Euro 2016

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O coração também respira

Maria esqueceu o terço

Jorge Araújo

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Ontem, a mulher forrada de negro dos pés à cabeça entrou no café do Abel de maneira diferente. Ao invés de chegar sozinha com o seu terço, veio acompanhada pelo professor Bambara, o bruxo guineense. Mas poucos repararam, estava quase na hora do jogo, o pessoal só tinha olhos para o televisor. Vitorino foi dos poucos a registar o momento, ainda que sem lhe dar a devida importância. A mulher estava um caco desde que o gato desaparecera, devia precisar de acompanhamento espiritual. Talvez de algum trabalho para encontrar o animal.

O casal sentou-se à mesma mesa, o que por si só era uma boa notícia, pois libertava lugares para outros espectadores. Ainda mais, o café estava à pinha. O bairro naquelas quatro paredes. Abel controlava o rumo dos acontecimentos, era ele quem distribuía jogo. O coitado do André fazia de carregador de piano, ainda a partida não começara e já os músculos dormentes de tanto tirar imperiais.

O café preparava-se para o apito inicial com ânimo redobrado, Cristiano Ronaldo havia de estar furioso e isso só podia ser bom sinal. O único assunto era mesmo o melhor do mundo. O craque havia atirado o microfone de um jornalista da CMTV para um lago, ao ser abordado durante um passeio. Como de costume no café do Abel, as opiniões dividiam-se, nenhum tema regista unanimidade. Ele tem o rei na barriga mas, tirando o jogo dos três a dois contra a Suécia, não faz a ponta de um corno quando joga pela seleção, criticavam uns. Quem não sente não é filho de boa gente, esses jornalistas estavam mesmo a pedi-las, defendiam outros.

Nada de novo, CR7 era o centro das atenções. Bom era que daqui a nada fizesse o que melhor sabe, marcar golos. Portugal agradece, o povo precisa de uma grande alegria. No seu canto, Vitorino fazia figas, não há fome que não acabe em fartura, pensava, é hoje que vamos tirar a barriga de misérias.

Enquanto o jogo não começava, na televisão, alguns comentadores desfiavam banalidades, os jornalistas de serviço rezavam vitória, em rodapé lia-se: “Portugal a um empate do apuramento”. Assim não vamos lá, Vitorino protestou, em Portugal é oito ou oitenta, há poucos dias éramos os melhores do mundo, agora damo-nos por satisfeitos com um empate, o terceiro lugar do grupo. Mas depressa afastou o pensamento, se jogarmos para o empate ainda perdemos, e ele queria continuar a sonhar, a sonhar alto para não ter mais uma desilusão.

O jogo começou com Portugal a trocar a bola de costas voltadas para a baliza, assim não dá, gritou revoltado o Almeida do talho, um dos mais ativos da tarde. Essa gente pensa que a posse de bola ganha jogos, está enganada, despejou mais um pouco de sabedoria antes de concluir, o nosso problema é a finalização.

Foi então que Eliseu decidiu dar o ar de sua graça, o senhor advogado benzeu-se, é certo e sabido que quando o lateral esquerdo começa a querer flores, há tragédia no horizonte. Como se esperava perdeu a bola, não fosse Pepe a despachar para canto e era golo pela certa. Mas o que estava para acontecer acabou por acontecer – “é a lei de Murphy”, explicou um jornalista, a mostrar-se intelectual. Na sequência do canto, Nani não quis estragar o novo penteado e ofereceu de bandeja a bola a um húngaro que carimbou.

Os nervos à flor da pele, o Almeida do talho não se calava, não sei porque é que o Fernando Santos prefere o Moutinho ao Adrien. Ao que o seu concorrente direto, o Silva do outro talho, ripostou, quem devia lá estar era o puto, o Renato Sanches. De repente, a seleção já era, a doença clubista começara a falar mais alto. Quanto a Cristiano Ronaldo nem vê-lo, o jogo passava-lhe ao lado, ainda deve estar com a cabeça em Ibiza, anotou um assíduo leitor das páginas do Vidas.

Vitorino teve um mau pressentimento, já nem a claque de apoio remava para o mesmo lado. Podia jurar que este era um daqueles jogos impróprios para cardíacos, como dizem os comentadores. Decidiu não arriscar, o coração não é propriamente o seu músculo mais corajoso. Baixou os olhos, começou a rezar. Desistiu de ver o jogo, limitou-se a ouvir o relato.

Ouviu palmas quando Nani empatou já à beira do intervalo. Não viu o segundo golo da Hungria a abrir a segunda parte nem a obra de arte de Ronaldo. Ouviu desânimo ao terceiro golo dos húngaros e euforia no nosso empate. Houve um festival de golos, mas Vitorino só viu o primeiro. Questão de fé.

No entanto, isso não foi o mais importante. Naquela tarde, aconteceu algo de relevância extrema na barba de todos e ninguém deu por nada. Aproveitando a confusão provocada pelo golo do empate de Portugal, o professor Bambara tocou pela primeira vez as mãos de Maria.

Há dias em que a vida nos passa ao lado. Agora, até sábado, aos oitavos contra a Croácia, é rezar.

“Não ganhamos a ninguém mas também ninguém nos ganha. Somos os reis do empate.” Foi assim que o Almeida do talho rematou o dia em que Maria esqueceu o terço.