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O verão em que Messi ia para o Real ganhar mais do que Ronaldo

Florentino Pérez sugeriu fretarem dois aviões e fecharem o acordo em pleno ar. Messi iria ganhar mais 35% do que o rival

Micael Pereira

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A 22 de junho de 2013, o advogado espanhol de Lionel Messi, Iñigo Juárez, escreveu um e-mail a Jorge Messi, pai e agente do jogador. Boas notícias. Tinha-se encontrado com os patrões do Real Madrid. Messi renovara uns meses antes, em fevereiro de 2013, o seu contrato com o Barcelona, que agora incluía uma cláusula de rescisão de 250 milhões de euros, mas o Real Madrid estava disposto a cobrir esse valor. Queriam contratá-lo custasse o que custasse, de acordo com o que Juárez contou ao pai do avançado na troca de correspondência obtida pela “Der Spiegel” e partilhada com o consórcio EIC (European Investigative Collaborations), de que o Expresso faz parte. Os merengues tinham dispensado José Mourinho do cargo de treinador em maio e, com Carlo Ancelotti, estavam em fase de renovação.

Florentino Pérez, o presidente do clube, ofereceu a Messi uma média de 23,125 milhões de euros líquidos durante oito épocas, até 2021. Além disso, o argentino poderia ficar com todos os ganhos dos contratos de imagem assinados antes do verão de 2013, sem partilhar nada com o Real, o que significava mais 20 milhões de euros por época.

A proposta contrasta com o que viria a ser negociado dois meses e meio depois com Cristiano Ronaldo, quando o avançado português fechou a extensão do seu vínculo com o Real até 2018 a troco de 15 milhões de euros líquidos por ano, a acreditar no que foi divulgado na altura pela imprensa espanhola. Passou nesse momento a ser o jogador mais bem pago do mundo, mas, ainda assim, ficou a ganhar menos 35% do que tinha sido oferecido ao seu maior rival. “Sim, o dinheiro é importante, não vou mentir, mas não foi a prioridade”, disse Ronaldo na ocasião, quando oficializou o prolongamento do contrato numa cerimónia pública no Estádio Santiago Bernabéu ao lado de Pérez. No Real desde 2009, e até à altura eleito uma única vez como melhor jogador do mundo, Ronaldo estava bem atrás do currículo de Messi, que conquistara esse prémio quatro vezes seguidas, de 2009 a 2012.

Escrito no céu

“Eles querem saber rapidamente o que se passa [do nosso lado]”, escreveu Juárez a Jorge Messi. “Estão dispostos a gastar o que for preciso pelo seu filho.” O Real impunha um prazo de quatro dias para fechar as negociações, uma condição dificultada pelo facto de os Messi estarem de férias.

Um plano de emergência foi sugerido por Madrid. O clube propunha fretar dois aviões privados para viabilizar uma reunião frente a frente entre as partes. O primeiro avião serviria para acolher a bordo os Messi e o seu advogado, mais Florentino Pérez, o diretor desportivo do Real e um especialista fiscal, munidos de uma proposta de contrato. As conversações seriam tidas no ar. Um outro jato iria depois apanhar o jogador e o pai aonde quer que tivessem aterrado para os devolver ao seu local de férias, enquanto Florentino Pérez regressaria a Madrid no primeiro avião.

De acordo com a correspondência analisada pela “Der Spiegel”, a generosidade mostrada pelos madridistas não se resumia ao jogador. Dariam uma comissão de 5% ao pai. Ao todo, 16 milhões em oito anos. E havia mais. Já era pública a existência de um inquérito-crime sobre suspeitas de evasão fiscal contra o avançado e talvez desse jeito uma ajuda nesse campo. “Eles disseram-me que estão a pressionar o Rajoy para se encontrar uma solução favorável para o seu filho”, escreveu Juárez. O advogado, no entanto, não considerou credível que o clube pudesse manobrar o primeiro-ministro espanhol.

Confrontado pela “Der Spiegel”, Juárez limitou-se a protestar contra a divulgação de e-mails internos, classificando-a como uma violação da lei, numa reação não muito diferente do próprio Real Madrid, que disse tratar-se de algo “absolutamente incorreto”.

Embora Leo tenha acabado por não ir para o Real, as negociações nos bastidores terão alavancado uma posição de força que levou a que o Barça voltasse a melhorar as condições do jogador logo no ano a seguir, em maio de 2014, subindo o seu salário fixo anual bruto para 29,9 milhões de euros, tendo em conta uma minuta de contrato a que o consórcio EIC teve acesso.