Euro 2016

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Fernando Santos explica (tintim por tintim) a vitória portuguesa: “Aborrecido foi para os croatas, que foram para casa”

O selecionador português não quer saber do “lirismo” do futebol para nada e está muito satisfeito com a prestação de Portugal no Euro-2016, com mais ou menos remates: “Podem chamar-me feio, mas eu quero é ganhar”

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Ganhar. Esta é a palavra-chave para Fernando Santos neste Europeu, independentemente do que A, B ou C possam dizer sobre a qualidade das exibições da seleção portuguesa. Foi isso mesmo que o selecionador explicou aos jornalistas portugueses esta tarde, em Marcoussis, numa conversa informal em que nenhum tema ficou por endereçar.

Portugal joga bonito ou joga feio?
Também já ouvi dizer que Portugal era uma seleção fantástica, excelente. Ouvi comentários muito favoráveis quando estávamos na fase de grupos. Não achei o jogo aborrecido, não. Aborrecido foi para os croatas, que foram para casa. Não consigo entender este lirismo do futebol. Vocês a mim critiquem-me à vontade, mas não critiquem os jogadores porque a responsabilidade é minha. Digo sempre aos jogadores uma coisa muito simples: no futebol, para mim, não há bonito e feio. Bonitos e feios são os homens e as mulheres. A minha mulher diz que sou o homem mais bonito do mundo e ela sabe bem que eu não sou, e eu também sei. Isto é dos olhos que veem. No futebol há bem e mal. Ou se joga bem ou se joga mal. E Portugal jogou bem. Agora, bonito ou feio não é uma coisa que me preocupe muito. Não estou ali para ser bonito, estou ali para procurar que a equipa ganhe. É isso que a mim me interessa fundamentalmente.

Quando jogas contra um adversário como a Croácia, que antes do jogo era considerada super favorita, uma das melhores equipas desta fase, com jogadores de grandíssimo nível, nós anulámos completamente a Croácia, mas depois achamos muito mau porque a Croácia também nos conseguiu anular a nós. Como é que é possível? Então do outro lado afinal estava quem? Talvez a Letónia. Conseguimos anulá-los - não é normal que eles também consigam? Alguns grandes treinadores, dos melhores, sempre diziam que a arte de bem defender também é uma arte do futebol, é preciso é apreciar o futebol por esse lado também. Nesse aspeto, Portugal esteve muito bem.

Como se preparou o jogo contra a Croácia?
Só tivemos três dias, pelo que ao segundo dia disse logo aos jogadores o que tínhamos de fazer. Dissemos o que pensávamos da equipa da Croácia, o que achávamos que eram os seus pontos fortes em termos de dinâmica de jogo, e o que tínhamos de procurar condicionar. E depois também o que achávamos que eram os pontos menos fortes para tirarmos partido. Nem tempo tivemos para treinar, foi quase tudo em termos de quadro, com uma ou outra exceção que tinha a ver com as bolas paradas, porque esta equipa da Croácia tinha mostrado que tinha muita pretensão à segunda bola, muitas vezes colocava era muita gente na entrada da área. De resto, foi tudo preparado a nível de pormenores no quadro tático. Nas seleções, muitas vezes não temos tempo para treinar algumas coisas. Se tivéssemos, algumas delas podiam ser melhores, como as transições ofensivas, por exemplo.

O objetivo foi defender bem e procurar o contra ataque?
A única coisa que avisei a equipa, já no prolongamento, foi que a Croácia estava a tentar com que Portugal se esquecesse do jogo. Começou a trocar a bola, a trocar, a trocar, para que Portugal perdesse a concentração, porque tem jogadores na frente muito rápidos que apostam nas costas das linhas defensivas adversárias. Eles tentaram adormecer Portugal. E já tínhamos ido nisso noutros jogos, o que também é normal, porque esta equipa tem de ser sempre focada. Há uma coisa que acho que não foi analisada e faço eu a análise: 11 jogadores em campo e só quatro - Patrício, Pepe, Ronaldo e Nani - tinham competido a este nível. Um dos outros jogou um jogo num Campeonato do Mundo. Dos outros, nenhum jogou numa fase final do Campeonato da Europa. Uma equipa com uma média de idades que acho que ronda os 26 anos. Portanto, não acham normal que estes jogadores, com uma pressão destas, também tenham alguns momentos em que as coisas não funcionam tão bem? É perfeitamente normal. O que chamei a atenção foi que neste jogo não podíamos jogar à bola, tínhamos de jogar sempre futebol. Não podíamos achar que íamos ganhar de qualquer maneira, um bocadinho como aconteceu com a Hungria. Procurámos ser pragmáticos, sempre com a perspetiva de que quando tivéssemos bola saíamos ou em ataque organizado ou em contra ataque para ganhar o jogo.

FRANCOIS LO PRESTI/Gett

A postura cautelosa no jogo é para manter?
"Quando tiver que ser preciso vai ser assim. Ah, mas eu não brinco com estas coisas. Podem chamar-me feio, podem dizer que não jogam nada, mas eu quero é ganhar. Obviamente que quero que a minha equipa jogue bem, mas à maluca não. À bola já não jogamos mais. As finais só se ganham a jogar futebol. Exige rigor técnico, táctico, concentração, blocos compactos... E depois há o dom natural dos meus jogadores para conseguirem desenvolver o seu jogo. Mas nem todos os adversários deixam. Tivemos movimentos excelentes, mas eles às vezes não deixavam, faziam grande pressão. Mérito para a Croácia e não demérito para Portugal."

Por que razão entraram Cédric, Adrien e Fonte?
"Este grupo não parte nem por nada. Porque todos sabem que conto com eles. Mas conto mesmo, não é contar de bla bla bla. Todos têm tido provas ao longo deste apuramento que não tenho receio nenhum de pôr os jogadores lá dentro. Quando tenho de colocá-los, eles estão totalmente disponíveis para fazer o que nós pretendemos. O Cédric, dos dois laterais, até é o que mais jogou. O Fonte também jogou alguns e nesta fase de estágio foi o central que mais foi utilizado. E o Adrien é um jogador que, apesar de não ter sido muito utilizado, trago sempre regularmente porque confio em absoluto nas capacidades dele. Agora, eu monto uma estratégia para cada jogo e entendo que este jogador serve melhor do que aquele. Isso não tem a ver com chamar-se Manuel, Joaquim ou António, tem a ver com as caraterísticas dos jogadores. Podem jogar na mesma zona do campo, mas não têm características iguais. Por exemplo, Danilo e William jogam normalmente na posição 'seis' e têm de características iguais... zero. O verdadeiro ás de trunfo da seleção portuguesa é a equipa. Aliás, é o póquer de ases."

Renato Sanches está a ganhar cada vez importância na seleção?
"Principalmente para a imprensa. A mim espanta-me um pouco, não vão levar a mal que eu diga isto, mas custa-me um bocadinho ver análises feitas de uma forma muito clubística. Esta é a seleção nacional, é a seleção de todos nós, é a equipa de Portugal. Parece que analisamos tudo de uma forma muito individualizada, muito em termos de clube. Faz-me lembrar um bocadinho a Grécia, mas pronto. Tenho de respeitar, mas também posso discordar. Acho que nos devíamos centrar mais naquilo que é o todo da equipa. Vou continuar a pensar pela minha cabeça, isso é seguro."

Porquê a saída de André Gomes logo no início da 2ª parte?
"Pensei fazer a substituição ao intervalo, se calhar até podia ter feito um pouco antes, porque ele já estava a dar sinais de cansaço - ele anda ali com um problema -, mas precisava que o Renato aquecesse. Tive de decidir rapidamente, porque ou o Renato ficava na cabine para eu explicar tudo o que queria e ele não ia aquecer, ou ele ia aquecer e depois não lhe explicava o que queria. Achei que era preferível dar-lhe tempo para aquecer e entrar bem num jogo de ritmo muito elevado."

O que é que mudou em Ricardo Quaresma?
"É a confiança, obviamente. Ele é talvez o jogador que melhor compreendeu e retrata esta questão dos 23. Percebeu muito bem isso desde o início, desde que o chamei. Neste lote de 23, qualquer um pode ser escolhido a qualquer altura, porque tenho muita confiança neles. Acho que isso mudou a forma de pensar do Ricardo. Como sempre, ele quer jogar, como os outros, mas é um jogador que naturalmente também percebe que há jogos em que eu entendo que ele não deve jogar. Aceitou isto com muita naturalidade. Percebendo isto, passou a ser um jogador claramente diferente. Aquele stress de quem acha que tem de jogar muitas vezes depois tolda as ideias. Depois precisas do jogador e ele próprio já não está tão disponível. Este Ricardo tem sido um exemplo ímpar nestes dois anos comigo."

Clive Mason

João Moutinho não está bem fisicamente?
"Sim, o Moutinho é um dos casos que temos tido. Felizmente não tivemos nenhuma lesão grave, mas tivemos alguns pequenos casos, como com o Quaresma, com o André Gomes, com o miúdo, o Raphaël - quer dizer, miúdo não, que ele é um jogador do... Bem, ia dizendo uma asneira [risos]. Agora temos com o Moutinho, que se calhar está a 50%. Não é um caso insolúvel, estamos convencidos que estará apto para a Polónia. Mas a opção [no meio-campo] não teve apenas a ver com a questão física."

Já não há dependência excessiva de Ronaldo?
"Acho que o Cristiano fez uma exibição soberba. Não falámos nada de especial. Acho que ele deu um exemplo do que é esta equipa, que é uma verdadeira equipa. Obviamente que de um jogador como ele todos esperamos que faça 10, 15 remates. Fez o remate que deu o golo do Quaresma, não fez mais nenhum, é verdade, mas em termos de participação coletiva foi um jogador fantástico. Como capitão, deu um grande exemplo."

Este é um Europeu mais cauteloso?
Não é este Europeu, são todos os Europeus e todos os campeonatos do mundo. A Alemanha foi campeã do mundo e na primeira fase marcou muitos golos, mas não me lembro se passou do 1-0 alguma vez na segunda fase... [houve os 7-1 ao Brasil na final - dizem os jornalistas] Pois, está bem, mas isso foi uma anormalidade. Houve muitos empates e muitas decisões por penáltis. Porque a partir do momento em que estão os melhores, os jogos começam a apertar. As equipas só se abrem quando há golos cedo. Não há favoritos agora. Cada jogo vai ser um jogo entre candidatos."

O que pretendeu ao ir festejar com os adeptos?
"Quis dizer-lhes que acreditem tanto como os meus jogadores. Porque eles vão morrer em campo para dar uma alegria ao povo português. E o povo tem essa garantia da nossa parte. Ninguém nos vai acusar de não fazer tudo."

O que espera da Polónia?
"Estou à espera de uma Polónia igual à que jogou a 1ª parte com a Suíça, que só tem um golo sofrido, que na fase de grupos não sofreu nenhum golo, que tem dois avançados fortíssimos - o Lewandowski por si só já chegava, não é?... Uma equipa muito forte no ataque rápido e no contra ataque."

Sente-se especial por ainda não ter perdido na seleção?
"Não me sinto nada especial. Continuo igual a mim próprio, tranquilo. Nunca me senti especial na vida."

O seu contrato termina a 30 de junho. Já renegociou?
Vou ficar até dia 11 [de julho]. Estou focado nisto [no Euro] e ninguém me vai tirar esse foco. Só isso e mais nada.