Euro 2016

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O coração também respira

A minha menina é doutora

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

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Atrás do balcão, Abel não para um segundo. De um lado para o outro como quem passeia pelo paraíso. Aquele balcão é há muito a sua prisão, mas sempre lhe estendeu a mão, sem ele nunca teria conseguido a alegria desta manhã. Hoje é o dia mais importante da sua vida. O dia pelo qual lutou de sol a sol durante anos a fio, o dia que prometeu à mulher quando a doença lhe consumiu a carne e devorou os ossos. Agora sim, pode morrer descansado, a sua vida faz finalmente sentido.

- A minha menina é doutora! – anuncia a quem chega, com a felicidade estampada no rosto.

Melhor do que ninguém, Abel sabe que a felicidade tem preço –não é fácil criar um filho, ainda por cima, sozinho. Mas conseguiu e isso é a maior alegria da vida. Quantos sacrifícios, quantas noites a contar tostões? Ele é a prova de que filho de pobre não está condenado à ignorância, a suar nas obras ou na casa de patrões. A apodrecer atrás de um balcão.

- A minha menina é doutora! – o orgulho em carne viva.

Para assinalar o momento, decretou bar aberto. Um dia não são dias e a sua menina não é apenas dele, é do bairro inteiro. Destas ruas que a viram nascer e crescer. Queimar as pestanas nos livros. Não foi fácil, cedo ficou sem mãe, só ela, o pai e o balcão. Valeu-lhe a vizinhança, nunca ninguém deixou que lhe faltasse nada. Temos de ser uns para os outros, é o lema do bairro. Foi também aqui que se fez mulher, pensou o pai. A palavra colada a custo no pensamento, pode até ser maior e vacinada mas, para ele, a sua menina nunca será mulher.

- A minha menina é doutora! – continuava a partilhar a sua felicidade sem tamanho.

- Vai mais uma imperial? – acrescentou, dirigindo-se ao amigo Vitorino.

Apesar de estar a poupar o fígado para a final do Euro, Vitorino não conseguiu recusar, um acontecimento destes não é todos os dias. No bairro, ainda se contam pelos dedos das mãos os filhos que chegaram a doutores e ele é testemunha de quanto Abel viveu para a filha, de quanto somou sacrifícios sem deixar escapar um lamento. A miúda é tudo para ele.

- Isso merece um brinde! – Duarte estendeu o copo à clientela.

- Esperem só um bocadinho, tenho o copo vazio – Felisberto invocou boas razões para atrasar o ritual.

Abel serviu-lhe mais uma imperial, devia ser a décima, em matéria de bebida o canalizador é uma esponja, poço sem fundo. Pouco importa, hoje é dia de festa e Abel apagara a máquina registadora da cabeça. O coração não fala a mesma língua que o negócio e ele sentia uma dívida de gratidão. Sem o bairro, sem vocês, meus amigos, talvez a minha filha nunca tivesse um canudo, repetiu vezes em conta ao longo do dia, não há dinheiro no mundo que pague o que fizeram.

- À nossa doutora! – Duarte gritou a plenos pulmões.

- Viva! – a clientela respondeu em uníssono.

As lágrimas ganharam guia de marcha, Abel mergulhado num pranto. Nenhum homem é de ferro, muito menos um pai. Assim, vocês vão dar cabo de mim, procurou amaciar com humor a emoção que transpirava pelos poros.

- E onde está a nossa doutora? – Vitorino quis saber.

- Sabem como é a juventude, foi festejar com o namorado e com os amigos – respondeu o pai.

Entretanto, na televisão, acabava a meia final entre a França e a Alemanha, os gauleses a vencerem por dois a zero. Foram levados ao colo, aquela grande penalidade foi mal assinalada, disse o Aníbal dos “Eletrodomésticos Amizade”, o único que prestara alguma atenção ao jogo. Mas isso pouco importa, domingo é que conta. Ronaldo vai querer fazer história, o resto que se foda. Portugal a um passo de ser o país dos novos três F. Fátima, fado e foda-se.

- Hoje, vou finalmente dormir descansado – suspirou Abel ao fechar as portas do café. A minha menina já é doutora.