Euro 2016

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O coração também respira

Só mais um milagre, por favor

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

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O futebol é um poderoso afrodisíaco. Quando a equipa da nossa alma ganha, o coração bate mais forte, as artérias desentupidas, o sangue com via verde. No instante decisivo, aquele em que Ricardo Quaresma marcou o golo da vitória e arrumou os croatas, as gentes do café do Abel perderam a razão. A bola na baliza e os filtros por terra. Saltaram, gritaram, abraçaram-se. Até o Isaías saiu do armário e espetou um beijo na boca de Duarte. A euforia no comando.

A eletricidade tomou conta do ar, as hormonas sem sossego. Quando assim é, torna-se difícil escapar ao contágio. A febre atacou até mesmo quem pensava estar na reforma, quem já interiorizara que o sexo tem prazo de validade. Foi o caso de Vitorino. A explosão no café do Abel deixou-o mais novo, mais jovem, mais leve. Era como se tivesse recebido uma injeção de betão armado, uma infusão de adrenalina.

Vitorino sentia-se como nos bons velhos tempos, quando pegava Marcolina pela anca logo ao chegar a casa. É tão bom ter direito a uma segunda juventude, pensou, com olhos gulosos de prazer. Mal terminou o jogo, voou para casa, asas de veludo. Sabia bem que, à conta de um par de hérnias mal curado, a mulher estava presa à cama, mas o desassossego do corpo calara o pensamento. Naquele momento, a fé era a sua bengala. Quem disse que os milagres só acontecem uma vez? Suplicou ao Deus de sua crença, um milagre, só mais um. Mas nem sequer esperou pela resposta, depois de tantos Pais Nossos e outras tantas Avés Marias, devia ter crédito ilimitado no céu.

Pôs a chave à porta ainda sem saber que se enganara na contabilidade. Marcolina estava onde a deixara – estendida na cama, olhos cravados no teto branco. Ele deitou-se ao seu lado, abraçou-a, soprou palavras doces aos seus ouvidos. Ela gemeu, mas dor ao invés de prazer. E suspirou-lhe: “Também queria tanto…” Só mais um milagre, por favor, suplicou de novo Vitorino. Mas o corpo da mulher não respondeu, não havia nada a fazer, morto da cintura para baixo.

Vitorino logo se conformou, de nada vale lutar contra moinhos de vento. Deixou-se ficar à beira da mulher, fechou os olhos com força, embarcou nos caminhos do passado, voltou a sentir Marcolina de carne e osso. Depois caiu na realidade, cada peça no devido lugar. Não era só Marcolina quem encerrara o capítulo do prazer, também ele há muito não dava para este peditório. Havia sido operado à próstata, doença maldita, ataca pela retaguarda mas provoca danos irremediáveis na frente de ataque.

O pensamento teve o condão de lhe amparar o ego. Fez-lhe bem à autoestima. Num ápice, Vitorino voltou a pensar em futebol, a concentrar-se no que é realmente importante, a nossa seleção. Começámos o Euro com a retaguarda esfrangalhada, uma linha da frente longe dos seus dias de glória. Sofremos, é certo, mas chegámos até aqui. Esta semana, os quartos de final. É preciso acreditar. No futebol, tal como no sexo, a esperança é a última a morrer.