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Não há rasto das Ilhas Virgens britânicas na declaração de património de Ronaldo

“El Mundo” teve acesso à declaração de bens que o internacional português detém fora de Espanha. No documento estão citados 218 bens no exterior e participações na Adidas, Coca Cola, Carlsberg e McDonald's, mas não há referência à Tollin nem às duas outras empresas com sede nas Ilhas Virgens britânicas para onde terá desviado pelo menos 74,8 milhões de euros em direitos de imagem

Joana Azevedo Viana

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PIERRE-PHILIPPE MARCOU/Getty

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Cristiano Ronaldo assume que tem 22 contas e depósitos em bancos suíços, participações em 19 sociedades de investimento no Luxemburgo, ações, títulos e obrigações de dívida nas principais multinacionais do mundo e uma série de imóveis no Reino Unido e em Portugal, em particular no Funchal. Todo um imenso património que, excluindo os 23,5 milhões de euros em bens declarados em Espanha, ascende aos 203 milhões de euros.

Desse valor, 85%, mais de 170 milhões, estão investidos em ações, fundos e obrigações, a par de mais de 20 milhões de euros em contas bancárias e 12 milhões em imóveis. Mas na declaração de património detido pelo jogador fora de Espanha, a que o "El Mundo" teve acesso este fim-de-semana, nem vestígio das sociedades offshore nas Ilhas Virgens britânicas para onde terá desviado pelo menos 74,8 milhões de euros em direitos de imagem.

Em 220 páginas, o astro do Real Madrid informa as Finanças espanholas que detém 218 bens no exterior, numa declaração de património que a Gestifute, a empresa do português Jorge Mendes que representa o avançado merengue, tornou pública na semana passada para tentar comprovar a idoneidade do futebolista — mas que, ao que apurou o "El Mundo" na sexta-feira, é posterior aos anos de contribuições tributárias que o jornal espanhol e os outros 11 parceiros do consórcio de jornalismo European Investigative Collaborations (EIC), entre eles o Expresso, têm estado a investigar no caso Football Leaks.

Através da Gestifute Jorge Mendes representa muitas das estrelas de futebol citadas no Football Leaks

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RUI DUARTE SILVA

A chamada declaração informativa sobre bens e direitos no estrangeiro, modelo 720, que Ronaldo apresentou à Autoridade Tributária espanhola a 30 de março de 2016 — um dia antes do fim do prazo legal — foi obtida pelo "El Mundo" à margem do Football Leaks com o objetivo de comprovar se o avançado português declarou, de facto, os seus interesses no paraíso fiscal das Ilhas Virgens britânicas, para onde é suspeito de desviar até 150 milhões de euros, de acordo com documentos fornecidos à revista alemã "Der Spiegel" pela plataforma de whistleblowers Football Leaks, mais de 1900 gigabytes de informação que um grupo de 60 jornalistas do EIC tem estado a analisar nos últimos sete meses.

Na declaração não há qualquer rasto da Tollin nem das outras duas sociedades offshore com sede no paraíso fiscal em questão, através das quais, segundo avançou o diário espanhol e o Expresso a 3 de dezembro, Ronaldo terá desviado os seus direitos de imagem desde 2009.

No documento fiscal aparece citada uma conta no banco suíço Mirabaud encerrada este ano na qual Ronaldo recebeu os fundos da venda dos seus direitos de imagem meses antes. No último trimestre do ano contava com um saldo médio superior a 10 milhões de euros nessa conta. O "El Mundo" sublinha que a apresentação desta declaração não exclui eventuais investigações da Agência Tributária às suas contas, bens e património, como a que, segundo fontes das Finanças, foi aberta há um ano e meio e que está agora numa fase "avançada" por suspeitas de evasão fiscal.

O modelo 720 apresentado por Ronaldo é um retrato de como o internacional português movimenta e aplica a sua fortuna internacional em busca de rentabilidade. Ao todo, o património declarado pelo português fora de Espanha supera os 400 mil euros por cada golo que já marcou na sua carreira, apontam cálculos do jornal madrileno.

No que toca a contas bancárias, Portugal é o parente pobre: no seu país natal Ronaldo só tem cinco contas em três bancos — no Banif acumula 20 mil euros, no Novo Banco pouco mais de 10 mil e no BPI apenas 3452 euros. Já no Luxemburgo, que oferece condições fiscais que Portugal não oferece, o cenário é o oposto. Na declaração destacam-se várias Sociedades de Investimento de Capital Variável (Sicav) no grão-ducado, constituídas pelos principais bancos do mundo que oferecem alta rentabilidade e fiscalidade quase nula. O jogador participa em 19 com 14 milhões de euros, destacando-se os 1,23 milhões na T. Rowe Price Funds Sicav Europea High, 1,14 milhões na Lombard Odier Funds Sicav e 1 milhão na JP Morgan Funds Sicav Europe Equity. Aparecem também citados 1,58 milhões num fundo da Value Partners registado nas Ilhas Caimão, outro paraíso fiscal, e múltiplos fundos de investimento na Suíça. Mas nada da Tollin nem de outras sociedades nas Ilhas Virgens britânicas.

Diz o "El Mundo" que uma das aplicações financeiras favoritas de Ronaldo, com base na declaração sob análise, são os fundos de investimento mas também a detenção de ações diretas em multinacionais escolhidas a dedo e conhecidas da maioria do público. Destacam-se, nesse ponto, participações nas farmacêuticas Bayer e Roche, com cerca de 1,3 milhões de euros em cada uma, 1 milhão investidos na Apple e ações na Zurich, Volkswagen, Daimler Benz, Carrefour e Johnson&Johnson.

A par disso, detém obrigações e títulos em multinacionais ainda mais famosas, como a Adidas, a AT&T Coca Cola, a Carlsberg ou a McDonald's, e emissões de dívida no estrangeiro das espanholas Iberdola e Telefónica. Não é particularmente adepto de investir na dívida soberana de Estados, havendo pelo menos uma excepção: os pouco mais de 671 mil euros que detém em títulos de dívida do México.