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Football Leaks

Trump fez negócios com donos da Doyen... mas não correu bem

Entre 2005 e 2009 Donald Trump aliou-se à família Arif para construir várias torres de apartamentos de luxo

Miguel Prado e Pedro Candeias

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O Presidente-eleito dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, esteve durante vários anos ligado, como parceiro de negócio, à rede de empresários cazaques que fundou a Doyen. A relação arrancou em 2005, quatro anos depois de o empresário Tevfik Arif ter lançado, em solo americano, a promotora imobiliária Bayrock.

Trump trabalhou com a Bayrock pelo menos até 2009, momento em que as relações com a família Arif arrefeceram. Trump deu uma preciosa ajuda à família Arif na promoção da Bayrock, empresa que também contou com financiamento do empresário Alexander Mashkevitch e que construiu o edifício Trump SoHo, em Nova Iorque. A torre de 46 andares, que teve um investimento de 450 milhões de dólares (€423 milhões ao câmbio atual), começou a ser construída em 2006 e ficou pronta em 2010.

Segundo um perfil publicado em 2007 pela revista “Real Estate Weekly”, Tevfik Arif reconheceu que Trump foi um importante facilitador de negócios. “Ele tem-nos dado uma grande ajuda desde o início e tem ajudado muito a abrir portas”, declarou o empresário cazaque. Arif já tentava há mais de uma década singrar no mercado norte-americano.

Na década de 1990, Tevfik Arif movimentava-se entre a Turquia e os EUA. O seu primeiro negócio imobiliário nos EUA foi em 1996, quando investiu na reabilitação de um centro comercial em Brooklyn. Só nove anos depois o empresário iniciaria uma parceria com Trump, pondo a Bayrock a desenvolver vários projetos imobiliários com aquela marca.

Mas, em 2008, cai o gigante Lehman Brothers. A economia norte-americana entra em convulsão. E também os empreendimentos de luxo da parceria entre a Bayrock e Donald Trump falhariam os objetivos. A Trump International Hotel & Tower Fort Lauderdale, na Florida, entrou em insolvência. Em 2010, Donald Trump informava já não estar associado ao edifício, que seria leiloado em 2012.

A torre Trump SoHo, em Nova Iorque, também não correu como era esperado. Em 2008, Ivanka Trump (filha do Presidente-eleito) afirmava que 60% dos apartamentos já estavam vendidos. Na verdade, quando o edifício ficou pronto, em 2010, a ocupação rondava os 15%. Em agosto de 2010 alguns compradores dos apartamentos da Trump SoHo processaram os promotores do empreendimento, incluindo a Bayrock e Tevfik Arif. O edifício acabaria por ser convertido num hotel.

Pelo meio falhou ainda o projeto que Trump e a família Arif tinham para um hotel em Moscovo e outros empreendimentos com a marca Trump noutras cidades. O magnata americano nem sequer teria de investir o seu dinheiro nos projetos. Concedia o uso da sua marca e receberia 20% a 25% dos dividendos.

Segundo os documentos a que a rede EIC-European Investigative Collaborations teve acesso, no âmbito da investigação Football Leaks, Tevfik Arif enfrentou em 2009 um processo do diretor financeiro da Bayrock, Jody Kriss, que acusou Arif e os restantes sócios do grupo de desfalque, fraude fiscal e extorsão.

De acordo com um documento revelado em maio deste ano pelo “The Telegraph”, em 2007 Trump aprovou um negócio que permitiu à Bayrock transformar uma venda de uma participação nos seus projetos num empréstimo do grupo islandês FL. A venda da participação implicaria uma taxa de imposto de 40%. Mas o negócio foi estruturado de modo a que o investimento islandês de 50 milhões de dólares fosse classificado como empréstimo, poupando 20 milhões de dólares em impostos.

Em novembro de 2015, Jody Kriss, o antigo diretor financeiro da Bayrock, voltou a processar Tevfik Arif. Na ação, em Nova Iorque, Kriss acusa-o de fraude e extorsão. A defesa de Jody Kriss diz que Tevfik Arif “esteve ligado ao crime organizado”, lembrando que foi detido em 2010 na Turquia, acusado de participar numa rede de prostituição (um processo do qual seria absolvido em 2011).