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O coração também respira

Nas mãos do preto (parte II)

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

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André foi dos primeiros a chegar. Na qualidade de organizador do evento, tinha de estar em cima de todos os pormenores. A festa da Maria e do professor Bambara era o mais importante acontecimento dos últimos tempos. Há muito que o bairro não vivia um festejo assim. André queria brilhar, fazer uma entrada triunfal. Demorou-se um bom bocado em frente ao espelho baço da casa de banho, depois passou pela casa de Zulmira, ela e os três filhos à porta, ninguém queria perder aquele momento.

André chegou à festa de peito feito e braço dado com Zulmira. Faziam um bonito par. Ao lado dela, sentia-se importante, o homem mais feliz do mundo. Foram recebidos pelos salamaleques do Amâncio. Devidamente aperaltado no seu fato de domingo, distribuía sorrisos e palmadinhas nas costas. Tanta simpatia denunciava logo que estava em campanha, as eleições para o corpo gerente do Centro Recreativo e Cultural estavam marcadas para daqui a três meses.

- Bem-vindos a esta vossa casa – seduzia no umbral da porta.

- É um imenso prazer tê-los aqui connosco – acrescentava com palavras untadas de banha-da-cobra.

Quem também fazia parte da mobília do Centro era Felisberto, o canalizador. Nunca falhava um baile nem qualquer outro festejo. Gosta da sua pinga, ainda mais quando é de borla. Quando André chegou, já ia na terceira ou quarta imperial. Mas não estava sozinho, trazia a tiracolo a conquista das festas de Lisboa, a menina de um outro bairro que lhe caíra na rede na euforia dos santos. Também ela gostava do seu copito, eram almas gémeas, parecia que tinham nascido um para o outro. É mais feia do que a parte de trás de um carro acidentado, as críticas do mulherio do bairro logo se fizeram ouvir. Estão muito bem um para o outro, ele também não é a última revelação de Cristo ressuscitado, acrescentaram.

Duarte chegou acompanhado de uma desconhecida, uma dinamarquesa que lhe alugou a casa durante uns dias, gostou tanto de Lisboa que nunca mais se foi embora. Mas ele não é muito versado em línguas, em francês ainda arranha uma ou outra frase, já com o inglês é analfabeto de pai e mãe. Por isso, aposta tudo na linguagem corporal. Beijos e carinhos são linguagem universal e a cerveja é bom dicionário. Ela compreendia-o tão bem que não parava de rir. Num país com sol e cerveja barata, os nórdicos não dão descanso ao copo.

Vitorino também não faltou. Mas apenas fazia figura de corpo presente, tinha um ar triste, acabrunhado, divorciado do mundo. A mulher continuava amarrada à cama à conta de um par de hérnias mal curado, e o filho, o filho, há meses que não aparece, nem sequer deu o ar de sua graça num jogo do Europeu. Logo ele que dá sorte, o bairro inteiro sabe que foi graças a ele que Portugal deu cabo da Coreia do Norte no Mundial. Hoje é que ele nos dava jeito, contra estes franceses, todo o apoio é pouco, pensou Vitorino, alimentando uma secreta esperança de o ver chegar.

Mas a grande surpresa do dia foi o Isaías. Ninguém o via desde que saíra do armário e espetara um beijo na cara do Duarte, durante os festejos do jogo contra a Croácia. Ainda assim, ninguém estava preparado para o grande espetáculo. Vinha trajado de mulher, um longo vestido de cetim vermelho, as alças a revelarem o corpo musculado, tatuado, lantejoulas cor de prata a abrilhantar o conjunto. Mas notava-se que estava feliz, deve ser duro ter de esconder o que se quer mostrar.

- Como é companheiro? – Duarte foi o primeiro a dar-lhe as boas-vindas.

- Cá vamos andando – Isaías retribuiu a gentileza.

- Fico feliz por ti. Já não era sem tempo.

Os dois embrulhados num longo e sentido abraço, Duarte feliz com a felicidade do amigo, o armário não é o melhor lugar para esconder sentimentos.

Na festa havia apenas uma nota em falso. O Almeida e o Silva, os donos dos dois talhos do bairro, estavam cada um no seu canto, nem em dia de festa decretavam cessar-fogo, enterravam o machado de guerra. O velho carteiro, que não tem papas na língua e que se dá bem com toda a gente, era o único que tê-los-ia chamado a atenção, obrigando um aperto de mão. Mas era o grande ausente. Ninguém comentou a sua falta porque todos pensaram que se encontrava na terra. Era sabido que desde que se reformara e enviuvara, passava cada vez mais longas temporadas na aldeia. Estavam todos enganados. O velho carteiro estava a poucos metros da festa. A apodrecer no seu velho apartamento, o corpo já sem sopro. Não conseguiu cumprir o sonho de ver o jogo da seleção, partira mais cedo para junto da mulher, era tudo o que queria desde a morte dela.

Abel foi o último a chegar. Não estava muito para festas, mas a filha obrigou-o a marcar presença. Ora essa, papá, tu não podes faltar, as pessoas vão levar a mal, foi assim que começou a dar-lhe a volta. Depois, o argumento decisivo – só tenho uma fratura, leva o seu tempo a curar mas não é nada de grave, vais ver que vai ficar tudo bem.

Se ela o dizia, é porque era verdade, a sua menina agora era doutora, sabia do que falava. Abel deu-lhe dois beijos na face, não me demoro, adeus em palavras do coração, e partiu com a dor cravada na alma. Ao chegar ao casamento da Maria e do professor Bambara, foi recebido com gritos e aplausos.

- Como está a nossa menina?– perguntaram uns.

- Como está a nossa doutora?– reforçaram outros.

O dono do café respondeu a todos com verbos de esperança, foi um grande susto mas o pior já passou, não tarda muito anda para aí outra vez a correr. A vizinha sorriu sossegos, de certa maneira, a filha do Abel era um pouco filha de todos. Emocionado, obrigado, obrigado, caminhou ao encontro de André.

- Estás de parabéns! A organização está impecável, conseguiste fazer uma grande festa.

- Obrigado, senhor Abel. Fiz tal e qual como o senhor mandou.

- Não sejas modesto, rapaz. O mérito é todo teu. Eu não teria conseguido fazer igual, já sou cabeça velha.

O elogio bateu fundo no coração de André. As lágrimas aproximaram-se do olhar, só muito a custo as conseguiu travar. Abel não disse mais nada, deixou-se estar a olhá-lo em silêncio. Conhecia-o desde miúdo, a vida tinha-lhe sido madrasta, mas sempre fora educado e trabalhador. É curioso, registou Abel, quase nunca se falavam, apenas a lista de afazeres. Hoje, havia de lhe dizer tudo, decidiu, para mais tarde não se arrepender das palavras por dizer.

- André?

- Sim, senhor Abel, diga.

- Não sei se sabes, acho que nunca to disse, mas gosto muito de ti.

- O senhor sempre me tratou bem.

- Gosto de ti como de um filho, rapaz.

- Obrigado, senhor Abel. Nem imagina como fico feliz, eu também gosto muito de si.

- E tenho um grande orgulho em ti. Nunca viras a cara à luta, nunca desistes dos teus sonhos.

- Fazer o quê...

- Estou a ver que finalmente a vida começa a correr-te bem – disse, com os olhos na cabo-verdiana colada à sua beira.

- Estou muito feliz por ter conhecido a Zulmira.

- Ela também é muito educada e trabalhadora. Fazem um lindo par.

- Ainda bem que acha isso.

- Mas, André, gostaria de falar contigo sobre outra coisa.

- Que coisa, senhor Abel?

- Sabes, estou velho, cansado... A minha filha, graças a Deus, já é doutora... Acho que chegou a hora de parar.

- Como assim, senhor Abel?

- Acho que chegou a hora de me reformar.

- Mas o senhor está cheio de energia! Parece mais novo do que eu – André tentou brincar com a conversa.

- Preciso mesmo de descansar. Também tenho direito ou não? Gostava de passar, de vez em quando, umas temporadas lá na terra. Um homem vem para Lisboa gaiato, mas não há meio de perder as raízes.

- Se assim é... se é para o seu bem...

- Mas antes preciso de resolver algumas coisas e é por isso que quero falar contigo.

- No que eu puder ajudar, conte comigo.

- Quero que fiques a tomar conta do café.

O pedido disparado de rajada. Quero que fiques a tomar conta do café. André não estava à espera de tamanha ofensiva. Ficou mudo, quieto. A ideia nunca lhe passara pela cabeça, não sabia o que responder. Mas não podia continuar calado, até porque Abel já tinha tomado a decisão por ele.

- Mas não sei se estou à altura, senhor Abel.

- Estás, estás. E se dúvidas houvesse, a organização desta festa acabava com elas.

Abel deu um passo em frente. Um grande abraço a André. O abraço que nunca lhe dera durante todos estes anos, sempre o considerara um filho, mas nunca, até hoje, tinha tido coragem de o dizer.

Foi então que chegaram os noivos. André fez um estalido com os dedos, o DJ colocou a marcha nupcial a tocar. Maria estava linda, celestial, trazia um vestido branco, véu e flor de laranjeira. O professor Bambara era o retrato da tradição, vestia um colorido traje africano.

- Boa tarde a todos – começou por dizer, a voz poderosa de um locutor da rádio.

- Eu e a Maria queríamos oficializar a nossa relação em frente a todos os nossos amigos e vizinhos. Afinal, o bairro é a nossa família. Neste momento tão importante das nossas vidas, ficamos muito felizes por estarem aqui, ao nosso lado.

Ouviram-se as primeiras palmas, gritos de felicidade. O Felisberto era o mais eufórico, levava uma dúzia de cervejas de avanço, o álcool falava alto.

- Viva os noivos! – gritou com os decibéis que a bebida permitia.

- Viva os noivos! – o bairro entoou a uma só voz.

- Queríamos agradecer a todos pela vossa presença – o professor Bambara continuou o seu discurso – e espero que se divirtam. E que Portugal ganhe o jogo!

O Centro Recreativo e Cultural quase vinha abaixo, as equipas na reta final do aquecimento, mais uma ou duas cervejas e o duelo podia começar. Um jogo sem história para ficar na história. Os franceses traziam a lição bem estudada, depressa enviaram Cristiano Ronaldo para o estaleiro. Ele ainda tentou, uma e outra vez, o joelho vacilou, o cigano teve mesmo de entrar antes de tempo. Depois foi sofrer. Até que, aos setenta e oito minutos, Éder entra nas quatro linhas. O professor Bambara, até ali sempre calado, voltou a repetir a profecia que fizera há mais de um mês. O Éder ainda nos vai dar muitas alegrias, dizia e voltava a dizer, certo que havia lido nos búzios. O bruxo da Guiné devia saber o que dizia, por alguma razão é professor. Desta vez, ninguém questionou a sua certeza, ainda por cima, era o anfitrião da festa, era ele quem estava a pagar as bebidas e os croquetes. O bairro, o país inteiro nas mãos do preto.

Foi já no prolongamento que Éder marcou. Gooooloooooo! A alegria foi imensa, tão imensa que o bairro não resistiu. O professor Bambara embrulhado num manto de abraços, levado aos ombros, parecia que era ele quem tinha ganho a taça. A profecia cumpria-se. O bairro nunca mais esquecerá que foi ele quem, no café do Abel, quando mais ninguém acreditava, disse que o Éder ainda nos havia de dar muitas alegrias. Portugal é campeão da Europa. Viva Portugal! Viva o professor Bambara!