Euro 2016

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O coração também respira

A minha carne é melhor do que a tua

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

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O bairro está em pé de guerra. As hostilidades só não foram oficialmente declaradas porque neste momento há coisas bem mais importantes em jogo. Portugal enfrenta esta quinta feira a Polónia, no apuramento para as meias finais. O pessoal tem de estar concentrado, dispersar energia em várias frentes seria fatal. A guerra em banho-maria.

Mas as trincheiras estão preparadas, o inimigo devidamente identificado, as armas oleadas. Só falta mesmo carregar no gatilho, disparar o primeiro tiro. Ninguém tem dúvidas de que o começo tem dia marcado, o exato momento do regresso da seleção, o fim da festa. E, como quem vai à guerra dá e leva, vai haver mortos e feridos.

Há muito se estava a ver que esta história ia acabar mal. O talho do Almeida existe há gerações, o homem herdou o negócio do pai que já o havia recebido do avô. É património do bairro. A família sempre teve o monopólio das carnes, pelo que não lhe agradou a chegada de um concorrente. “É preciso muito descaramento para fazer uma coisa destas”, protestaram os apoiantes do Almeida. “Felizmente, agora temos escolha”, defendia a claque do Silva. Unanimidade é palavra proibida no dicionário do bairro.

A guerra começou por ser verbal, troca de galhardetes, insultos. Se pensas que me dás cabo do negócio estás enganado, antes dou eu cabo de ti, ameaçou Almeida vezes sem conta. Silva respondia de imediato: “Não tenho medo de filhos da puta como tu”. Aos poucos, o confronto subiu de tom, entrou na fase da propaganda.

Almeida muniu-se de artilharia pesada, da noite para o dia, a montra do estabelecimento forrada com cartazes: “Borrego nacional do melhor; Promoção aves; Novilho com osso que é uma perdição”. Silva acordou com táticas de snipper, o combate travado com uma só bala: “Não vendemos letreiros apenas carne genuinamente nacional”.

No bairro, o problema de qualquer guerra é que toda a gente é obrigada a tomar partido, ser a favor ou contra, neutralidade é conceito desconhecido. A escolha de trincheira deixava o advogado reformado fora de si. Gostava do Almeida, conhecia-o desde miúdo, mas não tinha um dedo a apontar ao Silva, bom rapaz até prova em contrário. Não se sentia, por isso, na obrigação de tomar partido. Além de tudo, não era grande apreciador de carne. Fizera-se melhor cliente da peixaria do que do talho.

A vantagem dos dias que correm é que todos os pensamentos vão dar ao Euro. Enquanto analisava mentalmente a guerra dos talhos, o velho advogado lembrou-se da seleção nacional e do jogo decisivo contra a Polónia. Será que o Fernando Santos vai colocar a carne toda no assador que nem o Almeida do talho? Ou montar uma equipa decidida, snipper de uma bala só? Dúvidas e mais dúvidas que depressa afastou da ideia. São assunto para comentadores encartados, desses que abundam nos canais de televisão. Ele só quer que Portugal ganhe, seja lá com que tática for.