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O coração também respira

Desta é que é!

Arranca aqui "O coração também respira", uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.

Jorge Araújo

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Passa a mão pelo cabelo, a brilhantina a abraçar os dedos, a madeixa finalmente domesticada. Demora caretas em frente ao espelho, a voz da mulher a inundar a casa de banho. Ao princípio um sussurro, depois, grito que explode nos tímpanos. Quase nas bodas de ouro e os piores costumes ainda por mudar. Nem agora, com ela amarrada à vida numa cama, a rotina se altera.

- Não te demores, querido – o pedido é uma ordem, disco riscado, banda sonora do casamento.

Mas ele deixa-se ficar mais um tanto. Precisa de estacionar o raciocínio, juntar dois pensamentos, só assim conseguirá escolher as palavras certas, o tom de voz mais adequado. Respira fundo, o ar a afagar-lhe os pulmões, agora sim, está preparado, o coração também respira. Não quer contrariar a mulher e, às vezes, uma mentira piedosa vale mais do que a verdade.

- Vou ao café e já volto – responde ele – não demoro - palavras de camomila.

O café do Abel é a sua segunda casa, o seu único amparo. Caminha por lá há anos, tantos que perdeu a conta. Chega sempre de manhã, calado, mais olhos do que barriga. Acomoda-se na mesma mesa, aquela do fundo, poiso dos jornais desportivos e do Correio da Manhã. Normalmente adormece nas gordas, mas hoje faz um esforço suplementar para arrebitar as pestanas, demora-se um pouco mais na leitura. Nos dias que correm, um homem não pode dar parte de fraco, precisa de estar informado, ter opinião sobre o assunto que comanda a nação – a bola. O estado da selecção nacional.

- O costume? – pergunta Abel, na fidelidade da rotina.

Vitorino é um dos seus clientes mais antigos. O tempo é bom conselheiro, cria intimidades, já lhe conhece os apetites e os costumes. Não são precisas palavras, sabe ao que o amigo vem, café curto em chávena escaldada, meio pacote de açúcar por causa do colesterol, um copo de água. As gordas dos jornais.

Abel leva-lhe o café à mesa no silêncio de todos os dias e aproveita para olhar de soslaio os desportivos. Ler é luxo que desconhece. Só à conta de muito suor, conseguiu amanhar uma casa lá na terra, dois andares rebocados e uma cozinha com tudo quanto é bom. Pôr a filha à beira do canudo, glórias em medicina. Desde que se meteu no café, é patrão e empregado, mãos para toda a canseira, jura que não há pior sorte. Uma semana de férias em Agosto e o resto é dia e noite atrás do balcão. Nem domingos nem Natal e ainda os tostões contados. Mas isso pouco interessa, são contas de outro rosário - o mundo agora gira à volta da bola. Portugal, a Europa entre quatro linhas, a crise chutada para lá da final. Nada mais importa do que a taça.

- Agora é que é! – lança Abel, em jeito de pontapé de saída.

Vitorino levanta o olhar do jornal, mas está tão embrenhado na leitura que é incapaz de descodificar a mensagem. A chávena escaldada a tocar o tampo da mesa, a cinza do cigarro a alcatifar o chão de mosaico. Só quando os seus olhares se cruzam por um instante, estremece de indignação.

- Agora é que é! - diz para si mesmo, tentando digerir a certeza do amigo.

Também quer que a selecção ganhe, mas a vitória não pode ser assim tão fácil. Aquelas palavras soam a traição. É como se Fernando Santos o tivesse, à última hora, eliminado da convocatória. Riscado à queima-roupa. Não quer acreditar. Então, Portugal que sempre viveu de calculadora na mão, desta vez, não vai precisar fazer contas?! Desta vez, a esperança não será a última a morrer. Muito menos, no fado dos penaltis. O treinador remata numa publicidade de jornal que “temos selecção para ter ambição” e o povo assina de cruz. Deve estar tudo louco, pensa Vitorino

- Desta vez é que é – repete Abel.

Vitorino não merecia tamanha desfeita, logo ele que andou anos e anos a treinar, estações a fazer contas à magra reforma. Cruzou a vida a especializar-se na soma e na subtracção, mais subtrair do que somar porque o dinheiro não estica e o preço dos medicamentos anda pelas ruas da amargura. Todos os meses, começa por trocar carne por medicamentos, depois carne por legumes. A meio do calendário, já a corda ao pescoço. Sobra pouco, muito pouco, uma sopinha de batata e o punhado de feijão encarnado que lhe mandam da terra. Às vezes, não consegue guardar um centavo, a mulher a contorcer-se com dores e ele a poupar na dose para conseguir chegar ao fim do mês.

- Se a taça vier para Portugal, juro que vou a Fátima – a crença a aumentar no íntimo de Abel.

De repente, faz-se luz na ideia de Vitorino. Fernando Santos, que é um rato de sacristia, deve ter informações privilegiadas. Talvez já lhe tenham dito que Fátima tem um quarto segredo, que reza que Portugal vai ganhar o Europeu. O pensamento deixa-o reconfortado. Sente-se de novo útil. Orar é o seu pão-nosso de cada dia, sobretudo desde que a sua Marcolina ficou presa à cama, herança de um par de hérnias mal curadas. Numa mesa junto ao balcão, uma mulher forrada de luto acaricia o terço.

- Desta vez é que é – jura Abel, com convicção.