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Football Leaks

Jorge Mendes, mais do que um superagente

No dia em que começa a ser ouvido em tribunal, perguntamos: quem é Jorge Mendes, o homem forte da Gestifute, a agência que tem feito os negócios mais lucrativos da história do futebol? O perfil do superagente que tem na sua carteira de clientes muitos dos futebolistas visados nesta investigação que analisou 19 milhões de documentos da plataforma Football Leaks que a revista "Der Spiegel" partilhou com os membros do consórcio EIC, ao qual o Expresso se associou

Pedro Candeias e Miguel Prado

O português Jorge Mendes é dono da Gestifute, que representa muitos dos astros do futebol envolvidos no escândalo de fuga ao fisco em Espanha

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Alex Ferguson estava lá. Roman Abramovich e Florentino Pérez, tal como James Rodríguez, Bosingwa, Rui Patrício, Paulo Ferreira, Paulo Futre, José Peseiro, Fernando Santos, Costinha, Capucho, Jorge Jesus, Pepe e Paulo Bento. Jogadores, ex-jogadores transformados em treinadores (ou estrelas de televisão), o antigo selecionador nacional e o atual selecionador nacional, políticos, presidentes de clubes rivais. Etcetera. Etcetera.

Obviamente, Cristiano Ronaldo não iria perder este dia, e isto é verdade também para o resto da sua família: o filho, a mãe, o namorado da mãe, as suas irmãs, o irmão, o ex-cunhado, e o seu melhor amigo. Estavam lá todos, com os seus melhores fatos, smokings, vestidos, sapatos e saltos altos. Mourinho não estava lá porque era dia de jogo.

Mas não nos esqueçamos de Nadir Al-Khayat, a.k.a., Red One, um sueco de ascendência marroquina que é produtor de música de Lady Gaga, Britney Spears, Nicki Minaj e J-Lo. Ele é importante nesta história porque foi ele que quebrou o protocolo ao publicar fotografias no Instagram: eu com Ronaldo, eu com o Florentino, eu com o James; e as rosas brancas dentro de uma caixa branca com as iniciais S & J incrustadas.

S., de Sandra. J., de Jorge.

Era o dia deles e aconteceu num fim de tarde soalheiro, a 2 de agosto de 2015, na Igreja de São João Batista, na elitista Foz, perto do Porto. Jorge Mendes ia finalmente - e, aos olhos da Igreja, oficialmente - dar o nó com a sua namorada de há muito, com a qual já se casara no registo há 10 anos.

Desta vez era diferente. E eles iam fazer a coisa em estilo.

Estilo agente de futebol. Ou melhor, ao estilo do maior agente de futebol do planeta.

Jorge Mendes parecia feliz e parecia relaxado, e também parecia não ter ao lado os seus melhores amigos pela primeira vez em muitas ocasiões. Eles estão sempre por perto e Mendes fala e ouve-os constantemente; seja como e onde for, ele arranja tempo para estar com eles: os seus smartphones e os seus auriculares.

Mendes é um tipo ocupado e basta estar ao pé dele uns minutos para ouvi-lo ir do português para o inglês, do inglês para o espanhol e do espanhol para o francês num instante. Ele é quase biónico, parte humano, parte telemóvel. Mas só assim é que pode ser e ele adora ser assim, porque foi assim que ele chegou onde está.

Tal como em quase todos os contos de fadas de futebol, este começou com uma bola.

Jorge Mendes tinha o sonho de se tornar jogador de futebol e jogou quando era miúdo. Em clubes pequenos. Passava a vida na Fonte da Telha, na Costa da Caparica, e tinha uma alcunha, "Cabanas", que herdara do pai porque, bom, era o que ele fazia na praia quando não estava a jogar futebol: vendia chapéus e cestos feitos pela mãe, empacotava gelados numa fábrica. Era já um empreendedor antes da palavra empreendedor existir.

Aos 20 anos, foi viver para Viana do Castelo para estar junto do irmão, que lhe emprestou mil contos para abrir um clube de vídeo. Mendes era fanático por cinema, via um filme por dia, e adorava Sean Penn, Denzel Washington e Robert de Niro. Continuou a jogar futebol, no Vianense, e abriu uma discoteca em Caminha, chamada Luz do Mar, onde conheceu jogadores do FC Porto, Braga e Guimarães. Foi aqui que se cruzou com Nuno Espírito Santo, em 1995.

JOSE JORDAN

Em nome do Espírito Santo

Na altura, Espírito Santo, que hoje treina o FC Porto, era guarda-redes do Vitória de Guimarães, um clube de porte médio mas com adeptos destemidos e fervorosos - num país onde quase toda a gente é do Benfica, do Sporting ou do FC Porto, em Guimarães, a cidade onde Portugal nasceu, todos são do Vitória.

Mendes e Nuno tornaram-se amigos e o empresário conseguiu o seu primeiro negócio como agente de futebol quando convenceu Lendoiro, o presidente do Deportivo La Coruña, a comprar Espírito Santo. O guardião estava a ser seduzido pelo FC Porto, com o qual tinha uma espécie de acordo de cavalheiros que amargou quando Nuno desapareceu em combate e ressurgiu na Corunha.

Isto aconteceu graças aos poderes de argumentação e charme de Jorge Mendes - e, sobretudo, à sua persistência. Estes traços ajudá-lo-iam a seduzir quem ele quisesse no futuro. Com Espírito Santo, Jorge Mendes começou a construir o seu nome num território que era de José Veiga, um dos mais influentes agentes em Portugal e na Europa - Veiga foi o tipo que, por exemplo, negociou Figo do Barcelona para o Real Madrid. Mais tarde, Veiga e Mendes embrulharam-se no meio de um aeroporto após uma discussão sobre quem-tinha-feito-o-quê.

Os próximos passos de Mendes, agora dono de uma empresa, a Gestifute, incluíram a transferência de Jorge Andrade do FC Porto para o Deportivo e de Hugo Viana do Sporting para o Newcastle, em 2002. A sua grande oportunidade viria pouco depois, quando conheceu Cristiano Ronaldo - e a senhora Dolores.

Mendes conseguiu contornar Veiga quando convenceu a mãe de Cristiano Ronaldo. Era evidente que Ronaldo tinha aquele extra que separa os bons jogadores dos jogadores geniais - o agente falou com a senhora Dolores e disse-lhe que iria sempre olhar pelos melhores interesses do filho. O truque dele era a abordagem familiar e resultou: Ronaldo despachou Veiga e assinou com Mendes e Mendes pô-lo no Manchester United - e o resto é história. A história de Ronaldo.

A história de Mendes, todavia, seguiu por muitos caminhos. O interessante, em Mendes, é a capacidade única que ele tem de se dar com toda a gente: se há um negócio a fazer, faz-se e todas as partes ficam satisfeitas. É um fazedor de felicidade. Ah, e não acredita em exclusivos: ele trabalha com o Manchester United e com o Chelsea, com o Barcelona e o Real Madrid e o Atlético de Madrid, com o FC Porto e com o Benfica e o Braga e (costumava trabalhar) com o Sporting.

Datemos os maiores negócios durante estes anos em euros:

  • 2003: Cristiano Ronaldo para o Manchester United (14 milhões); Ricardo Quaresma para o Barcelona (5,2 milhões)
  • 2004: Mourinho para o Chelsea; Ricardo Carvalho (30 milhões), Paulo Ferreira (15,8 milhões), Tiago (10,3 milhões) para o Chelsea
  • 2007: Nani (25,5 milhões) e Anderson (31 milhões) para o Manchester United; Pepe para o Real Madrid (28 milhões), Simão para Atlético (19 milhões)
  • 2009: Ronaldo para o Real Madrid (94 milhões)
  • 2010: Mourinho, Angel Di María (24,6 milhões), Ricardo Carvalho (8 milhões) para o Real Madrid
  • 2011: Coentrão para o Real Madrid (30 milhões), Falcao para o Atlético de Madrid (40 milhões), Agüero para o Manchester City (44 milhão)
  • 2013: James para o Mónaco (45 milhões), Falcao para o Mónaco (55 milhões), Moutinho para o Mónaco (25 milhões)
  • 2014: DI María para o Manchester United (75 milhões), Diego Costa para o Chelsea (37 milhões), Mangala para o Manchester City (40 milhões)
  • 2015: Di María para o PSG (63 millhões)
  • 2016: Renato para o Bayern de Munique (35 milhões) e André Gomes para o Barcelona (35 milhões

O 'diretor desportivo'

Durante este período, clubes como o Real Madrid, Atlético de Madrid, Monaco ou Besiktas apaixonaram-se e viram nele algo mais do que um mero agente, mas quase um diretor desportivo: às tantas, o Besiktas chegou a ter seis jogadores representados por ele, a saber, Quaresma, Simão, Hugo Almeida, Júlio Alves, Sidnei e Bebe. Sim, Bebé.

Recentemente, Mendes aliou-se a Peter Lim, o dono do Valencia que tem muitos jogadores representados pelo agente português (Rodrigo, Garay, Enzo Pérez ou Mangala). Lim também detém os direitos de imagem de Cristiano Ronaldo, o que torna tudo muito mais confuso.

Imagine: o dono de um clube a receber o seu quinhão das receitas do melhor jogador de um clube rival.

É difícil definir uma linha coerente.

Jorge Mendes é, hoje, um guru do marketing desportivo e isso levantou algumas das questões que esta investigação analisa: foi ele quem idealizou as offshores dos seus futebolistas, terá ele representado mais do que uma parte nos negócios das transferências?

É sabido que Ana Almeida, a antiga agente de Nani, apresentou queixa contra Mendes, dizendo que este lhe tinha roubado o cliente. Também se sabe que Jorge Baidek, o antigo agente de Mourinho, chegou a dizer o mesmo sobre Mendes. E há várias notícias escritas a partir de Espanha que dizem que a sua influência poderá ter dividido o balneário do Real Madrid.

Não nos podemos esquecer que este é o homem que foi escolhido pelos seus pares como o melhor agente do ano em seis ocasiões consecutivas (2010 a 2015). E que este é o homem que o governo português agraciou com o "Colar de Honra ao Mérito Desportivo" pela sua "competência, dedicação, ética de trabalho e espírito empreendedor."

GERARD JULIEN

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