Euro 2016

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O coração também respira

Um coxo também voa

Jorge Araújo

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O bairro acordou bipolar. Tristeza e alegria na esquina do mesmo olhar. O acidente da filha do Abel mexeu com as pessoas, deixou-as meio atarantadas. Mas a preocupação nem teve tempo para criar raízes, hoje só havia espaço para esperança. É um dia especial, a final do Europeu, Portugal e França no duelo mais esperado. Nada mais importa, a derrapagem orçamental fica para mais tarde, as sanções da União Europeia também. O Brexit adiado para a semana.

Ainda assim, o bairro respira agridoce, ar difícil de explicar. A somar aos inesperados, Maria e o professor Bambara marcaram as juras de amor para hoje. Uma coisa à grande e à francesa, uma festa para o bairro mais tarde recordar. O problema é que a festa é no café do Abel e não há nada que arranque o homem do hospital, que o afaste um milímetro da cabeceira da filha.

- André?

- Sim, senhor Abel.

- Preciso que me desenrasques…

- O senhor disponha.

- Vais ter que me ajudar a organizar a festa da Maria e do professor Bambara.

- Mas isso não era para ser uma coisa em grande?

- Por isso mesmo. - Não sei se consigo.

- Como assim?

- Isso é uma grande responsabilidade.

- Consegues, consegues. Vou explicar-te tudo tim-tim por tim-tim. E a maior parte das coisas já está preparada.

André arregaçou os ouvidos, tomou notas e mais notas, lista de afazeres e de prioridades. Começou por contactar os fornecedores das bebidas e tratar do gelo – com um calor destes, a cerveja tem de estar bem gelada. A seguir, telefonou para os dois talhos do bairro – com os donos destes estabelecimentos, é preciso uma certa dose de diplomacia. A seguir, viu-se grego para convencer o Aníbal dos “Eletrodomésticos Amizade” a emprestar-lhe uma televisão de ecrã gigante. Não se podia esquecer de comprar balões e bandeiras para enfeitar a sala, tudo vermelho, verde e amarelo, as cores da nossa bandeira. Da nossa selecção.

Escolher o menu foi canja, um prato de carne e outro de peixe, mais doces e salgados ao gosto da rapaziada. O Abel recomendara que reforçasse a dose de croquetes, rissóis e pastéis de massa tenra para entreter a malta enquanto a comida não é servida. Mais difícil foi acertar o bolo de noiva. Foi ver pessoalmente vários mostruários, mas só encontrou bolos com noivos brancos e ele não queria ferir susceptibilidades, é sabido que o professor Bambara é preto.

André estava tão ocupado, tão apressado que, às tantas, se esqueceu que era coxo. Tinha asas e voava. Na verdade, estava neste estado desde sexta-feira quando, na matiné no Centro Recreativo e Cultural, encheu o peito de coragem e convidou a cabo-verdiana para dançar. Coladinhos um ao outro, da primeira à última dança, e o kizomba não é uma música qualquer, é um poderoso acelerador de emoções, o par transpira o mesmo suor, uma só intimidade, do zero aos cem numa fracção de segundo. Por isso, quando o baile acabou, ele não tinha qualquer dúvida de que Zulmira, a mulata com cara de pecado, seria para sempre sua mulher.

Mas agora tinha de estar concentrado, não podia distrair-se com este tipo de pensamento. Organizar uma festa destas não é brincadeira, ainda por cima, Maria e o professor Bambara haviam deixado claro que queriam uma coisa em grande. De repente, fez-se luz na ideia de André. Se era para ser em grande, então não podia ser no café do Abel. Como é que não tinha pensado nisso antes? André não esperava este problema de última hora, tinha de puxar pela cabeça, pensar depressa, encontrar uma solução.

Nem sequer chegou a queimar os neurónios com a equação. Afinal, não era assim tão difícil, no bairro só havia um lugar para uma festa deste calibre - o Centro Recreativo e Cultural. A sala é enorme e o jardim das traseiras dá um jeito dos diabos num dia de calor como hoje.

Difícil foi convencer o presidente. O Amâncio pensa que é dono daquilo, começou com uma série de exigências, pediu uma fortuna pelo aluguer do espaço. André passou-se, mas quem é que você pensa que é, o Centro pertence aos sócios, ao bairro, não se esqueça que há eleições em breve, se não emprestar a sala pode estar certo que vou fazer campanha contra si. O argumento foi certeiro, o presidente aspirava a um novo mandato, sempre gostou de cargos e no bairro aquele era o mais apetecível.

- Zulmira? – André atreveu-se num momento de maior aperto a telefonar para a sua mulata.

- Preciso da tua ajuda. Estou a organizar a festa da Maria e do professor Bambara…

- Estás no café do Abel?

- Não, estou aqui no centro. O café é muito pequeno para a festa.

- Vou já para aí.

- Obrigado.

Zulmira deixou os filhos trancados na rua, não tinha mais onde os deixar. A rua é a casa dos filhos dos pobres, é ali que a maioria cresce, uma roleta russa, às vezes dá certo, outras nem por isso. Mas ela nem se podia queixar dos miúdos, a falta de condições económicas não a impediu de lhes dar uma boa educação, ensinar o certo e o errado. No bairro, ninguém lhes pode apontar um único dedo.

Ainda bem que André se lembrou de Zulmira. A sua ajuda trouxe um toque feminino à organização do evento. Foi ela quem se lembrou das flores e de outras belezas, a sala num brinco. André nem queria acreditar que tinha conseguido levar avante tamanha tarefa, parecia que sempre fizera aquilo. Estava orgulhoso, ainda por cima, tinha Zulmira ao seu lado. Para o resto da vida.

- Só falta uma coisa, André.

- Um poster da selecção?

- É um erro imperdoável. Vou já tratar disso.

- E traz cachecóis para distribuir pelo pessoal.

Agora sim, a festa pronta para o apito inicial. As portas abrem às seis, tapete vermelho para os noivos e convidados, Maria e o professor Bambara a dizer sim em frente aos amigos. Mas é bom que se despachem, às oito em ponto, o bairro só terá olhos para o jogo. O país inteiro só terá olhos para o jogo. À terceira será de vez, Portugal tem de regressar a casa com a taça.