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Mad Max ou como Verstappen deu mais piada à F1

Tão talentoso quanto irreverente, Max Verstappen vai somando recordes mas também inimigos no Mundial. "É um fora de série", diz Tiago Monteiro sobre o holandês de 19 anos, o mais jovem de sempre a vencer um Grande Prémio e o rei das irritações no paddock

Lídia Paralta Gomes

Clive Mason/Getty

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Dizer a Kimi Raikkonen e Sebastian Vettel para terem vergonha na cara? Enfrentar Jacques VIlleneuve? Aconselhar Niki Lauda a visitar um psiquiatra? Todo o atrevimento do Mundo cabe nos 19 aninhos de Max Verstappen, the next big thing da Fórmula 1, o miúdo holandês que esta época se tornou no mais jovem de sempre a vencer uma corrida na disciplina-rainha do automobilismo, ao mesmo tempo que vai deixando de cabelos em pé alguns veteranos e decanos do paddock.

Em dois anos a lista de recordes de Max é longa. Em março de 2015, e perante um rol de críticas de muitos colegas de profissão, foi o mais jovem de sempre a iniciar uma corrida de Fórmula 1 (17 anos e 166 dias), para duas semanas depois se tornar no mais precoce a chegar aos pontos. Tudo isto antes de ter idade sequer para tirar a carta de condução. E depois de um impressionante primeiro ano, em que calou aqueles que o viam como demasiado novo para brincar aos carrinhos, no decorrer desta temporada foi promovido da Toro Rosso à Red Bull, deixando o Mundo de boca aberta com uma vitória logo na estreia, no GP Espanha. Foi o mais novo de sempre a subir ao lugar mais alto do pódio (18 anos e 227 anos), batendo por larga margem o anterior recorde, nas mãos de Sebastian Vettel - o alemão tinha 21 anos e 73 dias quando venceu o GP Itália de 2008.

“É um fora de série, um piloto fora do comum”, diz Tiago Monteiro, o último português a participar no Mundial de Fórmula 1, entre 2005 e 2006. “Mais do que o talento, que é óbvio, a grande diferença é a forma como se adaptou às novidades. Nem passa pelo facto dos carros serem mais rápidos. É lidar com a imprensa, com os patrocinadores, com as reuniões. Não é fácil e nem todos conseguem adaptar-se”, explica ainda o piloto portuense.

Para lá do talento, tudo em Max Verstappen é incomum. E numa disciplina que nos últimos anos nos habituou a longos domínios (Schumacher primeiro, Vettel depois e, nos dois últimos anos, Lewis Hamilton), à supremacia da máquina e aos gentlemen - as tatuagens de Hamilton foram do mais subversivo que apareceu na Fórmula 1 na última década - aquele pêlo na venta é como uma lufada de ar fresco para quem, por exemplo, vibrava com as guerras entre Ayrton Senna e Alain Prost. Há quem pense que o engenho de Verstappen é do mesmo tamanho que a sua impertinência e arrogância. Mas que o miúdo tornou o Mundial mais entusiasmante, com a sua atitude e condução agressiva, lá isso tornou.

Kimi Raikkonen é conhecido no meio como o Ice Man e por isso mesmo será dos que menos piada acha à irreverência de Max. Os primeiros problemas começaram em julho, no GP Hungria, quando o finlandês da Ferrari acusou Verstappen de uma “condução pouco correta”, ao defender a sua posição de uma forma, digamos, mais musculada. Max respondeu à letra ao veterano de 36 anos: “Todos tentam encontrar desculpas”.

No fim de agosto a coisa azedou a sério. No GP Bélgica, Max foi ‘apertado’ por Kimi Raikkonen e Sebastian Vettel na curva 1 de Spa, vingando-se mais tarde, ao impedir no último momento a ultrapassagem do finlandês na reta Kemmel, com uma travagem a fundo. O cubo de gelo derreteu. Primeiro com uma série de insultos via-rádio e depois à imprensa. “Um dia ainda vai causar um acidente grave se não mudar o seu estilo de condução”, atirou Raikkonen. O contra-ataque não demorou. “Com a experiência que têm, Raikkonen e Vettel deviam ter vergonha na cara por terem causado uma colisão como a do início da corrida. E por isso não têm de fazer nenhum drama sobre o que se passou a seguir. Precisam de entender que eu não estava feliz depois de me terem estragado a corrida”, disse Max, que deixou ainda claro que não pensa mudar o seu estilo: “Se não gostam, problema vosso”.

Irreverência começou cedo

Sarno, em Itália, era apenas mais uma paragem da Taça do Mundo de karting de 2012 e Max Verstappen, o rapaz que nas primeiras 60 corridas tinha vencido 59, ia bem lançado para dominar mais uma prova. Mas depois de garantir a ‘pole-position’, o miúdo de 15 anos falhou o arranque, perdeu a liderança, pouco depois a paciência e à segunda volta tentou uma manobra kamikaze que o deixou fora de pista. E o kart, onde o pai tinha trabalhado horas a fio, ficou destruído. “Não lhe falei durante sete dias”, revelou Jos Verstappen, pai de Max, que entre 1994 e 2003 fez mais de 100 corridas na Fórmula 1. Por lá passou sem história, a não ser aquela de ter sido colega de equipa de Michael Schumacher durante o ano do primeiro título do alemão, precisamente em 1994. O filho parece destinado a mais, muito mais.

Em 2014, numa entrevista ao “The Telegraph” em Austin, num fim de semana em que Max fez 17 anos e foi piloto de testes da Toro Rosso, Jos dizia que o episódio de Sarno e aquela “terapia de silêncio” tinham moldado Max. Talvez tenham tornado o miúdo mais forte, mas Jos estava bem enganado: o ímpeto e a agressividade não acalmaram. Continuam lá e bem à flor da pele.

Após o GP Bélgica as críticas a Verstappen multiplicaram-se. O talento não é um livre-passe para fazer tudo em pista. Atrás de Raikkonen e da Ferrari, que pediram explicações à FIA (a Federação Internacional do Automóvel), veio Jacques Villeneuve, campeão do Mundo em 1997. “Um dia ainda mata alguém. O problema é a FIA, está a protegê-lo porque querem que ele seja uma estrela”, atirou o canadiano, que também não ficou sem resposta, com Max a recordar a morte de um comissário de pista durante o GP Austrália de 2001, na sequência de um acidente de Villeneuve.

Verstappen e Raikkonen às turras em Spa

Verstappen e Raikkonen às turras em Spa

Mark Thompson/Getty

Estes comentários levaram Niki Lauda a aconselhar “tratamento psiquiátrico” ao miúdo de 18 anos. E nem os 67 anos e três títulos mundiais do decano austríaco impediram Verstappen de fechar a boca: “Se eu vou, é melhor ele vir comigo”.

Tiago Monteiro sabe o que é a pressão da Fórmula 1 e defende Max Verstappen. “Reagiu de forma natural aos ataques, fez o que achou que devia fazer. A atitude ligeiramente arrogante também é uma forma de se proteger contra a pressão”, explica o piloto português para quem Max, pela sua irreverência, é “o símbolo de uma nova Fórmula 1, o sangue novo que o Mundial precisava”.

Monteiro reconhece que a Fórmula 1 tem muito a ganhar com Max, piloto capaz de paixões e ódios, um rapaz cheio de personalidade, que vai ajudar a vender muitos bilhetes para as corridas e a aumentar as audiências televisivas. O maior clube de fãs de Verstappen, criado no final de 2014, tem mais de 50 mil membros. “Mas não acho que haja qualquer proteção, como disse Villeneuve. Aliás, o Villeneuve nem pode falar muito porque sempre foi um piloto arrogante e que gostava de falar alto. Nem se devia meter nesta conversa”, atira.

Toto Wolff, responsável da Mercedes, diz que a condução "refrescante e perigosa" de Verstappen tem qualquer coisa de Ayrton Senna. Nas comparações com o brasileiro, Monteiro é mais comedido. Ou cauteloso. “É injusto comparar porque estamos a falar de épocas muito diferentes. Hoje em dia tudo é mais rápido. Mas a nível de talento, talvez se possa aproximar do Senna”. Calma também na hora de perspectivar até onde pode Verstappen chegar. “Pode ter um futuro muito grande e está numa equipa muito boa, onde tem possibilidades de ser campeão do Mundo. Mas é preciso ter cuidado com estes inícios de carreira. Por uma razão ou outra as coisas podem mudar”.

Até onde Verstappen pode chegar é uma questão que só poderá ser respondida no futuro. Para já, vamos aproveitando o que ele nos dá no presente. Porque de repente, a Fórmula 1 voltou a ter muita piada.