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As offshores no futebol começaram com Bergkamp dentro de uma queijaria

Os direitos de imagem e as offshores têm sido noticiadas pelo Expresso nos últimos dias. Importa fazer um contexto histórico

Pedro Candeias

Dean Mouhtaropoulos

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Se tivéssemos que traçar uma linha que separasse o antes e o depois desta história, Dennis Bergkamp estaria provavelmente a meio desta, trabalhando como um empregado numa queijaria, com um boné branco e uma bata branca. “O meu pai deu-me a escolher: um par de chuteiras Reebok ou um comboio de brincar”, diz Bergkamp. “Nunca me arrependi de me ter ficado pelo comboio”.

Este anúncio de tv, um twist da Reebok sobre aqueles momentos que definem uma vida, foi para o ar em 1998, antes do Mundial de França em que Bergkamp marcou um dos golos mais bonitos da história do futebol: ele aninhou uma bola longa de Frank de Boer com o seu pé direito, enganou Ayala com um túnel, chutou para a vitória e para a imortalidade frente à Argentina.

Um momento que define a vida. E a carreira.

Este foi, provavelmente, o melhor momento de Bergkamp pela seleção holandesa e aqueles três passos, curtos e coordenados, passaram no mundo inteiro. Não nos interprete mal: Bergkamp já era um jogador conhecido, mas marcar aquele golo, contra aquela equipa, naquela competição, tornou-o uma estrela global. Obviamente, o agente dele percebeu isso desde o início - e tinha razão desde o início.

Quando Bergkamp assinou pelo Arsenal, em 1995, ele e o seu agente conversaram com o clube sobre uma ideia que ambos tinham tido: os futebolistas são estrelas, as estrelas brilha, o que brilha é ouro. E alguém tem de pagar isso. E o Arsenal pagou, oferecendo-lhe um contrato partido, parte salário, parte direitos de imagem, porque Bergkamp seria valorizado pela sua técnica mas também pela sua aparência e empatia - uma combinação que vende.

Estes foi o tempo em que os jogadores começaram a ter os seus próprios patrocínios, tal como os clubes antes deles, e a enriquecerem com isto. Em 2000, as autoridades britânicas investigaram Bergkamp (e também David Platt), que puseram os seus direitos de imagem em empresas offshore, poupando dinheiro para possíveis apertos quando se retirassem. Bergkamp e a sua entourage tiveram de provar que esses tais direitos de imagem eram realmente direitos de imagem e não apenas uma parte do salário a ser negociado de uma forma pouco clara, que permitisse ao jogador pagar impostos sobre eles. E conseguiram.

Dois anos depois, David Beckham disse, publicamente, o que estava a emperrar a sua renovação de contrato com o Manchester United: “O problema não é o salário, é preciso apenas afinar a questão dos direitos de imagem”. Ele assinou o acordo, ajudado pelo CFO do United na altura, Peter Kenyon, e acabou por tornar-se o ícone para os jogadores-maiores-do-que-próprio-jogo.

Hoje, esse homem é Cristiano Ronaldo.