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O coração também respira

Prata da casa

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

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Marcolina estremeceu quando a chave rodou na fechadura da porta. Só não voou porque o par de hérnias mal curado há muito lhe queimara as asas. Coração de mãe nunca se engana, sabia, que era ele, só podia ser ele – o seu filho, o seu único filho. Aquele jeito de meter a chave à porta era dele. Habituara-se nos tempos da adolescência, quando chegava a más horas e não queria acordar o prédio inteiro, a rodar a chave com cautela, suavemente. Passados estes anos todos, aquele som continuava melodia para os ouvidos de Marcolina.

Era ele. Só podia ser ele.

Estendida na cama, ouvia os passos aproximarem-se, afagarem o soalho do corredor. Há muito que não via o filho, as saudades doíam mais do que a doença, tantas que o coração fizera-se mais atrofiado do que ervilha de supermercado. Pena era o marido não estar em casa, Vitorino adora o filho, tem nele o seu tesouro. Compraria frango assado e batatas fritas para o almoço. Depois, à tarde, os dois homens da casa no café do Abel, imperiais e sandes de entremeada. Juntos, os dois na mesma ansiedade, olhos colados ao jogo decisivo, Portugal contra a Polónia. Vitorino haveria de ficar muito contente, jura Marcolina, ainda por cima, o seu menino dava sorte. No bairro, toda a gente sabe que foi graças a ele que o Eusébio deu a volta ao jogo e venceu a Correia do Norte, no Mundial de Inglaterra, em 1966.

– Mããããeeee… – fez-se anunciar o rapaz, com um grito arrastado à medida que se aproximava do quarto.

– Meu filho... – suspirou Marcolina, palavras num manto de saudade.

– Tenho tantas saudades tuas, mãe.

– Eu também, meu filho. Tantas que nem imaginas...

Ele debruça-se sobre a cama, beija-a na testa.

– Ai, que saudades... É tão bom, meu filho.

Mãe e filho num abraço, profunda saudade. Fechados num mundo só deles, palavras cifradas, dialeto de ternura. Quando ela dizia, hum, ele respondia, ham. E entendiam-se na perfeição da intimidade, do amor mais autêntico. Desde que ele nascera, conversavam assim, aquela era a linguagem deles. Só deles, sem direito a dicionário. Mas depressa a conversa começou a calar-se e a visita a revelar-se relâmpago. O rapaz sem tempo para o frango assado, nem sequer para o jogo. Tinha pressa, impaciência na ponta da língua.

– Mãe, tenho um problema... É grave, tens de me ajudar

– Mas o que é que se passa, meu filho?

– Por favor, não fiques preocupada. Só preciso que me ajudes...

– Mas o que é que se passa?

– Confia em mim. Por uma vez na vida, confia em mim.

– Mas eu sempre confiei em ti, meu filho..

– Tens de me ajudar, mãe, não tenho mais ninguém...

– Estás a assustar-me, meu querido. O que é que se passa? Como é que te posso ajudar?

– Preciso de dinheiro. Tens de me emprestar, mãe.

– Mas como? Quanto é que precisas? Eu e o teu pai somos dois pobres coitados. Somos dois velhos. Ainda por cima, estou para aqui atirada para esta cama.

– Estou tramado.

– Calma, meu filho.

– O que é que vai ser de mim, se não me ajudares? Estou desgraçado!

– Calma, meu filho, calma. Diz-me, por favor, o que é que se passa? O que é que posso fazer?

– Aquela tua gargantilha com a pedra de esmeralda...

– Isso não! Foi o teu pai quem ma deu no dia do nosso noivado. Isso não, por favor.

– Eu sei, mãe, mas...

– Não lhe posso fazer isso! A gargantilha não...

– Mãe, tens de me ajudar! É um caso de vida ou de morte!

Marcolina não voltou a pronunciar uma única palavra. Com a alma cravada de dor, apontou para a primeira gaveta da cómoda de mogno. O indicador a mostrar o mapa do tesouro. Ele saltou para a cómoda, pegou na gargantilha, deu-lhe dois beijos à pressa e saiu disparado porta fora. Ela virou-se na cama e chorou. Chorou a manhã inteira. Lágrimas que nunca ninguém havia chorado. Lágrimas que tempo algum podia secar.