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Como o grande Michael Laudrup pôs o seu empresário a ganhar milhões no Swansea

Enquanto treinador do Swansea City, entre 2012 e 2014, o antigo internacional dinamarquês é suspeito de apenas ter contratado jogadores com os quais o seu empresário lucraria com verbas de representação. O clube galês chegou a suspeitar que Laudrup pudesse estar a receber dinheiro nesses negócios. Esta é outra das histórias da maior fuga de informação da história do desporto, que deriva da análise de 19 milhões de documentos da plataforma Football Leaks aos quais a "Der Spiegel" teve acesso e partilhou com o consórcio EIC, ao qual o Expresso se associou

Diogo Pombo, Pedro Candeias e Miguel Prado

Mike Hewitt

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Com chuteiras calçadas e a relacionar-se com os outros e com uma bola, Michael Laudrup era um génio. Entre fintas, passes sem olhar e as coisas que ele fazia parecer fáceis, o dinamarquês tinha uma qualidade - era ambidestro. Os dois pés eram tão amigos um do outro que, em campo, difícil era adivinhar para que lado iria ele. Era um dos enigmas do futebol.

Quando ele se deixou disso e passou a treinar, a carreira levou-o até ao País de Gales. O antigo craque dinamarquês treinou o Swansea City durante quase dois anos, até o clube o despedir a meio da segunda época, por já não saber de que lado estava ele. “Neste momento, o clube suspeitava que se BT não estava envolvido na transferência de um jogador em particular, ML não o queria na equipa”, era uma das frases escrita na carta que, a 13 de fevereiro de 2014, o Swansea enviou à Associação de Treinadores Ingleses, para explicar a decisão.

Se, ao lermos ML, é fácil chegarmos a Michael Laudrup, as siglas BT referem-se a Bayram Tutumlu. Um hispano-turco que é empresário do dinamarquês há 20 anos e que, no Twitter, já publicou coisas como selfies com Josep Bartomeu, presidente do Barcelona, ou pêsames dirigidos a Diego Maradona, quando o pai do argentino faleceu.

Mas é também alguém que surge nos documentos da Football Leaks, obtidos pelo “Der Spiegel” e partilhados com o consórcio EIC, do qual o Expresso faz parte.

Neles constam cópias de contratos e outros documentos que apontam para o mesmo lado que a tal carta redigida pelo Swansea - o empresário terá sido parte interessada em, pelo menos, sete negócios com jogadores do clube galês. Bayram Tutumlu não tinha ligação aos futebolistas em questão, mas firmava antes acordos com os agentes que os representavam.

Um acordo, datado de 30 de janeiro de 2013 e firmado entre Tutumlu e o agente de José Cañas, um médio espanhol, mostra que o empresário teria direito a receber €1.466 milhões numa futura transferência do jogador. Quando chegou ao Swansea, o acordo enviado à Football Association (federação inglesa de futebol) não especificava qualquer verba a pagar a Tutumlu.

A 4 de setembro de 2013, o mesmo empresário firma “um acordo de colaboração” com o agente de Ben Davies, que o intitulou a receber 67% de quaisquer ganhos futuros do jogador. Em dezembro, o defesa esquerdo assinou um novo contrato com o Swansea. Este episódio aconteceu já depois de Huw Jenkins, presidente do clube, anunciar o corte de relações com o empresário, devido às suas alegadas tentativas de influenciar a política de transferências do clube.

Em relação a outros dos sete jogadores envolvidos com este empresário, Tutumlu chegou a receber quase dois terços das verbas que os contratos reservavam à representação dos jogadores.

Ao todo, o Politiken, jornal dinamarquês que também integra o consórcio EIC, estima que Bayram Tutumlu recebeu, ou tinha direito a receber, €4.3 milhões em negócios relativos a sete futebolistas do Swansea - enquanto Michael Laudrup foi treinador do clube. Uma verba que é quatro vezes superior ao montante que o empresário recebeu do Swansea, por ser representante do dinamarquês.

O Politiken enviou várias questões tanto a Michael Laudrup como a Bayram Tutumlu. O dinamarquês respondeu com duas frases: “Quero tornar absolutamente claro que NUNCA recebi um cêntimo pela transferência de um jogador. Isto vale para o Brondby, o Getafe, o Spartak de Moscovo, o Maiorca, o Swansea, o Lekhwiya e o Al Rayyan [clubes que já representou]. NUNCA!”. O hispano-turco só com uma: “Não paguei qualquer dinheiro a Michael Laudrup por alguma razão que seja”.

A investigação aos documentos do Football Leaks não descobriu pagamentos diretos de, ou entre, Laudrup e Tutumlu. Nos contratos firmados entre o treinador e o Swansea, porém, o clube compromete-se a pagar ao empresário 10% do salário do dinamarquês, apesar de, no Contrato de Representação assinado entre ambos, se ler: “Apenas o cliente [Laudrup] pode remunerar o Agente do Treinador pelo trabalho prestado”.

Continua a ser difícil prever por que lado Michael Laudrup preferia seguir.

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