e outros mais. Somos um clube produtor, formamos jogadores todos os anos mas devido às leis do mercado temos de vendê-los, ganhar dinheiro e investi-lo novamente na formação de mais jogadores. É importante para nós ter um plano que os treinadores respeitem: ‘formar jogadores em vez de procurar resultados’. A única maneira que tens para formar um jogador é deixá-lo jogar e muitas vezes até contra adversários mais velhos. O resultado disso é que depois tens o nosso central Filip Benkovic, que tem 18 anos, a marcar o Lewandowski no Allianz Arena, na Liga dos Campeões. Tens de desenvolver os jogadores e dar-lhes experiência antes de quereres resultados.

Têm um plano de formação enquanto clube ou há algumas orientações da federação local?
Temos uma academia fantástica, uma das melhores do mundo em todos os aspetos possíveis. Em todas as alturas, pelo menos 50% da nossa equipa sénior é composta por jogadores formados no clube, por isso é natural que a maioria acabe a jogar na seleção. Ganhamos títulos, já são onze campeonatos consecutivos, e as nossas equipas jovens também são excelentes. Somos certamente o clube de topo na Croácia e diria até em toda a região, incluindo Áustria, Hungria, Eslovénia, Bósnia, Montenegro, Albânia e Sérvia. A formação é a nossa opção. Sabemos que somos um clube que não pode manter um jogador de topo depois dos 23, 24 anos. Sabes o lema do Barcelona, 'mais do que um clube'? O nosso, não oficial, é 'formar jogadores, mais do que um clube'. Neste momento temos na nossa equipa sénior onze jogadores com menos de 21 anos. Acho que não há outro clube na Europa que tenha isso.

Dão muita importância ao vosso plano de formação, então?
É crucial. Há muitos anos criámos uma orientação para a formação e todas as nossas equipas jovens jogam com o mesmo sistema porque sabemos que tipo de jogadores queremos para a nossa equipa principal. Dá muito trabalho, demora anos e às vezes o jogador não se desenvolve como imaginávamos, mas na maioria das vezes, com muito trabalho do jogador e do staff, compensa. Passar de um miúdo talentoso para um grande jogador de futebol é um longo caminho, há muitos obstáculos pelo caminho, mas creio que já provámos que temos uma espécie de fórmula. Depois de muitos anos a provar que conseguimos formar grandes jogadores jovens creio que construímos uma reputação que faz com que muitos jovens queiram estar no nosso clube.

Sim, Luka Modric - atualmente no Real Madrid - também já foi do Dinamo Zagreb

Sim, Luka Modric - atualmente no Real Madrid - também já foi do Dinamo Zagreb

Clive Rose/Getty

Como descreves o jogador croata? É parecido ao jogador português?
Isso é uma pergunta complicada. A história diz-nos que a maioria dos nossos jogadores é muita boa tecnicamente, sabe tratar a bola, jogar futebol. Uma outra coisa que posso dizer com certeza é que são jogadores ‘com tomates’. São muito corajosos, não têm medo da competição e dos momentos difíceis e esta é uma característica muito importante no futebol. Recentemente os nossos jogadores desenvolveram-se muito, por isso temos agora muitos jogadores que são bons tecnicamente e que também têm um ótimo físico. O Marko Pjaca é único. Depois também temos o Marko Rog e o Ante Coric, como já disse. Também temos o defesa central Filip Benkovic, que é o nosso defesa do futuro, e o Borna Sosa, provavelmente o melhor lateral esquerdo de 18 anos da Europa. E também temos uma série de outros jovens a aparecer, porque há uma geração brilhante de jogadores nascidos em 1998, que estão quase a entrar na equipa sénior. Certamente não temos de nos preocupar com o futuro, mas isso também não quer dizer que possamos relaxar.

O que pensas do jogador português? Já contrataram vários para o Dinamo.
Temos grandes experiências com jogadores portugueses. Há alguns anos contratámos o Tonel e ele era de facto um ótimo jogador e uma pessoa fantástica - e isso abriu todo um novo mercado para nós. Depois dele, trouxemos vários jogadores portugueses e deram-nos sempre aquilo que esperávamos - ou até mais. O Ivo Pinto esteve muito bem até ter ido para o Norwich, o Gonçalo, o Machado e o Eduardo ainda estão connosco e são jogadores muito valiosos na equipa. Também tivemos o Wilson por empréstimo... São todos verdadeiros profissionais, trabalhadores e jogadores de equipa. O Dinamo e os jogadores portugueses têm uma bela ligação [risos].

E que tal a seleção portuguesa?
Acho que Portugal tem uma seleção muito boa, mas acho que serão ainda melhores quando tiverem uma mudança de gerações. Sei que tem jogadores jovens fantásticos que precisam agora de ter oportunidade de entrar nos seniores. Quando o conseguirem, muitos irão retirar-se e os mais novos agarrarão a oportunidade - e tenho a certeza que aí estarão entre as três melhores seleções da Europa.

Vês a Croácia como um forte candidato ao título no Euro?
Claro que sim. Temos uma grande equipa, um ambiente muito positivo e jogadores em grande forma. Também tivemos grandes jogos na fase de grupos, por isso acho que podemos esperar muito desta equipa.