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“Uma máfia argentina”: Di María e Pastore implicados no escândalo de evasão fiscal

Os dois futebolistas do Paris Saint-Germain partilham “uma paixão comum por paraísos fiscais”, refere o Mediapart, um dos 12 parceiros da investigação Football Leaks na qual o Expresso está envolvido

Joana Azevedo Viana

Ángel Di María (dta) juntou-se a Javier Pastore no Paris Saint-Germain em 2015

NICHOLAS KAMM

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Continuam a chover revelações no âmbito da investigação Football Leaks, levada a cabo pelo consórcio de jornalismo European Investigative Collaborations (EIC), de que o Expresso é parceiro — uma investigação em marcha há mais de sete meses, com base em 1900 gigabytes de documentos fornecidos à revista alemã "Der Spiegel" pela plataforma online que dá o nome ao caso.

Na quinta-feira, o grupo francês Mediapart, outros dos parceiros do EIC, revelou que dos documentos constam informações sobre a alegada fuga aos impostos pelos internacionais argentinos Ángel di María e Javier Pastore, ambos atualmente a jogar no Paris Saint-Germain.

No artigo ontem publicado, sob o título "Di María, Pastore e a máfia do futebol argentino", é avançado que as duas estrelas do PSG partilham "uma paixão comum por paraísos fiscais", com o primeiro a desviar os rendimentos dos seus direitos de imagem através da empresa Sunpex, com sede no Panamá, e o segundo a ocultar pelo menos 1,9 milhões de euros pagos pela Nike numa empresa offshore com sede no Uruguai.

Mas há mais: "As suas transferências, como a de muitos jogadores (Gonzalo Higuaín, Falcao, etc) deram igualmente lugar ao pagamento de comissões ocultadas por agentes argentinos", refere o Mediapart, falando numa "máfia argentina" responsável por um "circuito de lavagem de dinheiro em paraísos fiscais" cujo "coração" está em Amesterdão, na Holanda.

No caso de Di María, a Mediapart cita como exemplo um contrato de patrocínio no valor de 150 mil euros com a empresa TSA, sediada no Panamá, a quem o jogador terá exigido que o dinheiro fosse depositado numa conta da empresa Sunpex, também registada no Panamá, sem referências ao seu nome. Entre os documentos obtidos pelo EIC conta-se um email enviado à TSA pelo fundo de investimentos Doyen Sport, que gere a carreira dos dois argentinos, onde se lê: "Di María não quer que o seu nome apareça [na documentação] por motivos fiscais."

Quando Di María foi vendido pelo Real Madrid ao Manchester United, em 2014, o clube inglês depositou dois milhões de euros na conta da empresa Kunse, registada na Holanda, que transferiu 1,85 milhões para a Paros Limited, nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal no Caribe. O mesmo aconteceu um ano depois, na transferência do jogador do United para o PSG. "A diferença é que, desta vez, a Gestifute [empresa do português Jorge Mendes, que gere as carreiras de astros do futebol como Cristiano Ronaldo e José Mourinho e que é um dos grandes alvos da Football Leaks] pagou 50% da comissão que recebeu do PSG à Kunse", refere o Mediapart.

Em resposta a contactos do consórcio, o PSG confirmou que "o clube remunerou, em vez do jogador, a empresa Gestifute, representada por Jorge Mendes, mas [que] não tem conhecimento da divisão dessa remuneração entre a Gestifute e outros agentes envolvidos na transferência".

Pastore, por sua vez, concedeu a gestão dos seus direitos de imagem à empresa holandesa Orel em 2010, um ano antes de ser contratado pelo clube parisiense. Foi a Orel que transferiu 94% do dinheiro obtido em patrocínios pelo internacional argentino à Klizery SA, empresa registada no Uruguai, que também oferece condições fiscais vantajosas (leia-se, a possibilidade de ocultar rendimentos tributáveis). Entre 2013 e 2015, quase dois milhões de euros foram enviados para a Klizery, referentes a um contrato de cinco anos que Pastore assinou com a Nike em 2010.

Na quarta-feira, a Justiça espanhola acusou Di María de fraude fiscal no país. O argentino é um dos vários ex-jogadores do Real Madrid na mira das autoridades tributárias do país por alegada fuga aos impostos. Neste momento, o Ministério Público de Madrid já acusou também o português Ricardo Carvalho e o espanhol Xabi Alonso e já abriu inquéritos formais a outros dois jogadores, o colombiano Falcao e o português Fábio Coentrão, com base nas informações que têm sido avançadas pelos parceiros da Football Leaks.

Cristiano Ronaldo, avançaram ontem fontes do Ministério das Finanças espanhol, está sob investigação há um ano e meio por suspeitas de evasão fiscal relativas a cerca de 150 milhões de euros obtidos em direitos de imagem e contratos de patrocínio desde que foi jogar para o Real Madrid, com parte do dinheiro a ser desviado para as Ilhas Virgens britânicas. As fontes dizem que a investigação ao bola de ouro português segue "em silêncio e ao seu ritmo" e que está já numa fase "avançada". Ronaldo reagiu às acusações na quarta-feira, dizendo apenas que "quem não deve não teme".