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O coração também respira

O melhor presente do mundo

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

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Ontem, ao regressar a casa depois da escola, Pedro não ficou a namorar os bolos, as guloseimas, os chocolates envergonhados pelo calor. Ao passar em frente à montra do café, desfez o nó do abraço, libertou-se da mãe, correu como um foguete. Só parou atrás do balcão. Mas Abel nem deu por ele, estava entretido a arrumar grades de cerveja. O camião viera há pouco descarregar mais uma encomenda. Amanhã, é dia de meias-finais e Portugal vai estar em campo. A nossa seleção contra o País de Gales, o bairro em peso no café, álcool não pode faltar.

– Boa tarde, senhor! – o amigo de palmo e meio fez-se anunciar.

– Desculpa Pedro, não te tinha visto. Está tudo bem contigo?

– Sim. Estou muito bem.

– E diz-me lá uma coisa: portaste-te bem na escola?

– A minha professora disse que me portei muito bem. E sabes como é que ela se chama?

– Não.

– Gabriela.

– É um nome muito bonito. Faz-me lembrar uma rapariga que conheci quando tinha mais ou menos a tua idade.

– E tinhas o meu tamanho?

– Não, tu és maior!

– Olha, sabes uma coisa? Tenho um presente para ti.

– Um presente para mim?

– Sim…um presente! E fui eu que fiz sozinho.

Mal engoliu a última sílaba, Pedro enfiou a mãozinha no fundo do bolso dos calções. Mas em vez do prometido presente, apareceu o Chase, um dos bonecos da Patrulha Pata, o seu desenho animado preferido. Oh não, confirmou o engano com uma sonora gargalhada. Este não é o teu presente, acrescentou, continuando a vasculhar os bolsos. Depois de muito procurar, os seus pequenos dedos descobriram o que ansiavam – uma folha de papel dobrada em quatro. A caneta verde, a letra da professora deixava claro o destinatário: Para o senhor Abel.

– Este é que é o teu presente!

– Tão bonito, Pedro.

– Fui eu que fiz. Só pedi à minha professora para escrever o teu nome como nas cartas.

– Está muito bonito! Tu desenhas muito bem, Pedro.

– Estás a ver…somos nós os dois a passear de mãos dadas. Eu sou o mais pequenino e tu és o grande – disse, com o indicador a passear pelos traços que povoavam a folha de papel.

– Não é assim que se fala com as pessoas, Pedro – interrompeu a mãe, tentando impingir boa educação – é senhor Abel que se diz – acrescentou.

– Deixe estar – as palavras soltaram-se sem querer, entre mãe e filho, Abel não queria meter a colher.

– E sabes onde é que nós estávamos, senhor? – retornou Pedro.

– Não. Diz-me lá.

– No jardim zoológico.

– Sabes que eu também gosto muito do jardim zoológico?

– Este é o leão, o rei da selva… esta com o pescoço muito comprido é a girafa… e esta com muitas pintinhas é a chita. Sabias que é o animal mais veloz do mundo, Abel? Sabias que são animais da selva? Já foste à selva? E ao jardim zoológico? – indagava Pedro sem parar de identificar os seus traços.

– Conheces tantos animais, rapaz! Onde é que aprendestes essas coisas todas?

– Foi a Gabriela que me ensinou.

– A tua professora gosta muito de ti, não é?

– Gosta. E eu também gosto muito dela.

Pedro despediu-se de Abel com um beijo no rosto e disparou para a rua. A mãe atrás dele, num grito, quantas vezes já te disse para não fazeres isto, dizia e voltava a dizer, é muito perigoso, acrescentava. Mas mamã, tu não disseste STOP, tentava desculpar-se o miúdo.

Abel continuava atrás do balcão, uma folha de papel encostada ao peito. Era o homem mais feliz do mundo. Há muito tempo que ninguém lhe dava um presente e aquele era o melhor do mundo. Um desenho do seu amigo de palmo e meio valia mais do que um quadro da Paula Rego. Um desenho feito a lápis e coração. Um coração maior do que o corpo que o alberga.