Euro 2016

Perfil

O coração também respira

À grande e à francesa

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

Partilhar

Maria chegou de braço dado com o professor Bambara ao café do Abel. Enterrara o luto, o terço, o gato desaparecido era agora uma lembrança longínqua. Trazia um vestido de chita branco com bolinhas vermelhas, colar de búzios, felicidade tatuada no rosto. Mais leve, mais solta, não precisava de brisa para levantar voo.

Atravessou o café como quem desfila para o altar. As pessoas olhavam para ela sem crer no que viam, há muito haviam esquecido que o amor tem destes milagres. Maria sentou-se à sua mesa, a do costume, sem largar a mão do seu homem. Não o deixava por nada deste mundo. Estava nas nuvens, lua de mel sem fim.

Abel nem precisou de registar o pedido, serviu-lhes de imediato dois cafés. O costume. O dele forte e curto, o dela pingado. Depois, tentou meter conversa desfiando banalidades, o calor que ninguém aguenta, o frio que foi demasiado, a chuva que falta. Estava curioso, queria saber mais sobre aquela relação. O amor que nascera invisível debaixo das suas barbas. A história andou depressa demais, pensou para consigo, como se nestas coisas do amor houvesse um ritmo certo.

– Precisamos muito de falar consigo, Abel.

– Ai é? – respondeu Abel, anotando que ela falava no plural, já abolira o singular.

– Gostávamos muito de organizar uma festa no próximo domingo, aqui, no seu café. Queremos partilhar com o bairro a nossa alegria. E, verdade seja dita, foi aqui que tudo começou.

– Mas aos domingos estou fechado…

– Nós sabemos, mas gostávamos mesmo que fosse aqui.

De repente, a música da caixa registadora ecoou na cabeça de Abel. Esqueceu o dia de folga, concentrou-se no negócio. A vida está difícil e um homem tem de ganhar pé-de-meia. Ainda por cima, a filha está quase a acabar a licenciatura e ele quer oferecer-lhe um presente à altura que não há dinheiro que pague o orgulho de ver um filho doutor. Um dia não são dias, mais vale alinhar no trabalho extra.

– Então, digam lá o que é que pretendem exactamente? – estendeu o tapete vermelho ao negócio.

– Uma festa com tudo do bom e do melhor.

– À grande e à francesa?

– Isso mesmo.

– Mas calha na final do Europeu, não é?

– Melhor ainda! Então, se a nossa seleção lá estiver, é que a festa vai ser em grande.

– Estou a ver...

– Diga lá, podemos contar consigo?

– Claro que sim, meus amigos.

– E quando é que nos consegue apresentar um orçamento?

– É já a seguir. Só um minuto que já lhes digo.

Abel deixou os comandos do café ao André e trancou-se no reservado. Fez as suas contas, resultado de somar e subtrair, o papel carregado de gatafunhos. A festa da Maria e do professor Bambara era um bilhete de lotaria premiado. Para além do negócio, a verdade é que sempre gostara de uma boa festa e estava contente com a alegria do casal. Se dependesse dele, a festa havia de ficar na memória do bairro.

– Têm aqui a minha proposta – colocou a folha de papel em cima da mesa.

– Combinado. Mas o champanhe trazemos nós – respondeu Maria.

Aperto de mão, negócio fechado. Aconteça o que acontecer, no próximo domingo, há festa rija no café do Abel. Palmadinha nas costas, o brinde acertado. Melhor seria se Portugal chegasse à final, tão cedo ninguém iria esquecer o dia em que Maria e o professor Bambara disseram o sim em frente ao bairro.