Euro 2016

Perfil

O coração também respira

A minha doce ucraniana

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

Partilhar

Elisângela, a brasileira, foi a primeira das muitas empregadas domésticas que passaram pela casa do velho advogado. Algumas apenas demoraram um dia, começavam com exigências, ele perdia a cabeça, mostrava-lhes o olho da rua. Outras prometiam muito no primeiro dia, pareciam formiguinhas trabalhadoras, mas gastavam tão depressa a bateria que ele acabava por lhes indicar a saída.

Pelo apartamento do velho advogado, passaram angolanas, brasileiras, cabo-verdianas. Até uma portuguesa. Bem se admirou de a ter contratado, a maioria prefere emigrar para fazer o mesmo a troco de mais. Certo é que nenhuma chegou a aquecer lugar.

Um dia, mais uma vez por sugestão da filha do Abel, contratou Tatiana, uma ucraniana.

– É boa pessoa, muita asseada e trabalhadora. Fala pouco e não se dá muito por ela – foram estas as credenciais apresentadas pela rapariga.

– É isso mesmo que preciso – o velho advogado ágil na resposta.

– Só tem um problema…

– Não me diga… Qual?

Depois das experiências mal sucedidas, o velho estava vacinado. Antigamente, o mundo era outro, pensou mais do que uma vez, as empregadas eram pessoas de confiança, duravam uma vida, faziam parte da família. Num instante, começou a elaborar mentalmente a lista de eventuais problemas – deve ter seis filhos pequenos; está grávida de sete meses; só trabalha uma vez por semana e nunca à sexta-feira; é alérgica a detergentes... A lista não parava de crescer, uma empregada é parte do problema e não a solução, concluiu.

– Ela é ucraniana – a filha do Abel colocou um travão na especulação.

– Mas isso não é um problema! Fala português, não fala?

– Fala sim. Até fala muito bem para quem cá está há tão pouco tempo.

– Mas então qual é o problema?

– Está ilegal.

– Isso é o menos – o velho advogado resolveu de uma penada o problema.

– Se assim é… acho que a Tatiana é a pessoa indicada para si. Não se vai arrepender.

A filha do Abel tinha toda a razão. Tatiana, a ucraniana, revelou-se a sua salvação. Desde o momento em que entrou naquela casa, mostrou-se trabalhadora, eficiente, discreta. Simpática. Dá conta das lides domésticas e da solidão, fez-se companhia, tanto que ele já não sabe qual das vertentes do trabalho é a mais importante. Muitas vezes, quando acaba a jornada, não corre para casa, deixa-se estar na sala à conversa com ele. É uma mulher inteligente, professora antes de embarcar para Portugal.

O velho advogado gosta daqueles momentos. Nunca foi homem de virar costas a uma boa conversa, por isso puxa pela sua doce ucraniana, perguntas atrás de perguntas, quer saber tudo sobre a terra dela. E ela responde com palavras de veludo, sem deixar de contar que a vida não está nada boa, muita pobreza, guerra com a Rússia.

Certamente, hoje, a Tatiana não vai levar a mal a sua ausência. Esta tarde, o advogado não poderá ficar a escutá-la, tem de marcar lugar no café do Abel. É um dia muito importante, Portugal nas meias-finais do Europeu, a nossa seleção contra o País de Gales. O jogo começa às oito, mas ele não quer perder os exercícios de aquecimento. Um homem tem de estar preparado, concentrado, beber umas minis antes do apito inicial, discutir a tática, saber tudo sobre as últimas da lesão do Pepe. O velho advogado não tem dúvidas – nem que esteja morto, Pepe tem de jogar, é o patrão da nossa defesa. Bom seria se o Cristiano Ronaldo fizesse o gosto ao pé. O melhor do mundo a levar-nos à maior das alegrias. Se assim for, no próximo domingo, Paris será uma festa.