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Özil: seis passos que explicam €3 milhões de multa por driblar o Fisco

O internacional alemão regularizou a sua situação fiscal depois de ter estado durante três anos sem declarar impostos

Pedro Candeias

BEN STANSALL

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Tudo começa com um tweet.

Estávamos em 23 de julho de 2014, a Alemanha tinha conquistado o Mundial há coisa de semana e meia, Mesut Özil gozava as suas férias com o estatuto de campeão do Mundo em Las Vegas.

O que acontece em Vegas, nem sempre fica em Vegas. E o que estava a acontecer em Madrid, também não ficaria em Madrid, Nesse mesmo dia 23 de julho de 2014, em que Özil aproveitava o sol no Nevada, o Fisco espanhol começou a questionar a Senn Ferrero, a sociedade de advogados especialista em assuntos fiscais, sobre os seus rendimentos.

A Agencia Tributária de Madrid estava particularmente interessada nos ganhos do jogador do Arsenal quando este esteve em Madrid, de 2011 a 2013, sobretudo nos últimos dois anos, quando jogava no Real Madrid. E teve de pagar.

Isto é o que se retira da investigação aos documentos do portal Football Leaks obtidos pela “Der Sipegel” que posteriormente os partilhou com o consórcio EIC, com o qual o Expresso colabrou.

Özil foi obrigado a pagar quase três milhões de euros em março de 2016 por não ter tributado os pagamentos que o clube (Real Madrid) fez aos seus agentes, mas safou-se de outra sanção por ocultar, durante anos, os seus rendimentos dos direitos de imagem. Como em tantas outras histórias, esta também é uma história de família: a gestão deficiente do seu pai, Mustafá, com quem se chateou, à frente da empresa Özil Marketing GmbH deixou Mesut sem as receitas publicitárias entre 2011 e 2013 - mas, por mais estranho que possa parecer.

Resumido, em seis passos.

Passo 1. o Fisco espanhol pediu as declarações de rendimentos de 2011 a 2014 e descobriu que Özil só apresentado uma, em 2011. Logo aí, a Agência Tributária percebeu que o médio teria ocultado alguma coisa. Havia irregularidades.

Passo 2. Essas irregularidades estavam relacionadas com os pagamentos do Real Madrid e do Arsenal aos seus agentes, Reza Fazeli e Ekrut Sogut. Fazeli recebeu 600 mil euros por ano, em Madrid; no verão de 2013, o Arsenal deu €1,47 milhões a Sogut, como prémio de assinatura. Segundo o Fisco, esses montantes faziam parte do salário do jogador e, por isso, devia pagar por eles.

Passo 3. Enquanto o processo andava, faltava ainda olhar para a contabilidade da Özil Marketing, a empresa que detinha os direitos publiciários do futebolista. Onde estavam os dinheiros da Nike (300 mil euros), por exemplo? O Fisco perguntou a Özil por eles e descobriu que havia um problema familiar.

Passo 5. O pai de Mesut, Mustafá, um tipo excêntrico, que gosta de passear-se de Ferrari e reunir-se em hotéis luxuosos, tinha gerido mal o negócio dos dinheiros do filho. Por gastar tanto e tão mal, Mesut despediu o pai e depositou a confiança no irmão, Mutu, o que levou Mustafá a interpôr um processo contra o filho futebolista. As partes chegaram a acordo: Mesut pagou uma indemnização de 8,1 milhões euros a pai e devolveu-lhe o Ferrari.

Ora bem, isso deixou as finanças relativas aos direitos de imagem de Özil a zero e esse acabou por ser o melhor dos argumentos do médio diante do Fisco espanhol. Se não tinha nada, nada teria a pagar sobre isto.

Passo 6. Assim, em fevereiro de 2016, a Hacienda confirmou que Özil devia pagar mais de dois milhões de euros pelos impostos atrasados, incluíndo os juros de mora pelos pagamentos do Real e do Arsenal aos seus agentes. A 7 de março, segundo consta nos documentos do Football Leaks que a “Der Spiegel” partilhou com o consórcio, Özil foi noficado, também, da sanção: 800 mil euros. Contas feitas, foram quase três milhões de euros.

Questionado pelo EIC, o advogado de Mesut, de Mutlu, de Sogut e da empresa Özil Marketing respondeu que era um assunto pessoal e destacou a ausência de delito fiscal.