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A teia que a Doyen teceu para lucrar com o futebol europeu

Football Leaks

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Miguel Prado

Miguel Prado

com EIC (European Investigative Collaborations)

Jornalista

Pablo Medina (desenvolvimento), Alberto Hernández/Politiken (design), EIC (dados)

A Doyen não é só Nélio Lucas ou Marcos Rojo - é mais do que isso. Para perceber onde está e com quem está este fundo de investimento, percorra as ligações da infografia interativa no início do texto, na qual encontrará a maior parte dos clubes, jogadores, agentes, empresários e empresas que estão direta ou indiretamente relacionados com os negócios da bola da família Arif. Isto são informações que decorrem da análise do consórcio EIC, ao qual o Expresso se associou, e aos 18,6 milhões de documentos da plafatorma “Football Leaks” - nelas estão as pistas que ajudam, por exemplo, a perceber de onde vem a fortuna dos quatro irmãos Arif, os homens por trás da Doyen.

Para o presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, a Doyen tornou-se um dos alvos a abater. Em 2014, quando transferiu Marcos Rojo para o Manchester United por 20 milhões de euros, Bruno de Carvalho decidiu invocar a nulidade de um contrato feito dois anos antes com a Doyen, que concedia a esta empresa 75% dos direitos económicos de Rojo. O resultado: um processo arbitral na Suíça que condenou os leões a entregar à Doyen 12 milhões de euros. O Sporting recorreu, mas há dias o Supremo Tribunal da Suíça confirmou a decisão de primeira instância.

Com contratos firmados com os três grandes do futebol português, a Doyen é um operador de referência no financiamento do futebol europeu, em que se incluem clubes como o Atlético de Madrid, em Espanha, e o Twente, na Holanda. A infografia interativa que agora publicamos mostra apenas a parte mais visível das ligações que a Doyen e Nélio Lucas têm com outros agentes do negócio do futebol. Uma teia de relações que contempla os dados obtidos pela investigação “Football Leaks”, que permitiu descobrir de onde veio o dinheiro aplicado pela Doyen em diversos jogadores e clubes europeus.

Nomes como os dos oligarcas Alexander Mashkevitch, Alijan Ibragimov e Patokh Chodiev, “O Trio”, e a sigla ACCP (Aktyubinsk Chromium Chemiclas Plant) explicam a rede de contactos dos Arif na Rússia, Cazaquistão e Turquia e como foram esses contactos que ajudaram a família Arif nos anos 90. Donald Trump faz igualmente parte deste círculo e há para contar um investimento imobiliário que correu mal.

Nomes como os dos futebolistas Marcos Rojo ou Kondogbia mostram como a Doyen opera na colocação dos jogadores e na rentabilização dos seus negócios, chegando a ter margens de lucro superiores a 500%.

Nomes como o do treinador Claudio Ranieri, do seu agente Giuseppe Bozzo e do presidente do Mónaco Rybobovlev ilustram como se fecha os olhos à ética na hora de contratar.
Nomes como os do futebolista Neymar, do ex-futebolista David Beckham e do atleta Usain Bolt provam que a Doyen vai muito além do mero agenciamento dos jogadores - também gere a imagem dos desportistas.

As sociedades Vela, Rixos, Principal Sports Managment dizem-nos, por outro lado, como Nélio Lucas, Mariano Aguilar ou Juanma López recebiam da Doyen pelos seus honorários. E por falar em Nélio Lucas, este trabalho mostra-lhe com quem é que este improvável superagente português se dá - 22 do total de 74 interações têm a sua impressão digital.
Lucas é como a Doyen: não está em todo lado, mas parece.