Tribuna Expresso

Perfil

Football Leaks

Os ténis vermelhos, a destilaria, a cuspidela e a derrota paga – as cláusulas estranhas nos contratos dos Football Leaks

Rafael van der Vaart, Agger, Balotelli e outros jogadores assinaram contratos que incluíam cláusulas caricatas. O Expresso mostra-lhe em exclusivo algumas das cláusulas mais caricatas que constam na plataforma Football Leaks a que o nosso jornal teve acesso em parceria com o consórcio EIC, liderado pela revista alemã “Der Spiegel”

Pedro Candeias

Comentários

Clive Brunskill

Partilhar

Kayode e os ténis no gabinete médico

O Viena de Áustria tem tudo contadinho e quer tudo controlado e é isso que o avançado Larry Kayode descobre quando assina contrato. Começa assim: “Cada jogador tem direito a estar fora de casa, sem limitações, na noite após o jogo e na noite imediatamente a seguir” Ok. Pacífico. Mas Kayode percebe, também, que “tem de descalçar as chuteiras” logo que entrar no balneário e que “não pode encomendar comida para o quarto” quando estiver em estágio.

Além disso, o Viena de Áustria proíbe os telemóveis nos balneários, durante as refeições e tratamentos médicos. E essa coisa do modo silencioso não funciona. Mais: em viagem para um jogo, também não são permitidos telemóveis.

E, depois, as multas: 100 euros por usar o telemóvel, cartão amarelo ou gestos indelicados; 500 euros por chegar atrasado ao treino. E se usar sapatos dentro do gabinete médico, 100 euros.

A destilaria de Agger

É sempre bom quando um filho pródigo regressa a casa e os fãs do Brondby ficaram extasiados com Daniel Agger, capitão da seleção da Dinamarca, voltou ao lugar onde tudo começou, no verão de 2014. O clube disse o seguinte: “Isto é um acordo histórico. É o melhor jogador alguma vez recrutado para a Superliga dinamarquesa”. O resgate custou €3 millhões, que foram parar ao Liverpool, e um pedaço de espaço para publicidade.

Contextualizando: quando Daniel Agger jogava no Liverpool, abriu uma destilaria na sua cidade natal, Hvidore, com o seu irmão e um amigo. Chama-se “Kloagger”. Ora, quando assinou pelo Brondby, por 60 mil euros por mês, mais bónus, o clube deu-lhe ainda a possibilidade de pôr a marca da sua destilaria na publicidade estática junto ao relvado. Estática, como quem diz: ecrãs LED com o nome e o logo da Kloagger ao longo de 215 metros, durante 27 segundos.

Balotelli: Não cuspas em ninguém e ganharás um milhão

A reputação precede-nos e nem sempre isso é mau, mesmo quando esta é má. Vejamos o caso de Balotelli: quando assinou pelo Liverpool, em agosto de 2014, o jogador italiano acordou um salário de 100 mil euros por semana, um bónus de 178 mil euros por cada vez que fôr cinco jogos titular, 5 mil euros por golo (três assistências equivalem a um golo), e 594 mil euros caso se sagrar o melhor marcador da Premier League.

Mas sendo Balotelli, Balotelli, o Liverpool quis garantir que ele andava na linha e acrescentou-lhe cláusulas, no mínimo, interessantes: se ele se comportar bem, de acordo com o que se espera de um jogador do LIverpool, 1,2 milhões de euros no final da época; se não for expulso por mais do que três vezes por conduta violenta, cuspir num adversário ou em qualquer outra pessoa, se não usar linguagem abusiva e insultuosa”, 1,2 milhões de euros no final da época.

Em 16 jogos pelo Liverpool, Balotelli marcou um golo

Courtois: se jogares contra o Chelsea, paga ao Chelsea

Courtois é hoje titular absoluto do Chelsea mas em 2011, ainda novo, ele foi contratado pelos londrinos e emprestado, depois, ao Atlético de Madrid. No contrato de cedência temporária aos colchoneros, os ingleses puseram uma cláusula curiosa: “O jogador não disputará nenhum jogo competitivo contra o Chelsea durante o período de empréstimo sem a permissão do Chelsea. Mas aqui se dá a permissão para que o jogador dispute a Supertaça UEFA contra o Chelsea a 13 de agosto de 2011”

Um ano depois, as partes acordam que se o Atlético de Madrid defrontar o Chelsea em competições UEFA, Courtois só poderá jogar contra os ingleses caso o clube espanhol pague o seguinte: por cada jogo na fase de grupos, 500 mil euros; quartos-de-final, dois milhões de euros; meias-finais, três milhões de euros; final, quatro milhões de euros.

Só que o Atlético de Madrid e o Chelsea acabaram por se encontrar nas meias-finais da Liga dos Campeões, em abril de 2014, e Enrique Cerezo, presidente dos colchoneros, revelou a cláusula, que considerou “nula” no âmbito das leis do trabalho. E Courtois jogou.

Lloris: se perdes, ganhas na mesma

Vamos diretos ao assunto: “O jogador receberá 8,3 mil euros quando for titular pelo Tottenham Hotspurs nos jogos em que a equipa ganhe. Se o Tottenham empatar ou perder e o jogador for titular, receberá quatro mil euros”

Nastasic tem de provar clinicamente que não pode calçar Adidas e Rafael van der Vaart não pode calçar vermelho

O sérvio Matija Nastasic tem usar equipamento Adidas ou então Adidas. “Se o jogador provar ao Schalke 04 que não consegue usar chuteiras Adidas por razões médicas, então pode usar outras de outra marca”.

O caso de Rafael van der Vaart é diferente: o holandês, contratado pelo Bétis em 2015, pode escolher a marca que quiser, desde que a chuteira que calçar não tiver a cor vermelha, a cor do rival, o Sevilha. Mas há também uma causa numa cláusula: “Um por cento de uma futura transferência será cedida voluntariamente para a Fundação Real Betis Balompié e à Associação Antigos Jogadores do Bétis”.