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Otimizar o interface optical lateral (?) não foi a única coisa que Ron Dennis fez

Fim de uma era na Fórmula 1: Ron Dennis, guru da McLaren durante 35 anos, foi afastado da liderança da escuderia após uma guerra de tronos com os restantes acionistas. Com o britânico ao leme, a McLaren conquistou 10 títulos mundiais de pilotos, ele que teve a coragem de juntar Alain Prost e Ayrton Senna na mesma box. Sai agora pela porta pequena, com a escuderia em crise de patrocínios e resultados

Lídia Paralta Gomes

Mark Thompson/Getty

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Quando a McLaren inaugurou a nova sede em Woking, em Inglaterra, Ron Dennis, o homem forte do grupo, deixou a seguinte frase aos jornalistas enquanto fazia uma visita guiada ao local: “Reparem que otimizamos o interface optical lateral deste edifício”. Ah?

O que Dennis queria dizer era que o edifício tinha muitas janelas.

O estilo eloquente – às vezes demasiado, diga-se –de Ron Dennis deixará saudades no paddock. Estilo esse que tinha até nome próprio: “Ronspeak”. Trinta e cinco anos após assumir os destinos da escuderia britânica, Dennis está de saída da Fórmula 1, com polémica e pela porta pequena, depois dos acionistas da equipa se terem fartado dos maus resultados e da sua incapacidade em tornar a antes dominadora McLaren numa equipa competitiva. Tão certa como a morte ou os impostos era a presença de Ron Dennis pelos circuitos por onde passa o Mundial de Fórmula 1. Deixará de o ser a partir do próximo ano.

A saída de Dennis marca o fim de uma era na Fórmula 1. Mudaram as regras, mudaram os pilotos, as equipas, mas Dennis era a constante.

Foi no seu reinado que a McLaren se tornou numa powerhouse da Fórmula 1. Dos 182 grandes prémios ganhos pela escuderia (só a Ferrari tem mais), 158 foram sob a sua batuta e Dennis estava à frente da equipa em 17 dos 20 títulos mundiais do palmarés da McLaren: 10 de pilotos e 7 de construtores.

Além disso, foi ele que abriu as portas a pilotos como Niki Lauda (campeão em 1984), Alain Prost (1985, 1986 e 1989), Ayrton Senna (1988, 1990 e 1991), Mika Hakkinen (1998 e 1999) e Lewis Hamilton (2008), entre outras figuras da disciplina como Nigel Mansell, Kimi Raikkonen, Juan Pablo Montoya, Jenson Button ou Fernando Alonso.

Nem isso ajudou Dennis a sobreviver a dois anos de descalabro, marcados pela saída da Mercedes, pela fuga de patrocinadores e por uma parceria com a Honda que colocou a McLaren na cauda do pelotão, mesmo com uma dupla de pilotos de luxo, Button e Alonso.

Dennis, de 69 anos, 50 deles dedicados ao desporto automóvel – começou como mecânico da Cooper em 1966, com apenas 18 anos –, ainda tentou em tribunal travar o “golpe” liderado por Mansour Ojjeh, outro dos acionistas da McLaren. O empresário franco-saudita foi desde sempre o seu braço direito nos negócios, mas a relação azedou quando, de forma proporcional, as taças deixaram de aparecer e a gestão de Dennis ficou mais e mais autocrática.

Dennis com Senna: o brasileiro ganhou os seus três títulos mundiais na McLaren

Dennis com Senna: o brasileiro ganhou os seus três títulos mundiais na McLaren

Pascal Rondeau/Getty

Quando na terça-feira se tornou oficial a decisão da McLaren de colocar Dennis em gardening leave, expressão engraçada que os britânicos inventaram para designar quando alguém é afastado de uma empresa mas continua na folha de salários, a resposta veio no melhor “Ronspeak”. “Os argumentos que apresentaram são absolutamente espúrios”. Espúrios, como quem diz ilegítimos. “O meu estilo de gestão é o mesmo de sempre e é o mesmo que permitiu à McLaren tornar-se num grupo automóvel e tecnológico que venceu inúmeros títulos mundiais e cresceu para um negócio de 980 milhões de euros ao ano”, disse ainda, num comunicado pouco amigável.

O melhor de Senna

Excêntrico, palavroso e, por vezes, polémico, não se pode dizer que Ron Dennis também não fosse corajoso. Foi dele a decisão de juntar na mesma equipa Alain Prost e Ayrton Senna, que coincidiram na McLaren em 1988 e 89. Duas épocas de tensão, desentendimentos, mas também de grande espectáculo, que culminaram com o acidente entre os dois pilotos no GP Japão de 89, que levou ao título de Prost. No ano seguinte, o francês mudou-se para a Ferrari.

Dennis nunca deu ordens de equipa aos pilotos e ainda hoje defende a ideia de os juntar. Mais, acha que foi a melhor coisa que lhe aconteceu em todos estes anos à frente da McLaren. “Não acho que tenha sido um risco reuni-los. Ambos queriam vencer e sabiam que a filosofia da nossa equipa era a de dar aos pilotos as mesmas condições e qualidade de equipamento. A rivalidade entre ambos foi fantástica para a equipa. Se alguém me perguntasse o que me deixou feliz na minha carreira eu diria que foi o ótimo trabalho que fiz lidando com duas personalidades tão fortes naqueles dois anos”, disse a Christopher Hilton, biógrafo e autor do livro “Ayrton Senna: as time goes by”.

O legado de Ron Dennis ficará de forma indelével ligado ao de Ayrton Senna. Foi com Dennis ao leme da McLaren que o brasileiro venceu os seus três títulos mundiais. Os anos 80 foram, aliás, dourados para a McLaren, que venceu cinco títulos mundiais de pilotos e quatro de construtores.

A relação dos dois foi feita de altos e baixos, mas Dennis fala de Senna sempre como um “bom ser humano”. “Senna pode ter feito alguns erros, mas era um homem cheio de princípios”, lembrou Ron Dennis numa entrevista ao site da McLaren, onde recordou ainda o dia em que discutiu com o brasileiro os detalhes do contrato que o levaram para a equipa, em 1988. “Estávamos a discutir por causa de meio milhão de dólares quando eu tive a ideia de decidirmos as nossas diferenças com moeda ao ar. O inglês do Ayrton não era nada bom naquela altura... tive de fazer desenhos num pedaço de papel para lhe explicar tudo!”.

Os rabiscos valeram a pena: entre 1988 e 1993, Senna deu 35 vitórias e 46 poles à McLaren, que entra agora numa nova era, sem o seu guru espiritual, colocado na prateleira.