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O coração também respira

A morte aqui tão perto

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

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Abel estava a meio de um sonho cor de rosa quando o telemóvel tocou. Acordou estremunhado, mas logo esticou o braço na direcção da mesinha-de-cabeceira. Era a filha. Só podia ser ela. Tinha ido festejar o canudo com o namorado e com os amigos e ainda não chegara. Só podia ser ela. Desde as primeiras saídas, ainda na adolescência, têm um acordo - sempre que chega mais tarde ou dorme fora de casa, telefona a avisar. Cuidadosa como só ela, nunca falha, faz tudo para não preocupar o pai.

Abel alcançou o telemóvel num tremor. Um estranho pressentimento tomou-o de assalto. De repente, o sexto sentido em alerta vermelho. Olhou para o visor, a fotografia da filha a brilhar na escuridão. Era mesmo ela. Ele ficou paralisado, os dedos gelados de medo, sem qualquer serventia. Quando finalmente conseguiu atender a chamada, uma voz masculina esperava-o do outro lado. Coração de pai raramente se engana.

- Desculpe incomodar a esta hora, mas a última chamada deste telemóvel foi para si. Conhece a senhora Maria do Rosário Pereira Caneco?

- Mas o que é que se passa?!

- Desculpe, conhece ou não?

- É a minha filha. Com quem é que estou a falar?

- Aqui é da Polícia de Segurança Pública…

- Meu Deus! O que é que aconteceu?

- A senhora Maria do Rosário Pereira Caneco sofreu um grave acidente de viação.

- A minha filha...

- O condutor do veículo estava alcoolizado, adormeceu ao volante e foi embater contra um camião que seguia em frente.

- E a minha filha? O que é que aconteceu à minha filha?

- Estamos aqui no Hospital…

- O que é que aconteceu à minha filha?! Como é que ela está?

- Neste momento, não podemos dar mais informações. Entrou para a sala de operações há pouco…

- Meu Deus! O que é que aconteceu à minha menina?

- Ela teve muita sorte, dado o impacto do embate…

- Mas o que é que aconteceu à minha filha?

- Ainda não se sabe bem, mas parece que é apenas uma fractura exposta na perna direita e umas escoriações no rosto. Felizmente, está fora de perigo.

- E os amigos dela? – só então Abel se preocupou com o destino do namorado e dos amigos que seguiam no mesmo carro.

- Esses bem podem ir a Fátima. Foi um verdadeiro milagre. O carro desfeito e eles só com um ligeiro arranhão.

- Deus seja louvado!

- A sua filha foi pior porque ia no lugar do morto. Felizmente, levavam todos cinto.

- Diga-me, por favor, senhor agente, em que hospital é que estão?

- Em São José.

- Vou já para aí.

Abel saltou da cama num ápice, mas estava tão embrulhado no lençol que quase caiu. Recuperou o equilíbrio, acertou o passo, olhou para a fotografia da mulher que repousava na cómoda do quarto. E rezou. Não tem dúvidas, foi ela quem a salvou.