Euro 2016

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O coração também respira

A minha final é amanhã

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

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André chegou ao café do Abel com passos maiores do que as pernas. Apesar de ser dia de jogo decisivo, adrenalina no vermelho, o pessoal estranhou. Como é que um coxo de nascença começa, de repente, a caminhar no mais perfeito compasso? E a esse milagre somavam-se outros estranhos sinais, todos juntos revelavam que André estava noutro planeta. O que verdadeiramente o denunciou foi o sorriso parvo que trazia na berma dos lábios. E isso, como toda a gente sabe, é marca indelével de quem está apaixonado.

O amor é capaz de tudo, até de fazer um coxo voar. O problema é que ninguém sabia o que se estava realmente a passar com o rapaz. No bairro, os segredos pouco duram, todos sabem da vida de todos. Indiferente ao burburinho, André distribuía sorrisos, palmadinhas nas costas, palavras alegres. Era o retrato da felicidade.

Estava assim desde o baile da última sexta-feira, quando trocou olhares com a cabo-verdiana que mora duas ruas acima. Uma deusa a dançar kizomba. Ficou nas nuvens e dali nunca mais saiu. Ainda por cima, no dia seguinte, encontrou-a por sorte na rua, junto à drogaria. Ele meio atrapalhado, ela num sonoro bom-dia. Só ao terceiro encontro, arriscaram conversa.

- Você não falha um baile no centro – foi ela quem quebrou o gelo.

- Gosto muito de ir ver.

- Como assim?

- Gosto de ver o pessoal a dançar.

- A sério? Eu então dançava o dia inteiro, se pudesse.

- E dança muito bem... – André avançou um elogio.

- Obrigada. E porque é que você não dança?

- Porque não sei.

- Mas dançar é a coisa mais natural do mundo. Toda a gente sabe dançar!

- Eu não consigo, falta-me jeito e... além disso, tenho um pequeno problema – apontou para a perna coxa.

- Isso é o que você pensa.

- Antes fosse...

- A sério, é uma vantagem. Tem um balancear natural.

- Acha mesmo?

- Não acho, tenho a certeza.

O ego do André, normalmente rastejante, pôs-se em bicos de pés. Nunca havia pensado naquilo, mas agora que a cabo-verdiana o mencionava, reconhecia que fazia todo o sentido. Ao som de Kizomba, ser coxo não é defeito, é qualidade. No próximo baile, há de encher-se de coragem e puxá-la para dançar. É pena que não seja já hoje, era capaz de encher a pista de dança de magia.

- Desculpe, mas tenho de ir andando. Ainda tenho de fazer o jantar das crianças – despediu-se ela.

- Até breve – respondeu ele, com a cabeça nas nuvens.

Desde aquele encontro, André não desce à realidade. Pensa nela o dia inteiro, todas os minutos do relógio. Por isso, nem reparou que o jogo tinha começado. Abel gritava furioso o seu nome, ajuda aí, as imperiais em fila indiana no balcão, à espera de serem servidas. Foi um acordar doloroso, teve de esquecer a cabo-verdiana e correr atrás do prejuízo. Faltavam-lhe mãos para acudir a tanta sede.

Tinha tanto para fazer, tanto para pensar, que os noventa minutos passaram num segundo. Não deu pela ausência de Pepe, o patrão da defesa, pelo aperto do País de Gales nos minutos iniciais, pela grande penalidade sobre Ronaldo, mais uma por assinalar. Nem deu pelo intervalo, uma chuva de pedidos, o bairro entretido em imperiais e bifanas.

A segunda parte do jogo continuou a passar-lhe ao lado. Não ouviu os gritos vindos do Terreiro do Paço quando Ronaldo voou entre os centrais e marcou o primeiro golo. Nem quando Nani desviou a bola do guarda-redes no segundo. E continuou ignorante até ao momento em que o árbitro apitou fim. Vitória! Portugal na final do Euro, o país a fazer história pela segunda vez. André apenas reparou que Maria e o professor Bambara trocavam meiguices, mais interessados no amor do que no resultado do jogo.

- Quem é que preferes na final? – Felisberto, o canalizador, perguntou a Vitorino.

- Eu quero os franceses, temos contas a ajustar – respondeu de imediato.

- Eu prefiro os alemães. Têm a mania que são os maiores, que mandam em tudo, mas dentro do campo damos cabo deles – o velho advogado entrou a pés juntos na conversa.

Na verdade, essa é a última das preocupações de André. A sua final é outra. E é já amanhã quando pisar a pista do Centro Recreativo e Cultural. O DJ a meter um Kizomba e ele a encher-se de coragem. No momento da verdade, vai estar à altura do desafio. E, mesmo que a voz lhe doa, terá de perguntar:

- A menina dança?

E vai provar que o tempo perdido em frente ao espelho baço da casa de banho, horas a ensaiar passos de dança, valeu a pena. E os dois, coladinhos um ao outro, vão voar pela sala. E ser felizes para sempre.